Estou com pressa. Saia da frente ou morra

Renê tinha pressa para ir malhar e foi — depois de matar um homem inocente
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Acontece com todos: às vezes, o mundo parece conspirar para testar nossos limites.

A minha semana começou com um risco traçado de ponta a ponta no meu carro estacionado regularmente. Um dia antes, fiquei duas horas aguardando uma ressonância, até que me informaram: mais duas horas e meia de espera — tenha paciência. Moro ao lado de um restaurante em São Paulo e, dia sim, dia não, há um carro parado na frente da garagem, aguardando o valet — como se a minha porta fosse apenas mais uma calçada no mapa.

Outro dia, na estrada, cedi passagem a um carro enorme que parecia mais disposto a passar por cima de mim do que simplesmente ultrapassar. O motorista freou de propósito, como um jogo de poder para me assustar. Estávamos a 120 km por hora. Depois, ele acelerou e sumiu.

(Foto: Arquivo/Agência Brasil)

Em outra ocasião, um motociclista passou rente a mim na avenida Brasil e, sem dizer nada, chutou meu retrovisor, que voou em pedaços. No sinal seguinte, ainda atordoada, ouvi de um motorista ao lado que ele havia confundido meu carro com outro que o fechara.

Em todas essas situações, sinto uma raiva imensa — e, como mulher, a absurda sensação de impotência.

O chute poderia ter sido um tiro. O retrovisor quebrado poderia ter sido eu, alvejada. Tenho medo de cruzar o caminho de um Renê da Silva Nogueira Júnior, o homem que assassinou o gari Laudemir de Souza Fernandes com um tiro no tórax, sem nenhuma chance de defesa.

Renê não podia esperar o caminhão do lixo. Tinha pressa para ir malhar e foi — depois de matar um homem inocente.

O narcisista carrega duas marcas: a visão inflada de si mesmo, convencido de ser especial e superior, e a incapacidade de perceber ou se importar com as necessidades alheias. Esse transtorno, silencioso e contagioso, parece espalhar-se pela sociedade como um vírus.

Há um abismo entre a frustração de ser vítima de uma injustiça e a arrogância de se achar mais merecedor do que o outro. Em nenhum caso, a arma é solução.

Ou aprendemos a ser mais tolerantes, ou veremos mais Laudemires assassinados. Porque, hoje, a regra parece ser: “Estou com pressa. Saia da frente ou morra.”

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