Acho que desaprendemos a namorar.
Complicamos demais as coisas, criamos novos nomes e regras para fugir daquilo que, em tese, é o que buscamos: o amor. Ou não. Às vezes, a gente acha que quer amar e ser amado, mas nem se permite viver isso plenamente.
Recentemente li o livro “Eu só existo no olhar do outro?”, de Ana Suy e Christian Dunker. Nele, os psicanalistas propõem uma reflexão profunda sobre o amor e a existência. Em um trecho, Ana diz:
“São tantas as defesas que a gente acaba tendo essa proliferação, esse excesso de nomes. Muitas nomenclaturas para não dizer que está namorando… São muitas entrevistas feitas para se dizer como é que sou, como o outro é. Na verdade, o que está em jogo ali é justamente como ‘não’ se apresentar ao outro, né? Quando nos esforçamos muito para nos apresentar, o que tem por trás é o que não queremos que apareça.”
Essa coisa da “melhor versão” que tentamos mostrar ao outro — mesmo que nem a conheçamos — é um retrato do nosso tempo. Está todo mundo quebrado em algum nível, tentando manter a sanidade numa sociedade que se canibaliza.
Tem que pagar boleto, criar filhos, estudar, se politizar, aprender a usar o ChatGPT (sim, isso também!). Mas, claro, sem esquecer do corpo, da mente e do espírito. Namastê.
No meio disso tudo, alguns poucos corajosos e otimistas ainda buscam o amor romântico. E, quem sabe, encontram ali uma parceria — não só para enfrentar o mundo, mas para transformá-lo junto.
A verdade é que somos a soma de todas as nossas versões. Melhor se apresentar assim mesmo: em construção, às vezes mal-acabado, cheio de dúvidas, mas honesto. Admitir que é falho dá ao outro a permissão para também ser.
Porque, no fundo, o que a gente procura não é o outro. É a gente mesmo.
Quando dois se escolhem — apesar das versões, das falhas, e mesmo quando o mundo está pesado — é esse o amor que vale a pena. Aquele em que a gente aprende e ensina a confiar, se comprometer, se conhecer e se responsabilizar.
Amar é verbo. É ação. E é necessário