O governo do presidente argentino Javier Milei anunciou na quinta-feira (22) um ambicioso plano econômico que permitirá aos cidadãos utilizar dólares mantidos fora do sistema financeiro — inclusive os não declarados — sem a necessidade de comprovar a origem dos recursos. A proposta, que ainda será formalizada por meio de um decreto presidencial e submetida ao Congresso, foi intitulada “Plano de Reparação Histórica da Poupança dos Argentinos”.
De acordo com o porta-voz da Presidência, Manuel Adorni, a medida faz parte de um esforço mais amplo para desregulamentar a economia e estimular o uso de capitais que, até então, permaneciam no mercado informal – o famoso “debaixo do colchão”.
O ministro da Economia, Luis Caputo, detalhou que os recursos poderão ser usados para aquisição de bens como eletrodomésticos, veículos, imóveis e terrenos — tudo isso sem que os cidadãos “precisem dar explicações”.
Plano de Milei: Entre estímulo à economia e apologia à sonegação
A proposta é controversa e tem sido acompanhada de declarações igualmente polêmicas. Em entrevista a um programa de TV, Milei elogiou os sonegadores de impostos, classificando-os como “heróis” que “se protegeram dos políticos ladrões”.
O presidente chegou a sugerir que os que seguiram as regras talvez tenham sido “menos talentosos ou corajosos” ao se manterem dentro do sistema formal.
“Se todos tivessem conseguido fazer o mesmo [sonegar impostos], talvez os políticos tivessem parado de nos roubar”, afirmou Milei, em comentário que provocou forte repercussão nas redes sociais e na imprensa argentina.
Devolução bilionária ao setor privado
Segundo estimativas de Caputo, os argentinos mantêm entre US$ 200 bilhões e US$ 400 bilhões fora do sistema bancário — o equivalente a até dois terços do PIB nacional, estimado em cerca de US$ 600 bilhões. “Trata-se de uma injeção de capital que pode gerar uma forte aceleração na taxa de crescimento”, afirmou o ministro.
Caso o plano tenha sucesso e a economia cresça entre 6% e 8%, Caputo promete devolver ao setor privado entre US$ 420 bilhões e US$ 550 bilhões por meio de cortes tributários. A promessa, no entanto, depende diretamente da reação do mercado e da adesão da população à nova política.
Flexibilização do câmbio
O plano de Milei ocorre em meio a mudanças significativas na política cambial argentina. No mês passado, o governo extinguiu o chamado “cepo cambiário” — sistema de controle que restringia a compra de dólares — em vigor desde 2019. Com isso, o peso argentino passou a operar em regime de câmbio flutuante, com cotação variando entre 1.000 e 1.400 pesos por dólar, conforme a oferta e a demanda de mercado.
A desvalorização contínua da moeda nacional e a inflação persistente levaram muitos argentinos a recorrer ao mercado paralelo, o chamado “dólar blue”, em busca de proteção financeira. A nova política busca reverter esse cenário, ampliando a oferta de dólares e atraindo capitais represados.
Além das reformas internas, o governo também aposta no apoio do FMI (Fundo Monetário Internacional) para estabilizar a economia, conter a inflação e criar espaço fiscal para novos cortes de impostos.
Análise: um plano de alto risco
Especialistas alertam que, embora a medida possa atrair recursos para o sistema formal e dar fôlego ao consumo, ela também abre espaço para legalização de capitais de origem duvidosa e enfraquece o princípio da responsabilidade tributária. A retórica oficial, que glorifica a evasão fiscal, levanta dúvidas sobre os incentivos de longo prazo para o cumprimento voluntário das obrigações fiscais.
Além disso, o sucesso do plano depende de uma confiança renovada no sistema financeiro argentino — algo que, historicamente, tem sido difícil de construir.