A misoginia é ferramenta do bolsonarismo para conquistar o poder

A defesa da não criminalização do ódio contra mulheres é um projeto de dominação contra um grupo que, historicamente, resiste ao avanço da extrema-direita
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Por Patrícia Penzin*

A véspera e o dia seguinte à aprovação, no Senado, do projeto que criminaliza a misoginia, ideologia que prega o ódio e o desprezo às mulheres, revelam ao Brasil o tamanho da aversão que os bolsonaristas sentem em relação às mulheres. Eduardo Bolsonaro, Damares, Nikolas, Julia Zanata, todos os exemplares mais raivosos do bolsonarismo defenderam publicamente a misoginia.

Essa gente usa a posição de destaque que tem para afirmar que, mesmo provocando 4 mortes e 227 estupros todos os dias, a ideologia dos grupos red pill não deve ser considerada crime. Nem mesmo a epidemia de mortes e violência contra as mulheres faz a extrema direita defender que elas tenham direito a viver livres, sem apanhar, sem serem violadas e sem serem mortas por homens que se julgam superiores e proprietários dos corpos femininos.

Damares disse, na tribuna, que red pills têm o direito de expressar todo seu ódio contra as mulheres. Os bolsonaristas da Câmara já afirmaram que vão batalhar pelo direito dos homens subjugarem, agredirem e dominarem mulheres livremente. Não importa que essa ideologia custe a vida de Giseles, Dayses, Elizas, Taynaras, Nadias ou Vanessas. Para eles, a vida das mulheres não tem valor algum.

E isso não é retórica. Isso é posicionamento claro e inequívoco. Um post de Eduardo Bolsonaro no X sustenta que a criminalização da misoginia é antimasculina e que, por isso, a luta pelo direito à vida das mulheres é uma pauta contrária ao bolsonarismo e à tradicional família brasileira.

Ele afirma que criminalizar a misoginia seria uma tentativa de perseguir homens, dividir a sociedade e acabar com a família. Uma distorção descarada e criminosa do que é o movimento feminista. Segundo ele, a luta contra a violência contra as mulheres contraria os princípios da direita conservadora.

Se alguém da direita democrática ainda tinha dúvidas de que o bolsonarismo é uma ideologia que prega o ódio às mulheres e faz apologia ao feminicídio, essa dúvida foi desfeita agora. Não é à toa que homens com histórico de violência contra as mulheres, como um feminicida e um agressor condenados pela Justiça, afirmaram pretender disputar cargos políticos em partidos de direita.

Para quem tem bom senso e um pingo de humanidade, parece absurdo defender que os homens tenham o direito de expressar livremente o ódio contra as mulheres, mas é justamente isso o que a extrema-direita deseja.

As mulheres são o grupo social mais resistente ao extremismo e à desumanidade bolsonarista. Elas representam um entrave ao projeto de poder desse grupo. Dominá-las, mantê-las submissas, caladas e com medo é a forma covarde de disputa política escolhida pela turma liderada por Jair Bolsonaro, ele próprio, alvo de grande rejeição feminina em toda sua trajetória política.

Como se esquecer da “fraquejada” que gerou uma filha, do “não te estupro porque você não merece” a uma deputada, ou até do “pintou um clima” com adolescentes de 14 anos? A ideologia bolsonarista prega que mulheres são seres inferiores e devem ser tratadas como tal.

Por isso tanta resistência a uma lei que já chega atrasada, diante do descalabro dos números da violência contra a mulher e da explosão de homens pregando abertamente a existência de uma suposta inferioridade feminina. Este é o maior projeto estratégico e de longo prazo para a extrema direita do Brasil.

 

*Patrícia Penzin é jornalista

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