A força das palavras

Toni Garrido e a música "Girassol"
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Toni Garrido disse no programa Altas Horas, da TV Globo, que queria mudar a letra da música “Girassol”. Trocaria a palavra “menino” por “menina” e “mulher”. A declaração conseguiu desagradar a todo mundo indistintamente. Com tanta polêmica, o cantor se explicou ao Portal Leo Dias dizendo que foi uma “brincadeira amorosa”.

“Gente, que curioso a polarização das palavras assim, de uma coisa tão simples, no final das contas. A gente vê uma discussão enorme por causa da semântica, do entendimento dessas palavras”, disse Toni.

É curioso que alguém que vive das palavras subestime a força que elas possuem. Já disse o psiquiatra antilhano Frantz Fanon: “Um homem que possui a linguagem possui, em contrapartida, o mundo que essa linguagem expressa e que lhe é implícito […] existe na posse da linguagem uma extraordinária potência”. Difícil tratar como brincadeira trocar uma palavra que designa gênero em pleno 2025, na era de tantas lutas por conquistas e reconquistas de terrenos do imaginário coletivo. Cada palavra carrega seu peso e elas podem ser tudo, menos simples ou inocentes.

O feminismo, este movimento com raízes há dois séculos, é mal compreendido até hoje, apesar da farta bibliografia, especialistas sobre o tema e, principalmente, seus efeitos práticos na vida de milhões de mulheres mundo afora. Não se brinca com isso… ao menos não deveria.

A música girassol tem uma frase extremamente corajosa: “Já que para ser homem tem que ter a grandeza de um menino”. Criança é sinônimo de fragilidade e inocência, de espontaneidade e falta de amarras nos preconceitos que, com o passar dos anos, vão soterrando tudo isso. Embora acreditemos que ao esta não foi a intenção do artista, a esta altura da história toda e da música nos ouvidos do país, trocar o gênero do menino que possui grandeza apenas soa artificial e um tanto oportunista.

Sons, cheiros, paladares, paisagens, texturas… estas são as portas de entrada para o mundo. Os sentidos nos conduzem pelas veredas da vida construindo nossas memórias. Uma música pode ser muito poderosa. Ela pode nos conduzir direto a uma pessoa, uma situação, um momento de nossas vidas. Artistas são pessoas com muita responsabilidade, pois suas obras têm o dom de nos afetar tão profundamente que quase revivemos episódios inteiros da nossa existência apenas ouvindo, por exemplo, os primeiros acordes e palavras de uma canção.

Tudo isso para dizer que, por mais que a obra seja nossa, é preciso pensar muito antes de querer mudá-la. É legítimo querer mudar uma obra, atualizá-la, repensar as próprias certezas. Não só é legítimo, como pode ser muito bonito também, mas como já afirmavam nossos mais velhos, duas coisas não voltam atrás: bala disparada e palavra proferida. Todo cuidado ao dizê-las e, principalmente, ao desdizê-las.

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