A criança e a língua do mundo

Precisamos escutar as crianças
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O que será que as crianças pensam e sentem sobre os nossos dias terríveis; com massacres de meninas e meninos em Gaza, bombardeio de uma escola de meninas no Irã e tantas infâncias aniquiladas no mundo inteiro? Estamos escutando os erês? Ainda somos capazes disso?

Recorro a um relato ancestral.

Hamus, do povo Ewe
Hamus, do povo Ewe. (Foto: Komavo/ WikiMedia Commons)

Os ewés — africanos que vivem majoritariamente no sul de Gana, sudeste do Togo e em áreas do Benim — dizem que Mawú, a divindade suprema, criou Ayìkúngban, o mundo, e atribuiu funções aos seus filhos. Gun recebeu o poder de forjar os metais para produzir ferramentas de cultivo e guerra. Sakpatá recebeu a primazia de comandar as coisas terrenas e os poderes do sol.

Agué foi encarregado das plantas e dos animais das florestas. Sô recebeu o poder de comandar o frio e o calor. Agbê recebeu o poder de comandar os mares. E assim os voduns, eram centenas, foram ganhando funções.

Menos um.

Menos Legba, o mais novo, que não ganhou nada e foi zombado pelos outros. Uns diziam: mandem Legba trabalhar! É um inútil! É incapaz de guerrear! Como era criança, Legba permaneceu juntinho de Mawu, agarrado na barra da saia da Grande Mãe.

Mawu ensinou uma língua específica a cada vodum e coube a Djó ensinar o poder da palavra. Os voduns e humanos passaram a usar as suas línguas e dominar as línguas dos outros. O problema é que todos esqueceram da língua de Mawu e perderam a conexão com o princípio da criação.

Menos Legba, o caçula, que por ser criança não ganhou nada, ficou ao lado da Mãe e sabe falar a língua dela.

É por isso que os voduns, as mulheres e os homens precisam de Legba para falar com Mawu. Só Legba — a criança que foi zombada — tem a capacidade de levar e trazer as mensagens das criaturas até Mawu, para que possamos entender os mistérios, dádivas e desejos da Mãe do Mundo.

É por isso que devemos cuidar das crianças e escutar o que elas têm a dizer. É o poder de Legba que pode estar na nossa frente. Uma comunidade “adultizada”, que não cuida de suas crianças e não tem Legba, não sabe falar com a criação e não sabe mais o que fazer no mundo, a não ser cavar as covas da própria desgraça.

Precisamos escutar as crianças.

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