Por Cleber Lourenço
A investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse passou a extrapolar os limites do Supremo Tribunal Federal e se transformou em mais um fator de tensão dentro do bolsonarismo. Além de influenciar a estratégia jurídica adotada pela defesa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o caso alimenta desconfianças entre diferentes alas do grupo político, amplia a disputa entre apoiadores do senador e de Michelle Bolsonaro e agora também colocou o ministro André Mendonça no centro das divergências internas.
Aliados de Flávio têm demonstrado preocupação com a atuação de Mendonça nos desdobramentos do caso Dark Horse. Segundo a reportagem, integrantes do entorno do senador avaliam que o ministro poderia favorecer politicamente Michelle Bolsonaro em meio à disputa pela liderança do bolsonarismo.
A avaliação contrasta com a própria estratégia adotada pela defesa de Flávio nos últimos meses.
Defesa tentou concentrar o caso com Mendonça
Desde que os diferentes desdobramentos do caso Dark Horse chegaram ao Supremo, os advogados de Flávio Bolsonaro fizeram sucessivos movimentos para que as investigações fossem concentradas sob a relatoria de André Mendonça.
O episódio mais recente ocorreu após o ministro Flávio Dino autorizar a abertura de uma investigação para apurar suspeitas de uso de emendas parlamentares no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. A defesa do senador recorreu ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, pedindo que o procedimento fosse redistribuído ao gabinete de Mendonça.
Na petição, os advogados sustentaram que André Mendonça seria o “relator prevento” da matéria e argumentaram que a reunião dos procedimentos evitaria “decisões conflitantes e contraditórias”.
Não foi um movimento isolado. Em outras oportunidades, a defesa também defendeu que procedimentos relacionados ao financiamento do filme fossem encaminhados ao gabinete do ministro, numa estratégia para concentrar todos os desdobramentos do caso sob um único relator.
Narrativas em conflito
Enquanto a estratégia jurídica buscava levar as investigações para André Mendonça, parte do entorno político de Flávio Bolsonaro passou a adotar um discurso diferente.
Segundo apurou a reportagem, aliados do senador passaram a atribuir ao ministro uma suposta proximidade política com Michelle Bolsonaro e chegaram a difundir, nos bastidores, versões de que informações relacionadas ao caso Dark Horse teriam sido utilizadas para enfraquecer a candidatura de Flávio.
A narrativa, entretanto, não encontra respaldo na cronologia conhecida da investigação.
Conforme já noticiado pelo ICL Notícias, quando as primeiras reportagens sobre o caso vieram a público, nem o gabinete de André Mendonça nem a Polícia Federal tinham acesso aos elementos que posteriormente passaram a integrar os procedimentos sob análise do Supremo.
Em conversas com a reportagem, auxiliares do gabinete de André Mendonça também rejeitaram qualquer interpretação de que o ministro atue orientado por interesses políticos ou eleitorais. Segundo eles, a atuação do magistrado é estritamente técnica e se limita à análise dos elementos constantes nos autos.
“O ministro segue o que é apontado pela Polícia Federal, nada além disso”, afirmou um dos auxiliares, ressaltando que as decisões são tomadas com base nas provas produzidas pelos órgãos responsáveis pela investigação.
Divisão dentro do bolsonarismo
A própria figura de André Mendonça passou a refletir as divergências existentes dentro do bolsonarismo.
Há parlamentares que continuam enxergando o ministro como um nome alinhado ao campo conservador e não veem qualquer problema em sua atuação nos procedimentos relacionados ao caso Master e ao Dark Horse.
Outros, porém, afirmam que Mendonça mantém maior proximidade política com Michelle Bolsonaro. Esses parlamentares lembram que a ex-primeira-dama foi uma das principais apoiadoras da indicação do ministro ao Supremo Tribunal Federal e atuou junto à bancada evangélica durante sua sabatina no Senado.
Nos bastidores, integrantes desse grupo também recordam que André Mendonça não era a primeira opção de Flávio Bolsonaro quando Jair Bolsonaro escolheu o nome que indicaria ao STF. Segundo essas versões, o senador defendia que o então procurador-geral da República, Augusto Aras, fosse indicado para a Corte.
Esses mesmos aliados chegam a atribuir a esse episódio um distanciamento entre Flávio e Mendonça, embora não haja qualquer elemento público que comprove essa hipótese.
Caso amplia disputa pela liderança da direita
Mais do que uma investigação sobre o financiamento de um filme, o caso Dark Horse passou a produzir efeitos diretos na disputa pelo comando político do bolsonarismo.
O avanço das apurações já provocou disputas sobre a relatoria dos procedimentos no STF, estratégias divergentes dentro da defesa de Flávio Bolsonaro, versões conflitantes entre aliados do senador e avaliações distintas sobre o papel desempenhado por André Mendonça.
O resultado é um cenário em que a investigação deixou de ser apenas um problema jurídico para se transformar também em mais um capítulo da disputa interna pela liderança do campo bolsonarista, evidenciando as fissuras que se aprofundam às vésperas da corrida presidencial.