Quando você olha para a história do Brasil, quem aparece no centro da cena? Reis, imperadores, presidentes, generais.
Mas, por trás dessa narrativa oficial, existe outra história: a de povos indígenas, negros escravizados, camponeses, trabalhadores urbanos e de todas as pessoas que viveram na posição de oprimidos – e que, mesmo assim, nunca deixaram de resistir.
Entender o significado oprimido em cada época é olhar não só para a violência sofrida, mas também para as brechas que esses grupos abriram dentro de estruturas que pareciam inabaláveis.
Não é uma história só de derrota: é a história de revoltas, fugas, alianças, quilombos, greves, jornais clandestinos, educação popular.
Paulo Freire, por exemplo, nos lembra que, quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor, mas as experiências históricas de resistência no Brasil mostram que, muitas vezes, o que esteve em jogo não era apenas essa troca de lugares, e sim o rompimento com a lógica da opressão.
Aqui vamos percorrer alguns episódios fundamentais para entender como os oprimidos encontraram formas de revolta, resistência e, no final do dia, adaptação.
O contexto histórico das revoltas no Brasil
A colonização portuguesa no Brasil foi marcada pela tentativa sistemática de apagar culturas e modos de vida.
Desde o início, povos indígenas resistiram à ocupação, à escravização e à catequização forçada: fugiram para o interior, reorganizaram aldeias, fizeram alianças e até entraram em guerra atacando expedições e missões religiosas.
Essa resistência indígena não foi um episódio isolado.
Ela se conecta com o que viria depois: a escravização em massa de africanos, a exploração brutal de negros, pardos e outros grupos racializados, criando um racismo estrutural que até hoje organiza as oportunidades, os territórios e a identidade do país.
Ao longo desses mais de 500 anos de Brasil, cada nova forma de dominação gerou também novas formas de revolta. Entre elas, está a Revolta de Carrancas, liderada por Ventura Mina.

Ventura Mina
Ventura Mina era um homem escravizado pela poderosa família Junqueira, no sul de Minas Gerais, na primeira metade do século XIX.
Em 13 de maio de 1833, ele atacou um de seus senhores e deu início à Revolta de Carrancas, uma das maiores insurreições de escravizados da história do Brasil.
Ventura liderou mais de 30 pessoas escravizadas das fazendas da família Junqueira. O grupo atacou as fazendas, como Bela Cruz, assassinando os brancos em um gesto extremo de ruptura com a ordem escravista.
Veja mais: Quando foi abolida a escravidão no Brasil: o império, o povo e a luta que mudou a história
A violência da repressão foi brutal, incluindo o assassinato de Ventura durante a revolta.
Mas o medo que a Revolta de Carrancas espalhou entre senhores de escravos mostrou algo que muitos deles preferiam ignorar: a escravidão era sustentada pela força, não pelo consenso.
O levante expôs que, por trás da aparência de “ordem” nas fazendas, havia uma tensão permanente. Um sistema de opressão. Um sistema onde a violência era a única regra possível.
E é justamente esse cenário que dá ainda mais força à frase de Jorge Amado: “Não há poder humano capaz de subjugar a força de um povo que sonha ser livre e merece sê-lo”.

José Félix Cabral e a Conjuração dos Kiriris
Outro exemplo importante de resistência, ainda no período colonial, é a Conjuração dos Kiriris, entre 1797 e 1798, no sertão da Bahia.
O movimento foi liderado por José Félix Cabral, um líder indígena que iniciou e comandou o primeiro levante da conjuração, em julho de 1797. Ele foi aclamado capitão-mor ao destituir o ocupante anterior do cargo, numa clara contestação à autoridade colonial.
A conjuração tinha como base uma disputa por terras e poder: José Félix Cabral e outros indígenas Kiriri buscaram retomar o controle sobre a região de Pombal (antiga aldeia de Canabrava), pressionados por invasões de terras por colonos portugueses.
Cabral viajou depois para Salvador, tentando ampliar o alcance do movimento, mas acabou preso e morto na capital.
A trajetória de luta dos Kariri evidencia que a história brasileira é repleta de exemplos de revolta e resistência. Fora das narrativas oficiais que exaltam grandes reis e generais, tem muita história a ser contada. Entender movimentos como o de João Felix Cabral é a base para enxergar que a resistência é possível. Quando valorizamos isso, invertemos o jogo em que o sonho do oprimido é ser opressor.

As diferentes formas de revolta através dos anos
À medida que o Brasil mudava, as formas de revolta também se transformavam.
Mesmo com o fim formal da escravidão, no final do século XIX, a exploração não acabou – apenas mudou de forma. Nas cidades e nos campos, surgiram ligas camponesas, greves operárias, associações sindicais e lutas que hoje chamamos de movimentos sociais.
Aqui vamos conhecer algumas das revoltas importantes e os protagonistas destes movimentos:
A Revolução de 1817
A Revolução Pernambucana de 1817 foi um dos primeiros grandes movimentos de caráter republicano no Brasil.
Em um contexto de crise econômica, aumento de impostos e insatisfação com o governo da Coroa portuguesa, grupos civis e militares de Pernambuco se organizaram para derrubar o governo local e instaurar um regime republicano.
Em 6 de março de 1817, o levante tomou forma: autoridades ligadas ao rei foram depostas e um governo provisório foi instaurado, defendendo liberdade de imprensa, maior autonomia da província e o fim de alguns privilégios coloniais.
A experiência durou pouco mais de dois meses e foi duramente reprimida, mas deixou marcas profundas na história política brasileira.
Aqui, dois nomes se destacam nesse processo: Frei Caneca e Bárbara de Alencar.

Frei Caneca
Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, conhecido como Frei Caneca, era frade carmelita, intelectual e um dos principais pensadores políticos de sua época em Pernambuco.
As primeiras referências à sua atuação política aparecem justamente ligadas à Revolução de 1817. Frei Caneca tinha laços antigos com muitos dos revolucionários, sobretudo por sua formação no Seminário de Olinda.
Apesar de não haver registros claros sobre sua participação em todo movimento, seu nome surge com força nas últimas semanas da revolução, quando acompanha o exército republicano que desce ao sul da província para enfrentar tropas leais ao rei.
Nesse contexto, Frei Caneca teria atuado como capitão de guerrilhas, unindo sua formação religiosa a uma prática política e militar de resistência.
Porém, com a Independência do Brasil em 1822, ele defendia que a nova nação adotasse uma monarquia constitucional, e não um regime absolutista.
Veja mais: Da colônia ao Império: os caminhos para a formação do Estado brasileiro
A frustração veio com o fechamento da Assembleia Constituinte em 1823, o que aprofundou sua crítica ao poder imperial e intensificou sua atuação como jornalista e articulador político, assumindo posição central na Confederação do Equador (1824), movimento que defendia maior autonomia das províncias e criticava o autoritarismo de D. Pedro I.
Infelizmente, seu engajamento político lhe custou a vida: ele foi executado em 1825 e, mais tarde, reconhecido oficialmente por seu heroísmo. Pela Lei 11.528/2007, seu nome passou a constar no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, o chamado “Livro de Aço”.
Mais conhecido como Frei Caneca, o padre, jornalista, escritor e militante político Joaquim da Silva Rabelo foi fuzilado no Recife, em 1825. Imagem: Arquivo Nacional
Bárbara Pereira de Alencar
Outra pessoa muito comprometida com a Revolução de 1817, foi Bárbara Pereira de Alencar.
Nascida em Exu, no sertão pernambucano, destacou-se como uma das primeiras mulheres a atuar politicamente no Brasil.
Vinda de família abastada, apoiou ideias republicanas e transformou sua casa em espaço de articulação da Revolução de 1817, o que levou à sua captura e prisão em condições extremamente duras.
Mesmo após cumprir pena, voltou à luta na Confederação do Equador e hoje é reconhecida como a primeira presa política do país, símbolo da resistência feminina na história brasileira.

Prata Preta e a Revolta da Vacina
Já no início do século XX, o cenário de resistência popular assumiu um novo rosto: urbano, marcado por reformas higienistas e pelo crescimento de uma população trabalhadora precarizada.
Em 1904, o Rio de Janeiro, então capital federal, vivia uma grande reforma urbana.
Cortiços foram demolidos, ruas alargadas, famílias pobres expulsas para áreas mais distantes.
Ao mesmo tempo, o governo implementou uma campanha de vacinação obrigatória contra a varíola, conduzida sem diálogo com a população: brigadas sanitárias invadiam casas, revistavam espaços e geravam medo na população.
A combinação entre autoritarismo, desigualdade e ausência de explicação clara sobre a vacina levou à explosão da chamada Revolta da Vacina, um levante popular que durou cerca de uma semana, em novembro de 1904.
Em poucos dias, bairros inteiros se transformaram em trincheiras; bondes foram virados, postes derrubados, prédios públicos atacados. O resultado: cerca de 30 mortos, 110 feridos e 945 presos, muitos dos quais deportados para o Acre.
No centro dessa revolta está a figura de Horácio José da Silva, mais conhecido como Prata Preta – um trabalhador negro, capoeirista e estivador, morador do bairro da Saúde, na região central da capital carioca.
Afinal, se estamos falando dos vários tipos de revoltas, precisamos falar sobre um dos líderes da maior revolta do século 20.
Prata Preta comandou barricadas na região portuária, especialmente na área da Praça da Harmonia, defendendo o bairro das tropas do Exército. A resistência foi tão emblemática que o local ganhou o apelido de “Porto Arthur”, numa referência a uma fortaleza russa da época.
Mas as ações não deram frutos.
Apesar da Revolta da Vacina ser considerada por muitos a primeira grande revolta popular organizada em escala nacional no período republicano, a luta não era apenas contra uma vacina, mas contra um modelo de cidade em que pobres, negros e imigrantes eram tratados como problema, e não como cidadãos.
Depois da queda das barricadas, Prata Preta foi preso e deportado para o Acre, como tantos outros participantes da revolta.

Como honrar a luta dos que vieram antes de nós
Conhecer esses episódios – da Conjuração dos Kiriris à Revolta de Carrancas, da Revolução Pernambucana à Revolta da Vacina – não é apenas um exercício de curiosidade histórica.
É um convite a perguntar: quais outras formas de opressão permanecem, hoje sob novas roupagens?
Honrar a luta dos que vieram antes significa apoiar e fortalecer os movimentos sociais contemporâneos que seguem defendendo direitos.
É disputar a memória histórica para que nomes como Ventura Mina, José Félix Cabral, Frei Caneca, Bárbara de Alencar e Prata Preta não sejam apagados. É investir em práticas de educação popular, inspiradas em Paulo Freire, capazes de transformar a leitura do mundo em ação coletiva.
A história das revoltas e resistências no Brasil revela que nenhum sistema de opressão se sustenta sem enfrentar, continuamente, a força de quem se recusa a aceitar a injustiça como destino.
Dos povos indígenas aos trabalhadores urbanos, dos escravizados aos militantes republicanos, cada movimento que vimos aqui mostrou que a transformação social nasce de quem ousa desafiar o poder.
Afinal, revisitar essas trajetórias não é apenas reconhecer dores e sacrifícios, mas também compreender que a luta por dignidade e liberdade é uma construção permanente.
Ao reconhecer esses caminhos, somos chamados a continuar o que eles começaram: manter viva a memória, fortalecer as lutas do presente e imaginar futuros em que a resistência não seja mais uma necessidade, mas uma memória. Pois é somente através de uma educação libertadora, que podemos romper com a lógica que estabelece que o sonho do oprimido é ser o opressor.
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