Por Thaísa Oliveira e Augusto Tenório
(Folhapress) – Senadores bolsonaristas que disputam as eleições admitem estar em uma sinuca de bico com a votação do projeto que acaba com a escala 6×1 nesta quarta-feira (2), e afirmam que devem evitar críticas públicas à medida ou votar a favor no plenário.
O grupo se organiza para deixar o embate na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) nas mãos dos senadores que estão na metade do mandato, como Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, Hamilton Mourão (Republicanos-RS) e dr. Hiran (PP-RR).
O próprio candidato à Presidência do PL, senador Flávio Bolsonaro (PL), não diz publicamente que é contra o fim da escala 6×1 e deve faltar à sessão. Perguntado nesta terça-feira (1º), afirmou apenas que votaria a favor do projeto que cria um novo regime e libera o pagamento por hora trabalhada.
Parlamentares dizem que a exposição só não será maior neste momento porque o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), indicou que a PEC (proposta de emenda à Constituição) será colocada em votação no plenário apenas depois das eleições.
Um senador do PL que não quis ser identificado afirma que vai seguir a orientação do partido e votar contra o fim da escala 6×1. Apesar disso, diz, não pretende discursar, apresentar emendas nem tentar atrasar a votação.
Na visão dele, até mesmo tentar atrapalhar a votação por meio de instrumentos previstos no regimento pode pegar mal junto ao eleitorado. Por isso, a missão deve ficar a cargo de Marinho, Mourão ou mesmo Oriovisto Guimarães (PSDB-PR), que está no fim do mandato e resolveu não se candidatar.
“Nós vamos votar para que haja uma preferência pelo nosso projeto, que é o projeto que trata da jornada flexível. Vamos usar o regimento”, diz Marinho, indicando que pedirá vista (mais tempo para discussão).
A votação da medida também provocou uma dança das cadeiras na composição da CCJ, com a substituição de parlamentares que não querem se comprometer. O senador Marcos Rogério (PL-RO), candidato ao Governo de Rondônia, saiu do colegiado nesta terça.
Já o senador Esperidião Amin (PP-SC), que disputa a reeleição contra os bolsonaristas Carlos Bolsonaro (PL) e Caroline De Toni (PL), deixou de ser titular da CCJ e passou a ser suplente. No lugar dele, assumiu Laércio Oliveira (PP-SE), que está no meio do mandato.
Na semana passada, Tereza Cristina (PP-MS) assumiu o lugar de Ciro Nogueira (PP-PI), que tenta a reeleição. A senadora deve se posicionar abertamente contra o projeto governista e orientar a bancada do PP a votar não.
Parlamentares que farão o enfrentamento público batem na tecla de que a proposta trará consequências drásticas para as empresas, sejam elas grandes ou pequenas. Além disso, dizem que a medida está sendo votada de forma atropelada, sem medir o impacto em setores importantes, como o das empresas aéreas.
Pesquisa Quaest divulgada em julho indica que 69% dos brasileiros são a favor de acabar com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso. Segundo o levantamento, 75% da população disse saber que o projeto havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados e estava agora no Senado.
Senadores governistas também contam com a aprovação do fim da escala 6×1 nos estados. O próprio relator, senador Omar Aziz (PSD-AM), interrompeu a campanha dele ao Governo do Amazonas para se dedicar à PEC.
O senador Rogério Carvalho (PT-SE), que disputa a reeleição, também havia pedido a Alcolumbre para relatar o fim da 6×1. Preterido por Aziz, Rogério recebeu a relatoria da chamada PEC da segurança pública, outro projeto que deve ser explorado eleitoralmente pelo governo.
Às vésperas da votação, Lula (PT) levou ao rádio uma propaganda eleitoral gratuita em que afirma que tenta acabar com a escala 6×1, mas enfrenta a resistência dos adversários.
“Trabalhar seis dias para folgar um não é viver, é sobreviver. Enviei ao Congresso o projeto que acaba com a escala 6×1 sem redução de salário. Infelizmente, meus adversários estão fazendo de tudo para não aprovar a lei. Eles jogam contra o trabalhador”, afirmou.
Durante a votação da PEC na CCJ, Flávio estará na Expointer, feira de agronegócio em Esteio, no Rio Grande do Sul. O senador disse que participaria da votação de forma remota o que não será possível, dado que a sessão desta quarta será exclusivamente presencial.
“Primeiro vota a nossa proposta, depois vê o que faz. Vocês estão querendo arrancar uma palavra da minha boca, o que vocês querem é a resposta que eu não vou dar para vocês”, disse o candidato nesta terça, diante de reiteradas perguntas sobre a posição dele.
O presidente da CCJ, senador Otto Alencar (PSD-BA), já sinalizou que, se houver pedido de vista, ele concederá por apenas uma ou duas horas e, passado esse período, retomará a análise.