Não foram poucas as vezes em que os economistas do ICL (Instituto Conhecimento Liberta) disseram que a disparada do dólar no ano passado, que fez a moeda ultrapassar a barreira dos R$ 6 e bater na casa dos R$ 6,30 em meados de dezembro, não tinha como base o cenário fiscal. Enquanto analistas da Faria Lima, coração do mercado financeiro do país, tentavam fazer colar a tese de que a subida da divisa norte-americana era resultado da desconfiança do mercado com a questão fiscal do governo, Eduardo Moreira, Deborah Magagna e André Campedelli reforçavam com argumentos de que o pano de fundo não era bem esse.
Além do ataque especulativo, eles reforçavam que a vitória de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos provocava a instabilidade da moeda ao redor do mundo. Depois, quando assumiu e não cumpriu logo de cara o que prometera durante a campanha, como sobretaxar produtos importados de países como China, México e Canadá, a moeda começou a baixar ao redor do mundo, mas principalmente por aqui.
Em novembro, às vésperas da eleição presidencial nos EUA, Eduardo Moreira já cantava a bola: “O mercado está super nervoso nesses últimos dias com [uma possível vitória do] Trump, que tem aparecido como favorito para ganhar essa eleição”, disse na edição de 4 de novembro do ICL Notícias 1ª edição.
Isso porque, segundo ele, o mercado acreditava que, se Trump ganhasse, ele imporia mais barreiras comerciais, com sobretaxação a países; começaria a deportar imigrantes, o que elevaria o custo de mão de obra nos EUA; e aliviaria taxação de ricos, o que pode reduzir a arrecadação norte-americana.
Contudo, veio a posse e Trump demorou a adotar algumas medidas. “O que se esperava da posse do Trump, dos decretos, era que ele fosse ter um posicionamento mais duro em relação às tarifas comerciais. Esperava-se que ele já ia chegar colocando tarifas altas na China, de pronto, que ele já ia subir as tarifas comerciais globais. Mas, na posse, ele só tangenciou a China. A expectativa com a China era de uma tarifa comercial de até 60% e que ela fosse ser colocada de uma vez e em outros países também, mas, conforme passou o dia 1 [da posse], as pessoas entenderam que não vai ser de uma vez essas medidas”, apontou a economista e apresentadora do ICL Mercado e Investimentos, Deborah Magagna, em comentário no mês passado.
“Os mercados se posicionam na expectativa, vendo esse cenário que estava se desenhando antes da posse, de tarifas mais agressivas, todo mundo foi se proteger em dólar. Isso fortalece o dólar frente aos pares [outras moedas], fortalece os pares frente aos [países] emergentes, porque sai dinheiro desses países para se proteger em dólar, porque todo mundo acredita que o dólar vai subir”, explicou Deborah.
Como o real foi a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar em 2024 (a divisa norte-americana acumulou alta de 27% em 2024), é natural que o movimento de queda tenha começado mais forte aqui.
Míriam Leitão diz que queda do dólar mostra que diagnóstico do fiscal estava errado
Em análise publicada na quarta-feira (5) em seu blog no jornal O Globo, a jornalista Míriam Leitão vai na mesma linha que os economistas do ICL. Em linhas gerais, ela diz que o dólar corresponde à conjuntura e não apenas a um fator específico.
Ontem, o dólar voltou a subir após 12 quedas consecutivas. A moeda americana começou a quarta-feira em R$ 5,75, e fechou com alta de 0,38%, cotada a R$ 5,7942.
A jornalista disse que conversou com um economista sobre câmbio e “ele disse que o dólar está ‘leve’ para subir e difícil para cair”. “A moeda continua mais volátil, mas em patamar próximo ao dos R$ 5,80, lembrando que, em 18 de dezembro, chegou a ser cotada R$ 6,28”, escreveu a Míriam.
Ela também reforça que o movimento de saída de dólares do Brasil no fim do ano passado ajudou a elevar a cotação da divisa, mas a valorização “não aconteceu só por aqui, foi global, às vésperas da posse de Donald Trump”.
E vai na mesma linha de Deborah, diz que “uma política protecionista que se estima vá produzir mais inflação nos Estados Unidos e, consequentemente, juros mais altos por lá, fortaleceu a moeda americana ao redor do mundo”.
No Brasil, segundo Míriam, “a movimentação da moeda americana foi tratada como resultado do que diziam ser o prenúncio de um colapso fiscal”. Ela reforça que a preocupação fiscal de fato existe, pois a dívida do país representa 80,1% do PIB (Produto Interno Bruto) e é uma dívida cara. Porém, “as declarações feitas no fim de 2024 foram muito além do que estava realmente acontecendo no Brasil”.
Apesar de todos os prognósticos negativos, o Brasil fechou o ano cumprindo a meta do déficit fiscal. Lembrando que foi retirada da conta os gastos excedentes com as chuvas no Rio Grande do Sul, o que faz todo sentido, por se tratar de uma emergência.
Na avaliação da jornalista, “se a meta foi cumprida e a exceção [retirar o RS da conta] foi feita corretamente, isso quer dizer que não estava acontecendo uma piora fiscal tão grande quanto alardeava o mercado para justificar o salto do dólar. Prova disso é que a questão fiscal não se alterou e o movimento da moeda americana se inverteu neste início de ano”.
Menor pressão inflacionária
Por fim, Míriam analisa que com a cotação do dólar caindo, também são reduzidas as pressões inflacionárias, incluindo os preços dos alimentos, que virou o grande foco do governo Lula (PT) este ano.
“Somado a isso, tem a previsão de uma boa safra, que indica também alívio sobre a inflação de alimentos. Não vai haver queda como em 2023, mas vai desacelerar em relação a 2024. Outra notícia que pode ter impacto sobre a inflação é a desaceleração da economia”.
Em entrevista à própria Míriam na GloboNews, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçou que a política monetária mais contracionista, com a taxa Selic na casa dos 13,25%, deve reduzir a inflação nos próximos meses.
Ela lembra que esse efeito já está acontecendo em dados de emprego do Caged, do Ministério do Trabalho, e na produção industrial, que recuou 0,3% em dezembro, após ter caído 0,7% no mês anterior.
No ano, porém, o setor aponta crescimento de 3%, mas o último trimestre já teve resultado negativo, o que coincide com o ciclo de aperto monetário.