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Noam Chomsky é um gigante intelectual do século XX e XXI que transcende as barreiras da linguística -— seu campo de estudo original —-, construindo uma obra que abrange também filosofia, política e crítica social. Seu trabalho sempre esteve profundamente engajado com a realidade, impactando a sociedade moderna em múltiplos níveis.

Como linguista, Chomsky revolucionou a compreensão da linguagem ao propor a teoria da gramática universal -— que desafia a visão tradicional da aquisição da linguagem e revela a complexa estrutura da mente humana. Suas ideias foram cruciais para a ciência cognitiva, moldando a maneira como pensamos sobre a natureza da inteligência.

No âmbito político, Chomsky se tornou um ícone do ativismo e da crítica ao poder, produzindo trabalhos que desmascararam a propaganda e a manipulação da mídia e denunciaram o imperialismo e a desigualdade social, inspirando gerações de ativistas e impulsionando movimentos sociais. Ele também possui uma relação de longa data com o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), tendo visitado um acampamento na década de 1990 e acompanhado a luta pela reforma agrária do grupo desde então.

O legado de Chomsky, em sua complexidade e profundidade, continua a desafiar e inspirar. O professor emérito de uma série de universidades pelo mundo nos desafia a questionar as estruturas de poder, a defender a liberdade de expressão e a lutar por uma sociedade mais justa e igualitária.

Quem é Noam Chomsky?

Noam Chomsky é um linguista, filósofo, sociólogo, cientista cognitivo, escritor e ativista político, nascido na Filadélfia, Pensilvânia, em 1928. Seus primeiros estudos estavam relacionados à filosofia e à linguística, e o desenrolar de sua vida é perpassado por outros assuntos, incluindo a crítica ao poder do capitalismo, do imperialismo e da mídia de massa.

Questionando as estruturas de poder e defendendo lutas por uma sociedade mais igualitária e justa, Chomsky se aproximou de diversos movimentos de esquerda, como o MST no Brasil, e a causa palestina, no Oriente Médio.

Segundo suas próprias falas, em entrevista ao fundador do ICL, Eduardo Moreira, essas iniciativas se posicionam contra a ideologia hegemônica, tomando o controle de situações desiguais e injustas. Chomsky considera que o MST seja o maior movimento social do mundo e um exemplo de sucesso da rebeldia à repressão capitalista.

A revolução cognitiva no campo da linguística

A pesquisa sobre linguagem de Noam Chomsky se baseia na noção de que temos uma habilidade inata para produzir e estruturar frases e que, mesmo com poucas regras e palavras, é possível formar infinitas frases. Essa é a Teoria da Gramática Universal, e pode ser aplicada a todos os idiomas —- além de definir os princípios básicos da gramática e da sintaxe como conhecemos atualmente. Segundo ele, a linguagem é uma ferramenta fundamental para o pensamento e o raciocínio humano, muito além do que um simples meio de comunicação.

A Hierarquia de Chomsky, outro de seus legados do campo da linguística, também influenciou outras áreas do conhecimento, como a matemática e a computação, por classificar as gramáticas de acordo com o poder expressivo de cada uma delas.

A linguagem, para o intelectual, é um sistema independente da cultura ou de outros aspectos do cérebro, muito mais complexo do que se imaginava até então.

As críticas chomskyanas

A biografia de Chomsky publicada pela editora do MIT, universidade onde ele lecionou por décadas, aponta que, ainda na infância, ele já compartilhava suas opiniões e críticas às estruturas de poder e às desigualdades.

Desde a década de 1950, quando publicou a primeira crítica ao behaviorismo, ou a psicologia comportamentalista, Chomsky não poupou palavras para demonstrar suas posições, mesmo se fossem contrárias ao que diziam os especialistas desses campos —- aclamados ou não.

Combinadas com sua pesquisa, a publicação das críticas ao behaviorismo, por exemplo, criaram a base da psicologia cognitiva como a conhecemos hoje, considerando sua explicação para as faculdades da linguagem humana.

Hoje o professor tem no seu leque de assuntos comentados —- e reprovados —- diversos outros assuntos, consolidando-se como referência para ativistas mais jovens exatamente por isso. Essas críticas são também um reflexo de sua preocupação com a justiça social, a liberdade e a paz. Ao questionar as estruturas de poder e as desigualdades, Chomsky se converteu em um modelo para diversos intelectuais, principalmente no campo progressista.

Política e ativismo na obra e vida de Noam Chomsky

Chomsky intitula-se como anarco-sindicalista e enaltece o ideal socialista-libertário, o que já conquistou ao mesmo tempo fãs e desafetos —- a depender da ideologia de quem conhece seu trabalho e suas opiniões. Por se identificar com essas duas ideologias políticas, acaba advogando por bandeiras como a autogestão e a justiça social não apenas em seus posicionamentos pessoais, mas também em seus textos e análises.

Ele defende a liberdade de expressão e a democratização da informação há décadas, tendo se posicionado contra diversos eventos históricos dos Estados Unidos desde a Guerra do Vietnã. Mais recentemente, se manifestou contra a prisão do então ex-presidente Lula, por conta da Operação Lava-Jato, e contra a guerra de Israel na Palestina —- que chamou de apartheid israelense contra o povo palestino.

O imperialismo é um dos alvos de seus posicionamentos persistentes em artigos, livros, entrevistas e participações em debates. As discordâncias com a política externa dos Estados Unidos, por exemplo, são alguns dos tópicos amplamente analisados em livros e artigos de Chomsky, incluindo a política intervencionista em países da América Latina entre as décadas de 1950 e 1990, durante a Guerra Fria.

Por se declarar um pacifista, Noam Chomsky é crítico ferrenho das guerras e da violência, e prega a resolução pacífica dos conflitos. Um de seus livros, intitulado 9-11, contém uma série de entrevistas sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos, onde Chomsky aponta que o principal ‘estado terrorista” são os Estados Unidos.

Atualmente, Chomsky também tem condenado avanços tecnológicos como a inteligência artificial generativa, sob a alegação de que atrapalha a criatividade e a inteligência humana. Seus argumentos defendem que a complexidade da mente humana não pode ser replicada, que dirá superada, por uma máquina e algoritmos, assim como a linguagem, seu campo de estudo inicial, pois trata-se de uma faculdade humana de combinações infinitas, e não apenas um meio de comunicação.

Noam Chomsky. Crédito: Wikipedia/ Creative Commons

A influência de Chomsky no mundo, desde 1955

Considerando que seu primeiro livro, Logical Structure of Linguistic Theory (ou Estrutura Lógica da Teoria Linguística) foi publicado em 1955, o pensamento de Chomsky ecoa há quase sete décadas pelo mundo. Seja em aspectos como a filosofia, a linguística, a computação ou a política, diversas gerações foram impactadas por suas ideias, livros e posicionamentos. E não à toa, ele é chamado de um dos maiores intelectuais da atualidade, especialmente nas ciências humanas.

Sua pesquisa sobre linguística é considerada uma das bases para a ciência cognitiva, o que por si só já revolucionou a linguística —- que até então era considerada uma ciência antiga, pouco inovadora. O modelo de gramática gerativa do linguista inspirou o ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 1984, Niels K. Jerne, que equacionou características das estruturas das proteínas para explicar o sistema imunológico humano. O trabalho premiado foi intitulado “A Gramática Gerativa do Sistema Imunológico”.

A psicologia foi transformada, entre outros pontos, pelo conceito de “modularidade” de Chomsky, que apresenta a arquitetura cognitiva da mente como um conjunto de subsistemas especializados, com interações entre si e limitação nos fluxos de intercomunicação.

Parte dessa ideia é concretizada na ilusão de ótica, que não desaparece após ser reconhecida como apenas uma ilusão. O campo da psicologia evolucionária também tem como um de seus fundamentos a pesquisa de Chomsky.

Chomsky Day: o dia do intelecto e da resistência

O Chomsky Day, celebrado em 7 de dezembro, é uma escolha inusitada da família Cash no filme Capitão Fantástico. Em vez de comemorar o Natal, eles homenageiam o intelectual Noam Chomsky, destacando valores como pensamento crítico, liberdade e justiça social.

No filme, essa celebração alternativa simboliza a rejeição ao consumismo e reflete o estilo de vida contracultural liderado por Ben, o patriarca interpretado por Viggo Mortensen. O Chomsky Day é tratado como um momento de aprendizado e reflexão, em sintonia com os ideais defendidos por Chomsky, que vão da linguística à crítica social.

Chomsky Day

A família Cash de Capitão Fantástico. Foto: Electric City Entertainment/Divulgação

Mais do que uma excentricidade, o Chomsky Day reflete a admiração pelas contribuições de Noam Chomsky. No filme, a data celebra a racionalidade, a liberdade de expressão e a resistência contra as estruturas de poder — os mesmos princípios que moldaram a vida e a obra de Chomsky.

Ao rejeitar o status quo e lutar por uma sociedade mais justa, Chomsky inspira a coragem de questionar e agir. Comemorar o Chomsky Day é, portanto, uma maneira de afirmar a dignidade humana e a resistência diante das desigualdades sociais.

Noam Chomsky, uma das maiores mentes do século XX

Por sua longa carreira acadêmica e extensa lista de publicações, abrangendo temas de diversos campos, a obra de Chomsky merece atenção. Seja na análise do papel da linguagem na mente humana ou na crítica à ideologia hegemônica, o intelectual sempre se mostra preocupado com a liberdade, a justiça social, a paz e a preservação da democracia.

Com uma obra que transcende limites disciplinares, acabou por moldar a sociedade moderna com assuntos que extrapolam um único campo de pesquisa. Da profunda investigação sobre a linguagem, temos hoje estudos sobre a mente humana e até mesmo as estruturas de poder decorrentes da propaganda da mídia.

Mesmo que, inicialmente, sua pesquisa fosse sobre a estrutura da linguagem, a Teoria da Gramática Universal vai além de entender nossas habilidades para a comunicação. Chomsky nos desafia a ir além, questionar as mensagens que recebemos por meio dessa complexa arquitetura da linguagem, criticando e questionando desigualdades, estruturas de poder e até mesmo a manipulação da mídia, totalmente permeada pelos vieses e para a propagação de ideais “não-democráticos” na mente da população.

Na modernidade do mundo de hoje, suas ideias nos provocam a analisar mais, combater a desumanização e valorizar a potência humana pela paz, justiça e igualdade. Sendo um eterno questionador, inspira tantos outros jovens a desafiar as narrativas dominantes, defendendo a verdade e a esperança.

Chomsky é considerado uma referência para o ativismo de esquerda.
Crédito: Reprodução/ Chomsky.info

Com 29 livros lançados, inúmeros artigos e dezenas de títulos como professor honorário em universidades de prestígio por todo o mundo, sua voz ecoa por movimentos sociais e pessoas engajadas na luta por um mundo melhor. Além disso, Noam Chomsky nos ensina a continuar a questionar, não ter medo ou receio de criticar e nunca nos conformarmos com o que nos é dado muito facilmente.

Aos 95 anos, Chomsky se mantém crítico, apontando o que lhe parece incorreto, imoral ou antiético. Sua saúde, atualmente debilitada em decorrência de um AVC sofrido em 2023, não lhe impede de continuar a se revoltar com a guerra em Gaza, entre outras injustiças. E, ao que tudo indica, seu legado vai permanecer por muitas décadas para além do momento em que sua mente e línguas afiadas não estiverem mais entre nós.

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