A influência da arte afro-brasileira na estética contemporânea

Da resistência colonial às passarelas contemporâneas: como a herança africana transformou a estética brasileira e segue moldando nossa identidade cultural
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A arte afro-brasileira representa muito mais do que imaginamos e também é, sem dúvidas, uma das expressões mais potentes da cultura nacional.

Mais do que um conjunto de manifestações artísticas, ela é o resultado de séculos de resistência e reinvenção. Foi por meio da arte que povos africanos e seus descendentes transformaram a dor da diáspora e da escravidão em criatividade e a expressão da sua identidade.

Hoje, sua influência se estende para além das galerias e museus. A arte afro-brasileira está moldando a moda, o design, a música e a estética moderna no Brasil e no mundo.

Aqui, vamos entender como essa presença não surgiu e, também, como a cultura afro-brasileira se tornou a base da arte brasileira e da nossa identidade plural.

O contexto histórico da arte afro-brasileira

A história da arte afro-brasileira está intimamente ligada à formação do Brasil enquanto sociedade intrinsecamente mestiça.

A diáspora africana, que foi um movimento forçado de milhões de pessoas retiradas do continente africano e trazidas às Américas para o trabalho escravizado, foi um dos processos mais violentos e transformadores da história humana.

Estima-se que, entre os séculos 16 e 19, cerca de cinco milhões de africanos foram trazidos para o Brasil, vindos de diversas regiões – Angola, Congo, Moçambique, Nigéria e Benim estão entre os principais países.

A questão aqui é que os povos trouxeram consigo saberes, cosmologias, linguagens, símbolos e técnicas de todos os tipos que se entrelaçaram com as tradições indígenas e europeias, dando origem à cultura afro-brasileira.

É dessa forma que o que chamamos de arte brasileira hoje, na verdade, nasceu dessa miscigenação forçada e também da capacidade de resistência e adaptação dos povos africanos e, claro, de seus descendentes.

A arte afro-brasileira surgiu como linguagem de resistência. Foi a forma de preservar a memória através da reconstrução das suas identidades e, consequentemente, preservar a dignidade humana de um povo tão injustiçado.

A arte afro-brasileira nasce da diáspora africana e da mistura de culturas que formaram o Brasil, como expressão de resistência e identidade. Imagem: reprodução 
A arte afro-brasileira nasce da diáspora africana e da mistura de culturas que formaram o Brasil, como expressão de resistência e identidade. Imagem: reprodução

Arte afro-brasileira no período colonial

Durante o período colonial, a arte afro-brasileira se expressava por baixo dos panos de forma simbólica, muitas vezes escondida em formato de rituais. Nos engenhos e quilombos, por exemplo, essa arte se manifestava nas músicas, danças, esculturas, máscaras e até os ornamentos que os povos africanos costumavam usar.

Também é interessante observar que a produção estética estava profundamente ligada à religiosidade – especialmente ao candomblé e à capoeira, mas também ao catolicismo, que foi incorporado sendo sincretizado com o restante.

Um exemplo marcante é o do escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, filho de uma escravizada e um mestre português, considerado um dos maiores artistas do barroco mineiro. Embora seu trabalho fosse voltado à arte sacra católica, sua origem afrodescendente deu às suas esculturas um formato e expressividade facial únicos que romperam com os padrões europeus da época.

Enquanto os artistas brancos retratavam santos com traços idealizados e europeus, Aleijadinho subverteu esse padrão ao criar figuras miscigenadas, de feições populares e expressões humanas, aproximando o sagrado da identidade do povo brasileiro.

E foi assim que, mesmo sob vigilância e repressão, a arte afro-brasileira floresceu nas práticas cotidianas e comunitárias.

As festas de congado, maracatu e jongo, por exemplo, são manifestações culturais que, em sua origem, misturavam devoção e música, transformando o sofrimento da escravidão na verdadeira celebração da sua ancestralidade.

Escultura em cedro de Aleijadinho em Passos da Paixão de Cristo na cidade de Congonhas (MG). Imagem: divulgação 
Escultura em cedro de Aleijadinho em Passos da Paixão de Cristo na cidade de Congonhas (MG). Imagem: divulgação

A dança e luta da capoeira

Entre as diferentes formas de celebrar a cultura afro-brasileira, surge a capoeira como uma forma de resistência dos escravizados no Brasil. Suas principais características advindas do período da escravidão incluem:

  • O disfarce da luta em dança: para não serem punidos pelos senhores, os escravizados criaram movimentos que pareciam uma dança acompanhada de música, mas que na verdade eram técnicas de combate e defesa.
  • O gingado: o movimento fundamental da capoeira, que simula o balanço das ondas do mar e permite ao praticante esquivar-se dos golpes.
  • A roda: a formação circular onde a capoeira acontece simboliza a comunidade, a proteção e a ancestralidade.
  • Os instrumentos como avisos: o berimbau, atabaque e pandeiro não apenas marcavam o ritmo, mas também serviam de alerta — mudanças no toque avisavam sobre a chegada dos capitães do mato.

Após a abolição em 1888, a capoeira foi criminalizada pelo Código Penal de 1890, e seus praticantes passaram a ser presos e perseguidos pela polícia.

Foi apenas em 1937, com Mestre Bimba criando a primeira academia oficial em Salvador, que a capoeira começou a ser reconhecida como prática cultural legítima. Em 2008, foi oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e, em 2014, recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

A capoeira uniu corpo, música e resistência, disfarçando a luta em dança e se tornando símbolo da liberdade negra. Imagem: reprodução 
A capoeira uniu corpo, música e resistência, disfarçando a luta em dança e se tornando símbolo da liberdade negra. Imagem: reprodução

Arte afro-brasileira e a abolição da escravatura

Com a Abolição da Escravatura em 1888, esperava-se que a população negra conquistasse liberdade plena.

No entanto, o período depois da abolição foi marcado, na verdade, pela exclusão social e pela invisibilidade artística de qualquer forma. Afinal, os escravizados haviam sido libertos, mas não se tornaram, de fato, livres.

Isso porque o Estado brasileiro, ao não garantir políticas de inclusão, manteve os descendentes de africanos à margem da educação e da economia e, consequentemente, fora dos espaços de produção e reconhecimento artístico.

Mesmo assim, as expressões da cultura afro-brasileira resistiram.

O samba, o afoxé, o maracatu e outras manifestações musicais tornaram-se símbolos de identidade nacional. Surgiu o Teatro Experimental do Negro, nos anos 1940, que propôs a valorização da estética e da intelectualidade negra no Brasil.

Heitor dos Prazeres, músico e pintor, levou para suas telas as cenas da vida popular do Rio de Janeiro, retratando a força do povo negro nas ruas e nos terreiros.

No mesmo período, a fundação do Museu Afro-Brasileiro (Mafro), em Salvador, foi um marco fundamental para a valorização da arte afro-brasileira. Criado em 1982, o museu preserva e expõe objetos, esculturas, tecidos e registros das religiões de origem africana, oferecendo um espaço de memória e reconhecimento.

Hoje, o Mafro busca promover o diálogo entre as tradições africanas e a arte brasileira contemporânea, afirmando o papel da herança africana na formação cultural do país.

Veja mais em: ‘Para valorizar a herança africana, o Estado precisar parar de nos matar’, diz líder do MNU

Após a abolição, artistas negros seguiram resistindo e reinventando a cultura afro-brasileira, apesar da exclusão social. Pintura: François-Auguste Biard
Após a abolição, artistas negros seguiram resistindo e reinventando a cultura afro-brasileira, apesar da exclusão social. Pintura: François-Auguste Biard

Arte brasileira contemporânea

Na contemporaneidade, a arte afro-brasileira assume múltiplas linguagens: pintura, performance, fotografia, vídeo, moda e design, sem perder o vínculo com sua ancestralidade.

A arte afro-brasileira é, portanto, tão estética quanto política. Ela desafia o olhar eurocêntrico, valoriza o artesanato e propõe novas possibilidades visuais para a moda, culinária, arquitetura e design.

Exemplo disso é o trabalho de artistas como Antonio Obá, Arjan Martins, Jaime Lauriano, Maxwell Alexandre, Paulo Nazareth e Renata Felinto.

Afinal, todos esses artistas têm em comum o compromisso com uma releitura crítica da história e da representação do que é o corpo negro na arte brasileira.

Suas obras também questionam os processos de apagamento e estereotipação construídos pela colonização e a consequente hegemonia eurocêntrica. Cada um, a seu modo específico, utiliza a arte como instrumento de memória e denúncia.

Esses artistas partem de suas vivências para propor novas narrativas visuais.

Antonio Obá, por exemplo, desafia o cristinianismo mesclando elementos do sagrado e do profano para discutir o racismo religioso e a violência contra os corpos negros. Já Arjan Martins revisita a história da escravidão e das rotas marítimas do Atlântico – transformando mapas, navios e oceanos em metáforas da diáspora africana.

Da esquerda para direita estão as obras de Antonio Obá e Arjan Martins, respectivamente. Créditos: Antonio Obá e Arjan Martis.
Da esquerda para direita estão as obras de Antonio Obá e Arjan Martins, respectivamente. Créditos: Antonio Obá e Arjan Martis.

Saiba mais: Lucilene Reginaldo: ‘A cultura africana é base da brasileira, mas o Brasil continua matando negros’

Padrões e texturas afro-brasileiras

Sabe o que o crochê que enfeita o sofá da casa da sua avó, as conchas decorativas daquela tia ou os colares de búzios usados pela Geração Z têm em comum?

De algum modo, todos esses itens são de origem afro-brasileira.

Isso porque muitas vezes o que parece apenas uma escolha estética é, na verdade, o reflexo de tradições trazidas pelos povos africanos e inseridas no cotidiano brasileiro.

As tramas do crochê, por exemplo, têm parentesco com as antigas técnicas de tecelagem africanas, que chegaram ao Brasil junto com mulheres negras escravizadas que eram responsáveis por costurar, fiar e tecer redes e panos.

As conchas e búzios, tão presentes em casas, colares e objetos decorativos, também têm origem africana. Nas religiões de matriz africana, esses elementos estão associados ao diálogo com divindades e a força do mar, mas hoje aparecem tanto em terreiros quanto nas passarelas de moda, reafirmando sua importância estética e simbólica.

No entanto, essa presença também revela uma contradição: enquanto símbolos da cultura afro-brasileira são amplamente consumidos, suas raízes muitas vezes são ignoradas.

É nesse ponto que surge o debate sobre apropriação cultural, um fenômeno que expõe como o Brasil ainda convive com o paradoxo de valorizar a estética negra, mas não as pessoas negras que a criam.

Mulher afro-brasileira usando colares, tranças, búzios e tocando música. Imagem: reprodução 
Mulher afro-brasileira usando colares, tranças, búzios e tocando música. Imagem: reprodução

A apropriação cultural da cultura afro-brasileira

A presença de símbolos e expressões da cultura afro-brasileira na moda, na música, na arte e na linguagem cotidiana nem sempre é acompanhada do reconhecimento de sua origem.

Isso quer dizer que quando turbantes, tranças, búzios, estampas africanas e tantos outros elementos são usados apenas como uma tendência, sem entender seu valor espiritual e histórico, acontece o que chamamos de “apropriação cultural”.

Esse fenômeno revela como os itens do movimento negro, que antes eram marginalizados e criminalizados, passam a ser valorizadas somente quando reinterpretadas sob o olhar branco – e comercial.

É dessa forma que valorizar a cultura afro-brasileira significa não apenas admirar sua beleza, mas também reconhecer sua dor e sua luta por espaço.

A arte afro-brasileira não é apenas parte da nossa história. Ela é a fonte da identidade cultural do Brasil. Compreender suas raízes e resistências é essencial para quem deseja entender a sociedade brasileira em toda sua complexidade.

A influência da arte afro-brasileira na estética contemporânea é, antes de tudo, um testemunho da força criativa de um povo que transformou sua dor em beleza e arte. Cada traço, cor, ritmo, tecido e gesto carrega a marca da cultura afro-brasileira, que atravessou oceanos e séculos para se reinventar no presente como parte da nossa identidade coletiva.

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