O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou na segunda-feira (19) que a autoridade monetária deve manter a taxa de juros (Selic) em patamar elevado por um período mais prolongado do que o habitual. A declaração foi feita durante participação no 12th Annual Brazil Macro Conference, promovido pelo Goldman Sachs, em São Paulo.
Segundo Galípolo, diante das expectativas de inflação ainda desancoradas — ou seja, acima da meta central (3%) — e do cenário econômico atual, a manutenção de uma política monetária mais restritiva se mostra adequada.
“Faz sentido permanecermos com juros altos por mais tempo. Estamos no quarto ano consecutivo com crescimento do PIB [Produto Interno Bruto] acima de 3%, o que também reforça essa abordagem”, afirmou.
A taxa Selic foi elevada para 14,75% ao ano na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, atingindo o maior nível em quase duas décadas.
Apesar da alta, o mercado financeiro projeta que esse tenha sido o último aumento no ciclo atual, com possibilidade de cortes apenas a partir de 2026.
Galípolo havia reconhecido desaquecimento da economia
O Banco Central tem reiterado que uma desaceleração da economia é parte essencial da estratégia para levar a inflação de volta à meta de 3%. O chamado “hiato do produto” — diferença entre o que a economia produz e seu potencial sem gerar inflação — permanece positivo, indicando que a atividade ainda opera acima do ideal para conter pressões inflacionárias.
Apesar disso, os sinais de desaceleração são considerados incipientes. O próprio Galípolo reconheceu, em março, que há indícios de enfraquecimento da atividade econômica, mas que o quadro ainda exige atenção.
Para 2025, o mercado projeta um crescimento do PIB de 2,02%, contra 3,4% em 2024. Já o Banco Central é mais conservador e estima uma expansão de 1,9% para este ano.
Na véspera, a Secretaria de Política Econômica (SPE), vinculada ao Ministério da Fazenda, anunciou uma revisão positiva em sua estimativa para o crescimento do PIB em 2025. A projeção subiu de 2,3% para 2,4%, mesmo diante de um cenário desafiador, com juros ainda elevados.
A autoridade monetária também reconheceu, na ata da última reunião do Copom, que os juros elevados já contribuem para reduzir o ritmo da atividade econômica, com efeitos que devem se intensificar no mercado de trabalho nos próximos meses.
Freio no crescimento
As declarações de Galípolo reforçam a percepção de que o Banco Central pretende seguir com uma política monetária cautelosa e resiliente, mesmo diante de sinais de enfraquecimento econômico, o que é ruim para a população de modo geral. Juros altos encarecem o crédito e, consequentemente, freiam o consumo e os investimentos. Além disso, juros altos encarecem ainda mais a dívida pública.
A sinalização de estabilidade prolongada nos juros é um alerta de que os cortes nos juros não virão no curto prazo. E, enquanto isso, o crescimento da economia deverá seguir em ritmo mais moderado.