Governo alerta: Ampliar isenção do IR sem taxar mais ricos pode agravar desigualdade

Conclusão faz parte de estudo da Fazenda sobre projeto do governo de mudanças no IR enviado em março ao Congresso Nacional
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A promessa de aliviar o bolso da classe média ao ampliar a faixa de isenção do IR (Imposto de Renda) pode esconder uma armadilha social e fiscal. Um estudo da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, divulgado nesta sexta-feira (13), alerta que implementar a medida de forma isolada — ou seja, sem taxar os mais ricos — pode piorar as contas públicas e até aumentar a desigualdade de renda no Brasil.

O projeto do governo, enviado ao Congresso em março, propõe elevar a faixa de isenção de R$ 2.824 para R$ 5 mil a partir de 2026. Também prevê isenção parcial para rendas entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.

A medida retiraria cerca de 10 milhões de contribuintes da obrigação de pagar imposto de renda. Mas há uma condição para que a equação funcione: a taxação progressiva dos chamados “super-ricos“, aqueles com rendimentos mensais superiores a R$ 50 mil.

“Estamos pedindo que uma pessoa que ganha mais de R$ 1,2 milhão por mês, que mora na cobertura desse prédio chamado Brasil, pague um mínimo de imposto”, disse Guilherme Mello, secretário de Política Econômica.

A fala do secretário expõe uma verdade incômoda: a elite brasileira, apoiada por lobby no Congresso Nacional, ainda acredita que contribuir com o país é facultativo, não uma obrigação.

Com isso, não se distribui responsabilidades e, do jeito que está, os mais ricos seguem com isenção de fato — e os mais pobres, com a conta.

Isenção do IR só trará justiça tributária com taxação dos mais ricos

Não é uma proposta radical. Trata-se, simplesmente, de corrigir uma distorção que compromete a justiça fiscal do país. Hoje, indivíduos no topo da pirâmide pagam, proporcionalmente, menos imposto de renda do que professores, enfermeiras ou policiais militares.

Segundo o estudo, a alíquota efetiva de quem ganha até R$ 23 mil por mês chega a 12%. Para os 0,01% mais ricos, com renda média mensal superior a R$ 5,2 milhões, a alíquota desaba para apenas 5,67%.

A proposta do governo de criar uma alíquota mínima de 10% para todas as rendas elevaria em até 45% a contribuição efetiva dos ultrarricos. Nada mais justo em um país onde os serviços públicos são a tábua de salvação da maioria e onde o orçamento federal é cronicamente estrangulado.

Congresso é obstáculo

Ainda assim, parte do Congresso resiste. Parlamentares que defendem a ampliação da isenção hesitam em aprovar qualquer aumento de tributos dirigido à camada mais privilegiada da população. É um paradoxo perverso: ao não se ter coragem de mexer no topo da pirâmide, quem sustenta o sistema continua sendo o meio e o andar de baixo.

 

Carregar Comentários
Assine nosso boletim econômico
Receba gratuitamente os principais destaques e indicadores da economia e do mercado financeiro.