Em Portugal, no dia 25 de abril comemora-se a Revolução dos Cravos, um levante militar e popular que colocou fim ao Estado Novo, período ditatorial liderado, na maior parte do tempo, por António de Oliveira Salazar. A data é tão importante para os portugueses que se tornou um feriado nacional, o “Dia da Liberdade”.
O movimento, fortemente influenciado pelas guerras de independência nas colônias portuguesas na África, restaurou a democracia e as liberdades individuais.
Os saldos do 25 de abril ecoam até hoje na memória dos portugueses, expondo os perigos do fascismo e a resistência do povo português durante os duros anos de ditadura. Na arte, a Revolução dos Cravos é lembrada em filmes, livros e músicas que celebram a liberdade conquistada.
Neste artigo você vai entender como as guerras de libertação na África impactaram a sociedade portuguesa e como militares, em sua maioria de patentes intermediárias, promoveram um golpe de estado com amplo apoio popular, responsável por democratizar Portugal e garantir direitos sociais.
Antecedentes do 25 de abril
Durante séculos, Portugal viveu um profundo crescimento econômico, sendo considerado o primeiro império global, já que havia invadido e colonizado territórios na América, África e Ásia.
Por muitos anos a exploração das colônias e o tráfico de escravizados renderam à coroa portuguesa lucros exorbitantes. Por isso, a história portuguesa é marcada pela colonização.

Em 1910, após décadas de crise econômica e social em um império que por muito tempo foi acostumado à riqueza, um golpe de estado colocou fim à monarquia, iniciando o período que ficou conhecido como Primeira República Portuguesa.
Mas se você pensa que o golpe foi capaz de colocar fim à instabilidade que reinava no país, está enganado. Durante o período da Primeira Guerra Mundial a crise se intensificou ainda mais, principalmente quando Portugal entrou no conflito, lutando ao lado dos Aliados e enviando tropas à França e à África.
Durante o primeiro período republicano foram vários os golpes de estado que ocorreram no país. Em 1917, o major de artilharia Sidônio Pais se tornou o protagonista de um deles e foi alçado à posição de presidente. O governo não durou muito, já que Sidônio foi assassinado um ano após assumir o cargo. O vácuo no poder levou a disputas internas entre grupos que tentavam restaurar a monarquia e republicanos que venceram a briga.
Até 1926, diversos representantes ocuparam o comando do executivo português, até que um novo golpe de estado deu início a Ditadura Nacional, que durou até 1933. No entanto, é em 1928 que uma figura ganha maior projeção.
Neste ano, António Oliveira Salazar, que já tinha sido deputado, assumiu o Ministério das Finanças e com uma forte política de austeridade implementou uma contenção de gastos, reduziu investimentos da saúde e educação e aumentou os impostos.

Estado Novo em Portugal
Alçado ao poder de forma contínua em 1933, António de Oliveira Salazar estabeleceu em Portugal um regime político com características próprias, mas fortemente influenciado pelo fascismo em ascendência na Europa.
Durante o Estado Novo (1933-1974) o autoritarismo foi uma constante. O governo português à época chegou a instalar um campo de concentração em Cabo Verde, então colônia portuguesa na África. É para lá que as autoridades do Salazarismo – como também é conhecido o regime, já que dos 41 anos de duração, 34 foram sob comando de Salazar – enviavam presos políticos que representavam uma ameaça ideológica.
No regime, houve um incentivo do estado à industrialização do país, atraindo apoio das elites portuguesas. Salazar também buscou atrair investimentos estrangeiros, promovendo uma abertura de Portugal ao comércio externo.
Para a população os investimentos não se traduziram, de fato, em melhorias práticas na qualidade de vida. Antes do 25 de abril de 1974, 25,6% dos portugueses eram analfabetos, 53% das casas não tinham acesso à água encanada e esgoto e um terço da população não tinha energia elétrica.
As guerras travadas pelo salazarismo para assegurar a posse das colônias portuguesas na África, também levaram a um alto consumo de recursos. Além de dinheiro, a juventude portuguesa foi enviada em massa para a linha de frente, mostrando o custo humano da guerra e aumentando ainda mais a insatisfação de civis e militares em relação às guerras coloniais.

António Salazar dominou a política portuguesa por 41 anos, mas em 1968, após cair de uma cadeira e sofrer lesões cerebrais, o ditador foi obrigado a se afastar do comando do regime, morrendo em 1970. Mas o Estado Novo não acabou com Salazar e o comando do executivo foi assumido por Marcelo Caetano, que continuou as políticas salazaristas até ser deposto em 25 de abril de 1974.
Características do Salazarismo
- Autoritarismo: o Estado Novo suprimiu partidos políticos e sindicatos, colocando a União Nacional como o único partido na legalidade.
- Corporativismo: assim como o fascismo italiano, de Benito Mussolini, Salazar colocou o Estado como responsável pela mediação das relações entre patrões e funcionários, suprimindo a atuação dos sindicatos com o objetivo de criar uma suposta harmonia entre as classes
- Censura e controle da mídia: durante o Salazarismo, houve censura à imprensa, às artes e à literatura. Cerca de 3300 obras foram proibidas durante o regime.
- Culto ao líder: ao contrário de outros regimes fascistas, Salazar não se promovia como uma figura carismática, mas tinha consciência do papel da propaganda, promovendo sua imagem como alguém sempre a serviço da pátria.
- Conservadorismo: o regime usou como lema a frase “Deus, pátria e família”.
- Anticomunismo: a perseguição às esquerdas, sob o mote do anticomunismo, ganhou ainda mais força após a eclosão da Guerra Civil Espanhola, em 1936, que contou com intensa participação de comunistas e anarquistas. A perseguição também foi utilizada para legitimar as guerras coloniais contra a independência das colônias na África.
- Colonialismo: Salazar defendia a manutenção do colonialismo português não como uma questão econômica ou social, mas enquanto algo intimamente ligado à identidade política e cultural portuguesa.
48 anos de ditadura, 48 anos de resistência
Embora 25 de abril tenha sido a data em que, de fato, a ditadura que por décadas assombrou a sociedade portuguesa chegou ao fim, a resistência aos horrores de Salazar não começou neste ano.
Desde o golpe de estado que resultou na Ditadura Nacional (1926-1933), setores da sociedade portuguesa buscaram resistir ao regime. Republicanos, comunistas, anarco-sindicalistas e até militares se organizaram na clandestinidade.
Posto na ilegalidade desde o final da década de 1920, o Partido Comunista Português (PCP) desempenhou um importante papel na luta contra o fascismo durante a ditadura de Salazar. Durante o regime, os 36 membros que compunham o Comitê Central do partido, ao todo, chegaram a cumprir 308 anos de prisão.
Para controlar os opositores e conter a organização da resistência, Salazar criou, em 1933, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que mais tarde, em 1945, passou a se chamar Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). Por fim, em 1969, já após a morte de António Salazar e sob o comando do presidente Marcelo Caetano, a polícia política passa a ser designada Direção-Geral de Segurança, sendo extinta após o 25 de abril de 1974.
Guerras coloniais na África
O colonialismo português foi uma das questões mais relevantes que levaram ao 25 de abril de 1974. Durante o Estado Novo, a discriminação racial e o trabalho forçado se acentuaram na política colonial portuguesa. O Ato Colonial, parte integrante da Constituição portuguesa de 1933 até 1951, intensificou ainda mais a relação de exploração entre Portugal e os territórios dominados.
A cultura forçada de algodão nas colônias colocou as populações que lá habitavam em situação de vulnerabilidade ainda maior, tendo que abrir mão de culturas de subsistência para atender aos anseios coloniais portugueses. O cenário de exploração e falta de direitos, levou diversos países africanos a buscarem formas de conquistar a independência.
No contexto pós-Segunda Guerra Mundial, vários processos de libertação eclodem na África. Após 1945, diversos países conseguiram conquistar a independência. Nas colônias portuguesas, o cenário não era diferente e diversos movimentos populares começam a ganhar espaço.

Em 1956, surge em Angola o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), uma organização dedicada a lutar pela independência do país. Ao mesmo tempo, surge o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que buscava a liberdade de Guiné-Bissau e Cabo Verde.
Pouco mais tarde, em 1962, é fundada em Moçambique a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), mostrando a força dos movimentos de libertação nas diversas colônias de Portugal.

O desejo de manutenção das posses coloniais portuguesas levou o país europeu a mergulhar em 13 anos de conflito armado e, em 1961, iniciou-se uma guerra que, ao longo de sua duração, levou à morte de milhares de pessoas, entre revolucionários e colonizadores.
Durante o conflito, milhares de jovens portugueses foram enviados para o campo de batalha. Lá, a juventude já não via mais sentido no conflito e passou a enxergar a si mesma como “carne de canhão”, em uma guerra que já estava perdida.
Esses jovens foram fundamentais para os desfechos do 25 de abril de 1974, uma vez que a Revolução dos Cravos foi, essencialmente, um golpe militar dirigidos por militares de patentes intermediárias.
Mas engana-se quem pensa que a revolução foi fruto única e exclusivamente da revolta dos jovens militares. É possível dizer que ela começou, de fato, na África com a atuação dos movimentos anticoloniais.
Foi em países como Moçambique, Angola e Guiné-Bissau, que o exército português encontrou forças de resistência e de luta contra o imperialismo e os desejos colonialistas da metrópole, que desafiaram sua capacidade militar. O esforço dos povos colonizados, que resistiram a séculos de opressão e travaram uma batalha pela liberdade, foi determinante para o enfraquecimento das relações entre as forças armadas portuguesas e o regime salazarista.
A Revolução dos Cravos
Levado a cabo pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), o golpe de 25 de abril foi fruto de um processo histórico marcado por uma grave crise econômica e social, alimentada principalmente pela resistência dos povos colonizados ao poder colonial português.
Os militares que integravam o movimento eram, em sua maior parte, homens de patentes intermediárias, na faixa dos 30, 40 anos, que participaram das guerras coloniais desde o início de suas carreiras. Esses militares se opunham ao Comando das Forças Armadas, que apoiava os anseios colonialistas de Salazar.

O programa de ação do Movimento das Forças Armadas se baseava em “democratizar, descolonizar e desenvolver”. Dessa forma, previa a instalação a curto prazo da democracia, melhorias na qualidade de vida da população portuguesa, restabelecimento de liberdades individuais e a descolonização das posses portuguesas na África, visando alcançar a paz.
Decidido a pôr fim a décadas de ditadura, o MFA iniciou uma série de reuniões para definir os passos que levariam à queda do governo de Marcelo Caetano, então presidente português, após Salazar deixar o cargo em 1968.
O 25 de abril em ordem cronológica
24 de abril de 1974
- O MFA realiza uma reunião clandestina e decide pela derrubada do governo
- Uma nota publicada no jornal “República” convida o povo a sintonizar no programa “Limite”, que seria veiculado pela Rádio Renascença na primeira hora do dia 25 de abril.
- A canção “E depois do Adeus”, de autoria de José Niza, mas interpretada por Paulo de Carvalho, é transmitida na rádio Emissores Associados de Lisboa. A música era a primeira das senhas previamente combinadas pelos militares para sincronizar as ações.
25 de abril de 1974
- A canção “Grândola Vila Morena”, de José Afonso, é transmitida no programa “Limite” da Rádio Renascença, iniciando as operações da MFA. A música era proibida pelo regime salazarista, que a considerava subversiva.
- Os militares saem às ruas e tomam locais estratégicos em todo o país, como aeroportos, prédios públicos, quarteis e emissoras de rádio.
- Forças leais ao regime do Estado Novo iniciam a rendição.
- O então presidente Marcello Caetano se rende e é levado de avião para a Ilha da Madeira, em seguida, partindo para o Brasil, onde ficou até morrer em 1980.
Neste dia, o restaurante em que Celeste Caeiro trabalhava foi impossibilitado de abrir devido ao levante militar e popular. No local, aconteceria um evento e Celeste havia sido encarregada de levar as flores que seriam usadas na decoração: cravos. Um soldado que estava na rua lhe pediu um cigarro, no que ela respondeu lhe estendendo a mão com um cravo. Celeste fez o mesmo para outros militares. Surge então o nome: Revolução dos Cravos.
26 de abril de 1974
- É criada a Junta de Salvação Nacional, que tinha o objetivo de assegurar o poder até a tomada de posse do governo provisório.
- Ocorre a libertação dos presos políticos.

Consequências da Revolução dos Cravos
Após a Revolução dos Cravos, Portugal ainda viveu um período de turbulência política. Assim como no cenário internacional, parte dos vitoriosos pendia para a esquerda, simpatizando com os ideais soviéticos, enquanto outra parte desejava conduzir o país em direção ao capitalismo. Os vencedores foram os moderados, que levaram o país em direção a uma perspectiva social-democrata.
Como consequência imediata do 25 de abril, houve a extinção da polícia política e o fim da censura. As liberdades individuais haviam sido devolvidas aos portugueses, que puderam voltar a se organizar em sindicatos e partidos políticos. Os presos políticos foram libertos e, aqueles que estavam em exílio, puderam retornar ao país.
Ainda em 1974, é celebrado pela primeira vez em muitos anos, um 1° de Maio (Dia do Trabalhador) sem prisões e em clima de festa, já que durante o salazarismo, o embate entre a ditadura e os opositores era frequente nesta data. A guerra colonial portuguesa foi encerrada e os países africanos e Timor-Leste, na Ásia, conquistaram a sua independência.
Em 1975, foi eleita uma Assembleia Constituinte, formada em sua maioria por membros do Partido Socialista, de forte inspiração social-democrata. Em 1976 foi promulgada uma nova Constituição, que até hoje vigora em Portugal.

Embora os portugueses tenham conquistado a liberdade após 1974, o Brasil enfrentava os anos mais repressivos da ditadura militar e muitos militantes brasileiros estavam exilados no Chile. Com o golpe de estado que depôs o presidente chileno eleito, Salvador Allende, e alçou Augusto Pinochet ao poder, muitos brasileiros foram se exilar em Portugal.
Influência do 25 de abril na cultura
No campo musical, as canções “Grândola Vila Morena” de José Afonso e “E depois do Adeus”, de José Niza, se tornam símbolos da liberdade e até hoje, são usadas para celebrar o 25 de abril. No Brasil, Chico Buarque compôs “Tanto Mar”, celebrando a Revolução dos Cravos.
No cinema, diversas produções audiovisuais buscam contar a história da Revolução dos Cravos, como:
- Torre Bela (1975)
- A Hora da Liberdade (1999)
- Capitães de Abril (2000)
- Cartas da Guerra (2016)
Já na literatura, o escritor português José Saramago publicou, em 1979, a peça de teatro “A Noite”, em que narra uma discussão em um jornal de Lisboa na madrugada do dia 25 de abril de 1974. Na obra, redatores e administradores do veículo de imprensa discordam sobre a necessidade de noticiar ou não uma revolução que começava a tomar forma naquele momento.
O dia 25 de abril de 1974 marca a Revolução dos Cravos, uma história com muitos detalhes e que simboliza a luta dos portugueses pela liberdade, mas também dos povos que por séculos ficaram sob domínio colonial nos continentes africanos e asiáticos. Para saber mais sobre esse importante evento histórico do século 20, assine a plataforma do ICL e tenha acesso ao documentário “25 de abril sob olhares Luso-Brasílicos”.