Um grupo de agricultores franceses levou a insatisfação com o acordo entre a União Europeia e o Mercosul até um endereço ligado diretamente ao presidente Emmanuel Macron. Nesta sexta-feira (19), produtores rurais se concentraram na cidade de Le Touquet, no norte da França, onde o chefe de Estado mantém uma casa de praia, e realizaram um protesto marcado por ações simbólicas e críticas contundentes à política comercial europeia.
A mobilização reuniu dezenas de manifestantes, que espalharam esterco, pneus, repolhos e galhos nas imediações da residência presidencial, cercada por forte esquema de segurança. O ato fez parte de uma série de protestos que vêm sendo realizados ao longo da semana, impulsionados tanto pela rejeição ao tratado de livre comércio com o Mercosul quanto por outras queixas do setor agrícola, incluindo a gestão governamental de uma doença bovina.

Rejeição ao acordo e críticas à política agrícola
Entre os símbolos do protesto, chamou atenção um caixão colocado em frente à mansão de tijolos vermelhos pertencente a Macron e à primeira-dama Brigitte Macron, com a inscrição “Não ao Mercosul”. Para os agricultores, o gesto representa a ameaça que o acordo comercial traria à produção europeia.
Representantes do setor afirmam que a política agrícola da União Europeia tem aprofundado dificuldades já enfrentadas no campo. “Este protesto é simbólico contra a política europeia atual, porque estamos regredindo”, declarou Benoît Hédin, dirigente do sindicato agrícola FDSEA, ao citar o acordo com o Mercosul e a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) como exemplos de medidas que, segundo ele, fragilizam os produtores locais.
Acordo adiado, mas mobilização continua
A oposição ao tratado também ganhou força após o adiamento de sua assinatura. O acordo comercial foi concluído em dezembro de 2024, em Montevidéu, entre a Comissão Europeia e Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, pretendia formalizar a assinatura durante a cúpula do Mercosul, prevista para este sábado (20), em Foz do Iguaçu (PR).
A pressão exercida pela França, reforçada nos últimos dias pela Itália, levou a União Europeia a postergar a aprovação necessária para a assinatura, que acabou adiada para janeiro. Ainda assim, a principal entidade representativa dos agricultores franceses, a FNSEA, classificou a decisão como insuficiente. Em publicação nas redes sociais, o sindicato reiterou a rejeição ao acordo e afirmou que continuará mobilizado para barrar definitivamente o Mercosul.
Os produtores temem que o tratado resulte em uma entrada significativa de carne, arroz, mel e soja sul-americanos no mercado europeu. Segundo os agricultores franceses, esses produtos teriam vantagem competitiva por estarem sujeitos a regras de produção menos rigorosas, enquanto a contrapartida europeia seria a ampliação das exportações de veículos e máquinas para os países do bloco sul-americano.