Por Leila Cangussu
O Pix é parte do seu cotidiano. Você usa para pagar o almoço, receber por um trabalho, transferir dinheiro para um amigo ou quitar uma conta de última hora. Desde que foi lançado, em novembro de 2020, ele mudou a forma como o dinheiro circula no Brasil. Mas o que se inicioucomo um sistema pensado para agilizar pagamentos internos começou a aparecer no centro de uma disputa global.
O debate deixou de ser apenas sobre tecnologia financeira e passou a envolver política, geopolítica e o papel do dólar na economia internacional. Essa mudança revela algo importante: um sistema de pagamento nacional pode mexer com estruturas de poder que pareciam intocáveis.
Entender esse cenário é essencial se você quer compreender como o Pix se conecta à economia global e ao domínio da economia do dólar.
Quem criou o Pix?
O Pix foi criado pelo Banco Central do Brasil e entrou em operação em 16 de novembro de 2020. A proposta era simples, mas ambiciosa: criar um sistema de pagamentos instantâneo, disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana, gratuito para pessoas físicas e barato para empresas.
A obrigatoriedade de adesão para todas as instituições financeiras reguladas foi decisiva para que o sistema ganhasse escala rapidamente. Não foi uma tecnologia privada que precisou conquistar espaço — foi uma infraestrutura pública que chegou de forma estruturada e simultânea a todo o mercado.
Em poucos meses, o Pix virou o principal meio de pagamento no país. Em 2025, segundo o Banco Central, 76,4% da população já havia aderido ao sistema. Isso significa que praticamente três em cada quatro brasileiros já transferiram ou receberam valores pelo sistema. E esse alcance massivo fez o Pix atravessar fronteiras (não necessariamente pela via técnica, mas pelo impacto econômico e político).
Como o Pix funciona?
Quando você usa o Pix, a transferência é registrada e confirmada em segundos. Não há necessidade de esperar compensação bancária, como acontecia com os TEDs e DOCs.
Alguns pontos explicam por que ele funciona de forma tão eficiente:
- Infraestrutura centralizada: o Banco Central opera o sistema e garante que todas as instituições participantes estejam conectadas.
- Chaves Pix: identificadores simples (CPF, e-mail, telefone ou código aleatório) substituem dados bancários longos.
- Liquidação instantânea: o dinheiro sai da conta de quem paga e entra na conta de quem recebe imediatamente.
- Baixo custo: pessoas físicas não pagam taxa Pix na maioria das transações; empresas pagam tarifas muito menores que as de cartões.
O Pix reduz intermediários, corta custos e acelera o fluxo financeiro. Para a população, isso significa conveniência. Para empresas que lucram com tarifas e prazos de compensação, significa perda de receita.
Por que o Pix incomoda?
No Brasil, o Pix ocupa um espaço que antes pertencia a cartões de débito, crédito e plataformas de pagamento como PayPal. Isso afeta diretamente as empresas que têm grande parte de sua receita baseada em taxas sobre transações.
Veja a comparação:
- Pix: custo médio para empresas de 0,33% por transação.
- Cartão de débito: entre 1,23% e 2%.
- Cartão de crédito: entre 3% e 5%.

Além disso, o Pix não é apenas uma concorrência de mercado. Ele é um produto estatal que funciona — algo que, para setores privados que dominam o mercado, é motivo de incômodo e, para governos estrangeiros, é um ponto sensível.
A pressão dos Estados Unidos
Em 2025, o governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, incluiu o Brasil em uma investigação sobre “práticas desleais” em serviços de pagamento eletrônico.
O argumento norte-americano é que o Brasil estaria favorecendo seu próprio sistema, prejudicando empresas estrangeiras. O pano de fundo é a defesa de gigantes do setor de pagamentos, como Visa, Mastercard, Apple Pay, Google Pay e PayPal, todas com presença e interesse no mercado brasileiro.
Trump chegou a impor tarifas de até 50% sobre exportações brasileiras, usando o Pix como parte da justificativa. Oficialmente, a medida é para “corrigir práticas comerciais injustas”. Na prática, é uma reação contra um sistema que reduz a dependência de serviços controlados por empresas e infraestrutura dos EUA.
Pix e o domínio do dólar
O dólar é a principal moeda de referência no comércio internacional. Mesmo quando dois países negociam sem relação direta com os Estados Unidos, muitas vezes usam o dólar como intermediário. Isso garante ao governo americano influência e poder sobre transações globais.
Com o avanço do modelo de pagamento e a possibilidade do Pix Internacional — projeto do Banco Central para conectar o sistema brasileiro a redes de outros países — o sistema brasileiro ameaça essa hegemonia. Se o Brasil puder fazer pagamentos diretos para outros países usando moedas locais, o papel do dólar nessas operações diminui.
O impacto potencial vai além da economia. Menos transações em dólar significam menos poder para impor sanções e restrições financeiras a outros países, algo que os EUA usam como ferramenta política.
A estratégia do Pix internacional
Você pode usar o Pix fora do Brasil em casos pontuais, como em estabelecimentos de Miami, Orlando, Lisboa e Buenos Aires, por meio de parcerias locais. Mas o plano é muito mais amplo.
O Banco Central trabalha para que, no futuro, o Pix seja integrado a sistemas de outros países. Isso permitiria transferências internacionais com:
- Conversão automática de moedas.
- Liquidação em tempo real.
- Custos muito menores que os de remessas tradicionais.
Essa rede poderia atender não só brasileiros no exterior, mas também facilitar o comércio entre países do BRICS e outros blocos. É nesse ponto que a disputa entra no território geopolítico.
O papel do BRICS e a disputa monetária
O BRICS — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países — discute formas de reduzir a dependência do dólar no comércio internacional. Uma das propostas é criar uma moeda única ou usar sistemas de pagamento locais para transações diretas.
O Pix, nesse contexto, pode ser uma ferramenta estratégica. Ele poderia se conectar a sistemas como o UPI (da Índia) ou o CIPS (da China) para permitir transações sem passar pelo SWIFT, uma rede controlada em grande parte por países do G7.
Para os EUA, essa possibilidade é um alerta. Reduzir o uso do dólar não é apenas uma questão técnica; é uma mudança no equilíbrio de poder econômico mundial.

Pix como vitrine internacional
O sucesso do Pix virou referência para outros países. Delegações estrangeiras já vieram ao Brasil para entender o modelo. O Banco Central é visto como um exemplo de como criar e implementar uma infraestrutura pública de pagamento eficiente.
Esse prestígio dá ao Brasil uma vantagem estratégica: a capacidade de influenciar padrões e participar de negociações sobre interoperabilidade de sistemas.
Economia global e resistência à mudança
A reação dos EUA ao Pix não é a primeira do tipo. Sistemas de pagamentos instantâneos criados por governos em países como Indonésia, Índia e China também enfrentaram resistência. O ponto em comum é que eles reduzem custos para usuários e empresas locais, diminuindo a fatia de mercado de players internacionais.
Para a economia do dólar, essas iniciativas são uma ameaça porque diminuem a circulação da moeda em transações internacionais.
Por que isso preocupa os EUA?
O poder global dos Estados Unidos não se resume a forças armadas ou influência cultural. O controle sobre o sistema financeiro internacional é uma das ferramentas mais eficazes que o país tem.
Se blocos como o BRICS criarem alternativas funcionais, isso enfraquece a capacidade dos EUA de:
- Impor sanções econômicas.
- Monitorar e controlar transações internacionais.
- Manter a demanda global por dólares.
O avanço de sistemas como o Pix, com potencial de integração global, é visto como parte dessa mudança de cenário.
A pressão política
A reação dos EUA ao Pix não é apenas econômica. Há um componente político importante: o Brasil, sob governos que buscam uma política externa mais autônoma, tende a fortalecer laços com parceiros que também defendem a multipolaridade — como China e Rússia.
Autoridades norte-americanas já declararam que qualquer tentativa de reduzir a força do dólar será respondida com tarifas e barreiras comerciais.
O que muda para a população?
À primeira vista, a discussão sobre Pix e BRICS parece distante do seu dia a dia. Mas o efeito pode chegar ao povo das seguintes formas:
- Custos de transações internacionais: com o Pix Internacional, enviar ou receber dinheiro do exterior poderia ficar mais barato e rápido.
- Comércio e preços: se o Brasil reduzir custos no comércio exterior, isso pode impactar preços de produtos importados.
- Estabilidade econômica: mudanças na relação com o dólar afetam câmbio, inflação e até políticas de juros.
O caminho à frente
O futuro do Pix como ferramenta internacional vai depender de três fatores:
- Vontade política – se o Brasil vai, de fato, usar o Pix como instrumento de integração no BRICS.
- Infraestrutura técnica – a capacidade de conectar o sistema brasileiro a redes de outros países com segurança e eficiência.
- Resistência externa – até onde os EUA e aliados vão para impedir ou limitar a expansão do Pix em escala global.
Enquanto isso, no plano doméstico, o Pix segue se consolidando. Novas funções, como o Pix parcelado e o Pix automático, vão aumentar ainda mais a adesão. E quanto mais o sistema crescer internamente, mais força terá para influenciar o cenário internacional.
Soberania, poder econômico e consciência de classe
O debate sobre o Pix vai além da tecnologia ou da praticidade. É sobre poder. Quando um sistema de pagamento incomoda a maior potência econômica do mundo, fica claro que ele mexe com as engrenagens do capitalismo global.
O Pix prova que o Estado pode criar uma infraestrutura eficiente, gratuita e voltada ao interesse coletivo, contrariando o capital financeiro internacional, que tem exemplos públicos que funcionam melhor que soluções privadas.
No cenário global, a disputa é pela hegemonia do dólar. Controlar essa moeda é controlar o comércio, impor sanções e ditar quem entra ou sai das redes financeiras. Alternativas discutidas no BRICS desafiam décadas dessa supremacia.
Se o Brasil fortalece o Pix como ferramenta de integração com países que buscam reduzir a dependência do dólar, ganha autonomia. Se recua, mantém o papel subordinado no sistema internacional.
Essa é uma disputa de classes. A mesma lógica que pressiona contra o Pix apoia, internamente, privatizações, cortes sociais e retirada de direitos. Usar o Pix é participar, mesmo sem perceber, de um processo coletivo que desafia estruturas do capitalismo global e afirma a importância de políticas públicas que sirvam à maioria.
No fim, o futuro do Pix é também o futuro da nossa soberania econômica: decidir o próprio rumo e recusar o papel de colônia financeira.