Autoridades brasileiras temem que a ala mais ideológica do governo de Donald Trump crie obstáculos para ajudar o país a investigar o destino dos recursos usados para supostamente financiar o filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo o jornal Folha de São Paulo, a Polícia Federal (PF) pretende pedir aos EUA a quebra de sigilo do fundo que recebeu dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Uma das desconfianças na PF é de que esses recursos bancaram despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA. O dinheiro teria sido direcionados um fundo no Texas. Mas o fundo Havengate Development Fund, que teria recebido parte dos R$ 61 milhões para financiamento da obra, é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo.
O problema é que, para que haja a quebra de sigilo, é necessária a cooperação das autoridades americanas. Um dos obstáculos é que isso passa pelo Departamento de Justiça, um dos órgãos mais ideológicos da estrutura de poder nos EUA.
Essa realidade pode dificultar uma cooperação real para mapear o fluxo dos recursos e entender qual o destino do dinheiro.
Ingerência permanente de Trump até eleição
A avaliação de membros do governo brasileiro é de que, apesar de uma relação correta entre Lula e Trump, a estratégia dos EUA é de uma ingerência permanente nos assuntos domésticos brasileiros até a eleição.
Na avaliação do Palácio do Planalto, a prioridade de Trump na região hoje é ter um “governo dócil” no Brasil. Sem autonomia, o suposto novo governo brasileiro atenderia aos interesses americanos de fechar o hemisfério para a influência da China.
A desestabilização política do Brasil e uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro seriam os caminhos mais baratos e eficientes para que a extrema direita americana consiga colocar em prática a ideia de ter, no Brasil, um “governo dócil” aos interesses da Casa Branca.
A percepção dentro da Casa Branca é de que a eleição seja o momento de mudança de rota política e, ao agir para garantir seu candidato, o governo dos EUA estaria apostando numa mudança dentro da normalidade, sem um custo político elevado.
O resultado seria o de conseguir colocar no poder um governo submisso, sem uma ação militar ou golpes como no passado.
É nesse contexto que a viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA teria servido como uma tentativa de jogar uma boia de resgate ao candidato que mais interessava aos interesses americanos.
Militarização da América Latina obriga Brasil a pensar em dissuasão
No governo brasileiro, não se acredita que a designação do PCC e do CV como grupos terroristas abra a possibilidade real de uma ação militar no Brasil antes das eleições. Isso, para muitos, seria uma tragédia eleitoral para o bolsonarismo.
Mas a designação deixa o país mais vulnerável e as movimentações na região, com 17 acordos militares com os países latino-americanos, acenderam um alerta no governo Lula.
A avaliação é de que Trump decidiu que sua hegemonia na América Latina ocorrerá também pela força. A vulnerabilidade do Brasil diante desse cenário, portanto, precisa ser tratada.
A constatação é de que, mesmo sem crises com vizinhos, o Brasil está vulnerável em termos de sua defesa. A preocupação é tanto de civis como de militares no governo.
Enquanto alguns chegam a falar de operações e movimentos “muito preocupantes” na região, o governo Lula insiste que a classificação de cartéis como terrorista transforma uma potencial ingerência em um tema com uma suposta legitimidade legal.
Um dos caminhos seria o de elevar o custo da dissuasão. Para membros do governo brasileiro, a dificuldade dos americanos no Irã ou dos russos na Ucrânia seria a prova que, mesmo com Forças Armadas muito maiores, países menores teriam certa capacidade de resistência, principalmente quando investem em novas tecnologias.