Há pequenos incêndios por toda parte nas falanges da oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fenômeno começa a dispersar aliados de ocasião do ex-presidente Jair Bolsonaro e compromete o maior catalisador de palanques eleitorais em períodos de campanhas: a perspectiva real do exercício do poder.
Em Santa Catarina, no Paraná, no Rio Grande do Sul, no Distrito Federal, no Rio de Janeiro e mesmo em São Paulo, estados onde a extrema direita canta vitória antecipada há meses, ou até há anos, em alguns casos, numa eleição que só se consumará em outubro de 2026, sacramentam-se rachas entre bolsonaristas de diversos matizes e políticos reacionários tradicionais que embarcaram na onda extremista para se manterem viáveis.
O cálculo dos gestores do espólio do bolsonarismo, Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, e o senador Ciro Nogueira, presidente do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, era que o patrimônio de eleitores do ex-presidente se conservaria coeso até o início da campanha.
Como incumbentes (quem está no poder) sempre sofrem desgaste, fadiga de material, estavam convencidos de que o pêndulo da balança medidora de votos penderia para a oposição. Não é o que ora acontece, e o golpe de 8 de janeiro de 2023 tem tudo a ver com isso.
Golpe de 2023 expôs descompromisso democrático
As instituições democráticas funcionaram no Brasil na esteira do 8/1/2023. Não só derrotaram o golpe tentado na primeira semana de terceiro mandato de Lula, como também apuraram culpas, determinaram autoria e mando, puniram os atores centrais daquela intentona golpista proporcionalmente aos papéis que desempenharam e expuseram as ambições calhordas daqueles aventureiros para todo o país e para os miseráveis aliados que tinham no exterior. Nunca foi ideologia — sempre foi mera tentativa de perpetuação no poder para que se locupletassem perpetuamente.
Agora, quando a trilha de bloquetes de concreto que leva da portaria da Papuda até a sala do Alto Comando da Polícia Militar do DF dentro do complexo prisional parece ser o caminho mais seguro e lógico para o futuro de Jair Bolsonaro, a aposta de Costa Neto e de Nogueira se revela um blefe.
Ou seja, tinham cartas ruins nas mãos, o Coringa era um “melé” usado para sujar a canastra e aprenderam da pior forma possível — obrigando todas as instituições republicanas a usarem suas caixas de ferramentas — que Democracia não aceita atalhos.
O golpe de 8 de janeiro de 2023 seria oferecido como novo atalho para que os escassos sobreviventes das chacinas da ética política (1954, 1964, 1981, 2016, 2018, 2022) conservassem a esperança de retomarem as rédeas do país. Promovidas sempre pela direita ruim de voto e disposta a embarcar em qualquer cavalo selado por aventureiros malucos, oportunistas e populistas, essas intentonas históricas de afronta à Democracia sempre tinham por trás delas aparelhos paramilitares forjados dentro das Forças Armadas. A escória militar se acreditava elite e capaz de enganar todo mundo, o tempo todo.
O Republicanos, partido controlado pela força da Igreja Universal do Reino de Deus e tocado com raro pragmatismo pelo deputado Marcos Pereira, já se afastou há muito da atmosfera deletéria criada por Valdemar e Ciro, do PL e do PP, para proteger os próprios e personalistas projetos de ganhar dinheiro com o poder.
O PSD, controlado pelo ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab, seguiu o mesmo caminho. Antônio Rueda, o vendedor de seguros de automóveis que controla o União Brasil como se fosse negócio familiar, enfrenta uma guerrilha interna capaz de implodir de vez a sigla e expor os reais motivos da abdução dele por Ciro Nogueira.
O cálculo do PT para levar em inédito 1º turno
Essas dissenções chegam em péssima hora aos palanques oposicionistas. No máximo, em duas semanas, Jair Bolsonaro iniciará em regime fechado o cumprimento da pena de 27 anos e 6 meses por tentativa de golpe de Estado e outros crimes associados.
Os palanques estaduais começam a ser montados e ninguém liga mais para a afinidade das chapas de senadores com ameaça golpismo do bolsonarismo: eleger maioria no Senado para promover impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. Não! Neste momento, está em curso um salve-se quem puder no campo da extrema-direita, pois o combustível dos incendiários acabou e quem estiver sujo pela verborragia inflamada vai sair incinerado desse processo.
Esta é, portanto, a janela de oportunidade que se abre para a consolidação do presidente Lula como alternativa viável a obter, mais uma vez, o voto da maioria dos cerca de 10% de eleitores brasileiros que dizem não querer “nem o nome histórico do PT, nem um genérico de Jair Bolsonaro” em 2026.
O ex-presidente e seu clã familiar querem a todo custo impor os próprios projetos e prioridades a todo o espectro da centro-direita à extrema-direita. Não conseguirão. Contudo, insistentes, estão enfraquecendo alternativas que possam florescer nas sombras do obscurantismo.
Com os indicadores econômicos francamente positivos, exercendo o desdém correto às advertências apocalípticas dos fracassomaníacos com agenda, tendo reinserido o Brasil no quadro da geopolítica internacional e celebrando o resgate de 20 milhões de brasileiros que estavam abaixo da linha de pobreza (ou seja, na miséria absoluta) até 2023, o presidente Lula tem chance única de pescar eleitores cautelosos, sovados, desconfiados nesses 10% de “nem, nem” do eleitorado e colher inédita vitória em primeiro turno mesmo com o país ainda fraturado pela disseminação do discurso de ódio que prevaleceu entre 2016 e 2022.