Da colônia ao Império: os caminhos para a formação do Estado brasileiro

Da colonização portuguesa à Constituição de 1988, descubra os caminhos que levaram à formação do Estado brasileiro
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

A formação do Estado brasileiro é uma história de continuidade, rupturas e contradições.

Do Brasil Colônia ao Império do Brasil, passando por repúblicas e ditaduras, o país construiu instituições que, muitas vezes, serviram mais para conservar privilégios do que para garantir direitos.

Aqui vamos compreender como essa trajetória existiu entre tantas estruturas políticas, econômicas e sociais que ainda reproduzem a desigualdade e a concentração de poder enraizados desde o período colonial.

O fim do período colonial

Para entender a construção do Brasil como Estado, precisamos entender o contexto histórico do país desde a sua colonização, que durou mais de três séculos sob o domínio de Portugal, até os dias atuais.

Sabemos que a colonização do Brasil começou em 1500 e foi até o início do século XIX, período em que foi marcado por um sistema de exploração que tinha um único objetivo: enriquecer a metrópole europeia.

Para isso, os portugueses se basearam na extração de recursos naturais e no uso do trabalho escravizado – modelo, que, por exemplo, causou o genocídio de povos indígenas e a escravização de mais de 4 milhões de africanos.

Porém, em 1534, Portugal criou o que podemos hoje entender como a fagulha de um Estado – as capitanias hereditárias.

As capitanias foram a primeira tentativa de dividir e administrar o território. Dom João III, então rei de Portugal, dividiu o território em 15 grandes faixas de terra, chamadas capitanias, que iam do litoral até o meridiano do Tratado de Tordesilhas.

Cada uma delas foi concedida a um donatário – nobres, militares ou pessoas próximas à corte, que recebiam o direito de explorar economicamente e governar a região em nome do rei.

Apesar de não ter dado por inúmeros motivos, o sistema deixou uma marca profunda na formação do Estado brasileiro. Ele consolidou a concentração de terras e poder político nas mãos de poucos — uma estrutura que se reproduziu durante o período colonial, do Império do Brasil até a República.

Afinal, a herança das capitanias é visível ainda hoje na desigualdade fundiária e na força das elites regionais.

Foi durante a colonização portuguesa que moldou as bases do Brasil, concentrando terras, poder e riqueza nas mãos de poucos — herança que atravessou séculos e ainda marca o país. Imagem: divulgação 
Foi durante a colonização portuguesa que moldou as bases do Brasil, concentrando terras, poder e riqueza nas mãos de poucos — herança que atravessou séculos e ainda marca o país. Imagem: divulgação

A vinda da família real e o Império do Brasil

A invasão napoleônica a Portugal, em 1807, forçou a fuga da corte portuguesa para o Rio de Janeiro – um episódio que transformou completamente a vida política da colônia.

Com a chegada da família real, o Brasil deixou de ser apenas uma colônia e se tornou o centro do Império Português. Entre 1808 e 1821, o príncipe regente D. João VI abriu os portos brasileiros às “nações amigas”, criou instituições administrativas, econômicas e culturais e elevou o país ao status de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve na época.

Essas medidas modernizaram a estrutura governamental e ajudaram a construir a base do que viria a ser o Estado brasileiro. No entanto, essa modernização foi feita de cima para baixo, mantendo o poder nas mãos de poucos — especialmente da elite agrária e escravocrata.

E quando a independência foi proclamada em 1822, o novo Império do Brasil não rompeu com o passado colonial.

As mesmas elites continuaram mandando, o que levou ao Estado que se formou a manter características profundas daquele período: o centralismo político, a concentração de poder e riqueza, e a exclusão da maioria da população dos processos de decisão.

Até porque é importante lembrar que, nessa época, só eram considerados cidadãos homens livres, maiores de 25 anos e com determinada renda — o chamado voto censitário. Mulheres, pessoas escravizadas, indígenas e a imensa maioria dos trabalhadores pobres ficavam completamente fora da vida política.

Essas heranças continuam presentes até hoje.

A estrutura do Estado brasileiro, construída para servir aos interesses das elites, ainda carrega traços desse modelo imperial: a distância entre governo e povo, a desigualdade social e a dificuldade de tornar a política verdadeiramente democrática.

Veja mais: Estudar História é disputar o presente: por que isso importa agora

O contexto histórico da formação do Brasil como Estado

Apesar de estar descrito nos livros de história do Ensino Médio, a Independência do Brasil foi um acordo feito entre as elites, sem participação popular.

Enquanto outros países da América Latina conquistaram sua liberdade por meio de revoluções e guerras que duraram anos e mataram milhares, o Brasil manteve a monarquia.

Isso fez com que as mesmas pessoas que estavam no poder durante o período colonial continuassem no poder, mantendo as antigas formas de dominação. Assim, o Estado brasileiro nasceu com uma base conservadora.

Exemplo disso é que as regras das instituições políticas foram criadas para garantir a unidade do território e a ordem social, mas não para incluir o povo.

O voto censitário (restrito a homens ricos), o poder moderador (que dava ao imperador o controle sobre tudo) e a centralização das decisões mostravam o caráter autoritário do sistema político da época.

O Império do Brasil até tentou se modernizar, criando novas leis e fortalecendo o governo, mas não mudou o fato de que a economia dependia do trabalho escravo.

Essa falta de reparação e inclusão deixou marcas profundas: a desigualdade racial e social que nasceu lá atrás ainda é uma das maiores feridas do Brasil de hoje.

Pintura de François-René Moreau retratando Dom Pedro ao declarar a independência do Brasil. Pintura: François-René Moreau
Pintura de François-René Moreau retratando Dom Pedro ao declarar a independência do Brasil. Pintura: François-René Moreau

Como instituições foram construídas do período colonial até hoje

A formação do Estado brasileiro não aconteceu de forma contínua.

O que enxergamos é uma sucessão de tentativas de organizar o poder sem romper totalmente com o passado colonial.

Durante o Império, o governo tentava se colocar como mediador entre as províncias, mas as decisões importantes continuavam sendo tomadas na capital.

Na Primeira República (1889–1930), o poder parecia mais distribuído, mas na prática ficou nas mãos das oligarquias regionais, especialmente dos grandes fazendeiros durante o coronelismo.

Com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, o país entrou em uma nova fase.

Vargas fortaleceu o Estado, criou leis trabalhistas, modernizou a administração pública e tentou controlar os conflitos sociais.

Mas essa centralização do poder também trouxe traços autoritários, mostrando na prática que o Brasil ainda mantinha o costume de concentrar decisões no topo da cadeia política e limitar a participação popular nas decisões governamentais.

Saiba mais: Da proclamação à revolução: o que aconteceu durante os 41 anos da República Velha

O desenvolvimento das leis e do poder legislativo no Brasil

A criação das leis e das instituições legislativas no Brasil acompanhou o processo de consolidação do Estado.

Ainda no período colonial, as normas eram impostas pela Coroa Portuguesa e baseavam-se nas Ordenações do Reino, um conjunto de códigos legais que regulavam questões civis e criminais.

Com a Independência e a Constituição de 1824, nasceu o Poder Legislativo, composto pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

Essa estrutura, inspirada em modelos europeus, marcou o início da atuação formal de um parlamento no país. O Legislativo tinha a função de propor e aprovar leis, embora o imperador mantivesse o Poder Moderador, com capacidade de intervir nas decisões políticas.

Durante o período republicano, o sistema legislativo se adaptou às novas formas de governo.

A Constituição de 1891 estabeleceu o modelo federativo e reforçou a divisão de poderes, enquanto as constituições posteriores (1934, 1937, 1946, 1967 e 1988) redefiniram as atribuições do Congresso Nacional conforme os contextos políticos de cada época.

A Constituição de 1988, em vigor até hoje, consolidou a separação entre os três poderes e reforçou o papel do Congresso como representante da soberania popular, com funções de legislar, fiscalizar e debater as políticas nacionais.

Esse processo demonstra que o fortalecimento das leis e das instituições legislativas foi um passo essencial na formação do Estado brasileiro, garantindo bases jurídicas e políticas para o funcionamento do país.

Na foto, Ulysses Guimarães proclama a “Constituição Cidadã”, aprovada em 1988. Imagem: Arquivo ABr
Na foto, Ulysses Guimarães proclama a “Constituição Cidadã”, aprovada em 1988. Imagem: Arquivo ABr

As características do passado no Brasil atual

O legado da colonização e do Império ainda aparece em muitos aspectos da sociedade e das instituições brasileiras. A concentração de terras e de renda, que vem desde o período colonial, continua sendo uma das principais causas da desigualdade social e econômica no país.

Na política, ainda existem traços de centralização e autoritarismo – tanto na forma como o poder é exercido quanto nas decisões tomadas sem muita participação popular.

Na economia, o Brasil ainda segue um modelo parecido com o do passado: exporta produtos primários (como minério, soja e carne), mas agora importa tecnologia e produtos industrializados.

Essa dependência vem de uma estrutura criada lá atrás, no tempo do Brasil colônia, e ainda limita o desenvolvimento do país.

Como percebemos no artigo, a formação do Estado brasileiro foi um processo gradual, resultado da combinação entre fatores históricos, econômicos e culturais que se desenvolveram ao longo de mais de cinco séculos.

Desde o Brasil colônia, passando pelo Império do Brasil e pelas diferentes fases republicanas, o país estruturou suas instituições com o objetivo de organizar o território e administrar o país.

Hoje, compreender essa trajetória ajuda a entender o funcionamento das instituições atuais e o modo como o país se organizou ao longo do tempo. A história do Brasil revela como decisões políticas, transformações econômicas e mudanças sociais contribuíram para a formação de um Estado que segue em constante desenvolvimento.

Para aprofundar esse tema, conheça a pós-graduação “Repensando o Brasil: Sociedade, política e história”, oferecida pelo ICL em parceria com a FESPSP e tenha acesso à formação mais crítica, revolucionária e essencial para entender o Brasil.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail