Pandemia: agente da Abin na China foi orientado a não produzir informes

Relatórios sobre a disseminação da doença chegaram a ser produzidos diariamente
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Por Jamil Chade – Vero Notícias

O agente da ABIN na China, em plena pandemia da covid-19, foi instruído a parar de produzir e enviar ao Brasil informes de inteligência sobre a crise sanitária no auge da onda de mortes que deixou o mundo de joelhos. Naquele momento, a comunidade internacional e a OMS buscavam de forma intensa informações de Pequim para avaliar como agir e como se preparar caso a crise sanitária desembarcasse em seus respectivos países.

A informação sobre a suspensão dos dados no caso do Brasil faz parte de um informe produzido pela ABIN que revela os bastidores da pandemia e como a agência atuou para lidar com a crise global. Nas últimas semanas, o portal Vero Notícias vem publicando detalhes dos bastidores sobre como o governo de Jair Bolsonaro atuou diante da pandemia, entre 2020 e 2021.

No documento exclusivo, a agência revela que, ainda em dezembro de 2019, a adidância da ABIN na China “produziu conhecimento sobre um vírus desconhecido que causava quadro semelhante ao da pneumonia e que se espalhava na região de Wuhan, a capital da província de Hubei, localizada no centro do país”.

“O documento alertava que a região era um ponto de interseção entre diversos meios de transporte no território chinês. A proximidade das comemorações do ano novo, que aconteceria em 25 de janeiro de 2020, quando sempre ocorre grande fluxo de deslocamento populacional, poderia levar a doença para outras regiões, caso não estivesse controlada até lá”, explicou.

Ao longo de janeiro de 2020, foram produzidos mais dois relatórios de atualização sobre a doença e sua disseminação.

Abin
Em Wuhan, na China, lockdown por causa do coronavírus foi decretado em janeiro de 2020 (Foto: AFP)

Abin chegou a fazer relatórios diários sobre covid

Foi decidido, então, que a ABIN faria relatos diários sobre a evolução da doença ao redor do mundo. Em 2 de março de 2020, por exemplo, o Departamento de Contrainteligência (DCI/Abin) difundiu a primeira atualização sobre o novo coronavírus ao GSI e aos ministérios.

Quatro dias depois, foi difundido o Relatório de Inteligência nº 091/2020 que tratava do impacto da epidemia de covid-19 no abastecimento de produtos da área de saúde no Brasil. Grande parte da produção de produtos hospitalares de uso global era exportada pela China, mas a situação epidêmica naquele país havia suspendido o trabalho em várias fábricas.

Preocupava especialmente a obtenção de equipamentos de proteção individual (EPI), como máscaras, luvas e óculos. Na época, estimava-se que a demanda mundial seria 40% maior do que a média, e a produção chinesa de fevereiro havia retraído 14,3%. Os países começaram uma corrida para garantir esses equipamentos e outros insumos hospitalares para seus cidadãos.

O relatório concluía que a perspectiva de disseminação global da covid-19 e sua conversão em pandemia iria ampliar a escassez de produtos médico-hospitalares em decorrência do aumento da demanda. De fato, a OMS declarou pandemia alguns dias depois, na quarta-feira, 11 de março.

Mas o relato de um agente da ABIN revela uma situação constrangedora. Identificado apenas por um nome fictício de Guilherme, o oficial trabalhava na adidância da ABIN na China. Ele era o representante da agência que estava mais próximo da origem da pandemia e pôde acompanhar de perto como as autoridades chinesas atuaram durante os primeiros meses da crise.

“Os primeiros relatos que li sobre a doença começaram a ser publicados em sites especializados em notícias sobre China em dezembro de 2019. Como se sabe, os primeiros casos foram identificados cerca de um mês antes, em Wuhan, que é uma cidade de porte médio-grande da China, com cerca de 10 milhões de habitantes”, disse.

“No início de janeiro de 2020, discuti esse assunto com alguns colegas de outros países, oficiais de ligação de outros serviços de inteligência também lotados em Pequim, num encontro que tivemos. A comunidade de inteligência já estava antenada. Lembro perfeitamente: a data-chave, a data que marcou o início da pandemia para mim, foi 23 de janeiro de 2020. Esse foi o dia em que o governo chinês decretou o lockdown sobre a cidade de Wuhan. Um lockdown muito severo, em que realmente ninguém podia sair da cidade”, disse.

“Na verdade, ninguém podia sair da sua própria residência. As pessoas só tinham permissão para sair de casa a cada dois dias para comprar mantimentos. Lembro muito bem porque esse foi o dia em que eu enviei os meus filhos, que estavam de férias comigo em Pequim, de volta para o Brasil. Então foi bem marcante”, contou.

Guilherme lembra que, antes dessa data, ele já havia escrito dois relatórios sobre a ‘misteriosa pneumonia viral’.

“Observei num documento que, por causa do grande trânsito de pessoas decorrente do feriado chinês, havia chance considerável de essa pneumonia viral se espalhar para o resto do mundo”, disse. “Então a gente conseguiu alertar, com quase dois meses de antecedência, que essa epidemia, que depois virou uma pandemia, poderia chegar ao Brasil”, constatou.

O agente da Abin conta que foram “meses muito intensos”. “Escrevi dezenas de documentos. De janeiro até o final de maio, escrevi cerca de 70 documentos sobre a covid-19, que incluíam informações colhidas em encontros que tive com a comunidade de inteligência local e internacional residente no país. Nesse período, meu trabalho foi dedicado exclusivamente à pandemia. Eu era o único representante da Presidência da República na China naquele momento. Então, procurava cobrir os mais variados assuntos: desde avaliações sobre as práticas implementadas pelo governo chinês até informações que conseguia obter sobre produção de vacinas, testes, ventiladores, e também sobre o que os outros países estavam fazendo”, disse.

Guilherme ainda conta que conversava muito dentro da embaixada e com os outros serviços, inclusive com os serviços chineses. “Juntando uma pecinha do quebra-cabeça de cada vez, a gente acabava conseguindo ter um mosaico de informações realmente interessante para enviar ao Brasil. E tudo a partir de um misto de fontes abertas privilegiadas, de canais mais especializados, conversas dentro da embaixada e conversas com os outros serviços”, disse.

“Além dos documentos escritos que enviava, eu estava em contato permanente, quase diário, com os representantes da Abin que participavam das reuniões de governo que aconteciam em Brasília: no Ministério da Saúde, no Palácio do Planalto, etc. Conversava com eles e passava algumas coisas de antemão, porque, às vezes, eu não tinha tempo de escrever um documento que chegasse oportunamente. Nossos colegas em Brasília recebiam esses dados e informações logo antes de entrarem na reunião, para que pudessem prestar o melhor assessoramento possível”, relatou.

O agente despachava com o embaixador do Brasil em Pequim semanalmente para tratar da covid-19 no Brasil.

Guilherme conta que, a partir de maio de 2020, enquanto a situação melhorava na China, as coisas iam piorando no Brasil. “Esse contraste entre o controle da doença na China e o seu avanço no Brasil foi muito impactante para mim e para minha esposa. Foi gerando em nós uma mistura de desespero, de angústia, de depressão, enquanto víamos, à distância, a pandemia se alastrando de forma aterrorizante pelo Brasil”, disse.

Mas o susto viria justamente naquele mês.

“No fim de maio, recebi mensagens de Brasília recomendando que eu deixasse de priorizar o acompanhamento da pandemia. Eu parei por um certo tempo, no final de maio, mas, em meados de junho, fiz mais alguns documentos que eu julgava importantes, porque tinha havido um pequeno surto de covid-19 em Pequim”, disse.

“E daí estava se avaliando exatamente a eficácia desses controles sanitários. Considerei muito interessante passar essas informações, dessa reavaliação em relação aos controles sanitários. Recebi novos contatos que diziam que talvez não valesse a pena eu produzir mais esses documentos porque eles não seriam devidamente aproveitados”, denunciou.

“Foi a primeira vez, em vinte anos de carreira, que recebi esse tipo de orientação. Qualquer serviço de inteligência deve produzir conhecimento para a assessoria do decisor. Ele escolhe se vai utilizar. A inteligência não pode privar o decisor do devido assessoramento”, constatou.

Sua missão na China estava prevista para encerrar em setembro de 2020. Mas, em julho, ele recebeu a notícia de que o tempo da missão seria estendido.

Ao voltar ao Brasil, o agente retornou para a Superintendência Estadual do Rio de Janeiro (SERJ). “Era janeiro de 2021 e foi muito chocante encontrar a cidade com bares lotados, praias cheias, as pessoas agindo normalmente porque a primeira onda já tinha passado. Eu estava voltando de um país com uma série de controles muito severos, que a população seguia sem questionar, e que, por isso, havia o controle da pandemia”, disse.

“Em fevereiro, quando voltei ao trabalho na SERJ, foi justamente quando começou a segunda onda, aquela mais devastadora. Fiquei impressionado com a surpresa dos brasileiros por essa segunda onda, pois era uma coisa muito óbvia que iria acontecer, para todos que estavam estudando o problema”, completou.

 

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