Por Iago Filgueiras
A cada pleito, o resultado que sai das urnas após as eleições no Brasil reflete as escolhas e as transformações do país. O crescimento ou a queda de cada candidatura, estado por estado, diz muito sobre como a sociedade se organiza politicamente e as viradas que acontecem na política brasileira entre um pleito e outro.
Olhando para um momento específico, nem sempre é fácil enxergar o quadro geral. Em retrospecto, porém, as mudanças começam a ficar mais nítidas. Se colocados frente a frente, o Brasil que entrou na cabina de votação em 2002 e o que votou em 2022 dificilmente se reconheceriam.
A cada quatro anos, novos rostos surgem nas urnas eletrônicas, dividindo espaço com velhos conhecidos da política nacional. Lideranças inéditas despontam, enquanto outras herdam o capital político que só o peso de um sobrenome que paira sobre a política nacional há décadas — ou séculos — poderia proporcionar. Tudo isso acompanha a trajetória do país e reflete as crises, os movimentos sociais e os eventos que marcaram os últimos anos.
Neste artigo, você vai entender as transformações do país e como elas reverberaram nas eleições no Brasil entre 2002 e 2022 por meio de visualizações de dados interativas que mostram o que mudou e como mudou.
Da maré rosa à nova polarização: como o voto mudou nas eleições no Brasil
Entre o final dos anos 1990 e a década de 2000, uma onda de governos de esquerda tomou conta da América Latina. O período, conhecido como “maré rosa“, ficou marcado pela eleição de lideranças progressistas em vários países da região. O Brasil foi um dos protagonistas desse movimento ao eleger o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, em 2002. Foi a primeira vez que o Partido dos Trabalhadores (PT) conquistou o Palácio do Planalto.
Anos depois, o cenário geopolítico regional se transformou radicalmente, dando lugar a uma “onda azul” impulsionada pelo avanço de forças conservadoras e de extrema direita na região. Afinal, de lá para cá, como as coisas mudaram tanto?
Da disputa entre PT e PSDB à reorganização das forças políticas
Até 2014, a disputa pelo comando do Poder Executivo no país foi dominada por duas legendas: de um lado, o Partido dos Trabalhadores (PT), impulsionado pelo protagonismo de Luiz Inácio Lula da Silva; do outro, o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), cuja força eleitoral estava associada ao legado de Fernando Henrique Cardoso na Presidência, entre 1995 e 2002, e ao sucesso do Plano Real.
Durante doze anos, as urnas colocaram em lados opostos figuras tradicionais desse embate, como Lula, José Serra, Dilma Rousseff, Aécio Neves e Geraldo Alckmin. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, Lula permaneceu no Planalto até 2010, quando sua sucessora, Dilma Rousseff, manteve a hegemonia petista.
No entanto, se em 2002 o Partido dos Trabalhadores foi a legenda mais votada no segundo turno em quase todos os estados do país, com exceção de Alagoas, os pleitos seguintes mostraram que o país se dividiu. O PT consolidou sua influência nas regiões Norte e Nordeste, enquanto o PSDB passou a concentrar forças no Centro-Oeste, Sudeste e Sul.
A partir de 2013, os sinais de que uma mudança viria se tornaram mais evidentes. O sistema político sofreu forte contestação com as Jornadas de Junho, manifestações populares que tomaram as ruas do país após o aumento de R$ 0,20 no preço da tarifa do transporte público, mas que logo passaram a incorporar pautas mais abrangentes, como a luta por mais saúde, educação e segurança.
O fato é que o legado desse movimento segue sendo alvo de debates políticos e acadêmicos no país. Mas, ao que parece, ele pode ter sido um dos eventos mais relevantes da política brasileira nos últimos anos.

O Brasil depois de Junho de 2013
O movimento desidratou a popularidade do governo Dilma e abriu caminho para uma forte contestação social. Nos anos seguintes, o desdobramento de investigações, como a Operação Lava Jato, desgastou o PT e o sistema partidário tradicional, impulsionando processos como o impeachment de Dilma Roussef em 2016 e a prisão de Lula em 2018.
O vácuo deixado pela crise da política institucional possibilitou o surgimento de novas lideranças. Nas eleições de 2018, o PSDB perdeu o espaço que havia ocupado nas disputas presidenciais anteriores e Jair Bolsonaro, um deputado federal sem muita expressividade nacional até então, consolidou-se como principal liderança de uma direita radicalizada, chegando ao segundo turno em oposição ao candidato Fernando Haddad (PT).
A partir daquele momento, a tradicional disputa que costumava ocorrer nas eleições presidenciais deu lugar a uma nova polarização. Em 2018 e 2022, o segundo turno foi marcado pelo confronto entre o campo político liderado pelo PT e a candidatura de Jair Bolsonaro, principal expressão eleitoral do bolsonarismo.
Vitorioso em 2018, Bolsonaro teve uma gestão à frente da Presidência da República marcada por medidas neoliberais na economia, forte tensionamento das instituições e o colapso do sistema de saúde durante a pandemia de Covid-19, que deixou mais de 700 mil mortos no país.

Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as decisões do então juiz Sergio Moro no âmbito da Operação Lava Jato em Curitiba. Como consequência, o julgamento de Lula foi anulado e ele se tornou elegível novamente. Com a recuperação de seus direitos políticos, o ex-presidente voltou ao cenário eleitoral para protagonizar a disputa de 2022, a mais acirrada da história recente do país.
A reconfiguração da disputa política foi tão profunda que antigos adversários se uniram na formação de uma frente ampla: Lula foi eleito tendo Geraldo Alckmin, agora filiado ao PSB, como vice. Menos de duas décadas antes, os dois haviam se enfrentado no segundo turno da eleição de 2006, quando Alckmin representava o PSDB.
A vitória da chapa nas urnas, contudo, ocorreu sob forte resistência do bolsonarismo. A contestação contínua à confiabilidade do sistema eleitoral e a exaltação da memória do regime militar tornaram-se marcas dessa corrente política.
Esse ambiente de radicalização resultou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando manifestantes golpistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília. As investigações avançaram sobre os articuladores do movimento e resultaram no julgamento e na prisão de Jair Bolsonaro e militares que integravam a cúpula do governo, por envolvimento na tentativa de golpe de Estado.
Veja mais: Veja todas as fases do julgamento do STF que levou Bolsonaro à prisão
A Câmara dos Deputados mudou — e muito
Olhar para as eleições no Brasil vai além de identificar quem foi eleito presidente ou não. Entender as condições em que esse mandato passou a ser exercido se tornou igualmente importante. Nos últimos anos, as transformações ocorridas na Câmara dos Deputados revelam muito sobre quais agentes ganharam ou perderam espaço, e como a mudança na correlação de forças impôs novos limites para a relação entre Executivo e Legislativo.
Para compreender o cenário, você pode navegar pelo gráfico interativo abaixo. É só alternar entre os anos de 2002 a 2022 para ver a evolução das bancadas parlamentares.
A crise do presidencialismo de coalizão no Brasil
Por muito tempo, a relação entre o Planalto e o Congresso seguiu o modelo do presidencialismo de coalizão. O presidente eleito montava o governo, distribuindo ministérios e cargos estratégicos para obter apoio de legendas de centro e centro-direita. Esse arranjo perdeu força com o crescimento do Centrão, um bloco informal que passou a exigir (e conquistar) controle direto sobre partes expressivas do orçamento da União, sem a necessidade de garantir fidelidade ao Executivo.
O enfraquecimento do governo federal nos últimos anos, combinado à chegada das emendas impositivas e do orçamento secreto, deu à Câmara um poder inédito sobre os recursos públicos. Ao mesmo tempo, o fortalecimento de uma base vinculada à extrema direita mudou o rumo dos debates legislativos, impondo barreiras a pautas sociais e ambientais.
Leia mais na Revista Liberta: A necessária reforma do presidencialismo no Brasil
A transformação do ambiente partidário
A força dos partidos na Câmara também mudou bastante. Observando o gráfico, é possível perceber o surgimento de novas legendas e o desaparecimento de outras, ao mesmo tempo em que se observa uma transformação nítida no número de partidos representados.
As razões para isso estão na Reforma Eleitoral de 2017, que introduziu alguns dispositivos que alteraram a organização partidária no país. Entre eles, o fim das coligações nas disputas proporcionais e a imposição da cláusula de barreira.
Até então, os partidos podiam se coligar e formar alianças eleitorais na corrida por vagas de deputados e vereadores. Esse sistema permitia que os votos recebidos por um candidato muito popular fossem transferidos para a coligação inteira, ajudando a eleger candidatos de outras legendas, mesmo que não tivessem conquistado uma votação expressiva. Isso ficou conhecido também como o chamado “puxador de votos”,
Com o fim das coligações nas eleições proporcionais, o desempenho passou a ser totalmente condicionado à performance da legenda. Agora, cada partido precisa alcançar por conta própria o número necessário de votos para garantir suas cadeiras, o que acabou com a facilidade para legendas sem expressividade popular chegarem ao Congresso.

Outra mudança que transformou a representação na Câmara foi a implementação progressiva da cláusula de barreira. A norma não impede que um candidato seja eleito, mas condiciona o acesso ao fundo partidário e tempo de propaganda eleitoral gratuita ao percentual de votos recebido na votação para o Congresso, ou à formação de uma bancada mínima na Câmara.
Em vigor nas eleições gerais a partir de 2022, as mudanças já mostraram efeito e a fusão e incorporação de legendas pequenas por partidos maiores mostram o impacto disso.
O cenário atual pouco lembra o início dos anos 2000. Partidos tradicionais que ajudaram a construir o debate político nas últimas décadas mudaram de nome ou simplesmente deixaram de existir. O PFL se transformou em Democratas e depois se fundiu ao PSL para criar o União Brasil. O PMDB retirou o “P” da sigla para se reestruturar como MDB. Ao mesmo tempo, novos partidos, como a UP, passaram a disputar espaço na política institucional.
Quem vota e quem é votado?
Para entender quem chega ao poder, também é preciso olhar para as pessoas que colocam seus nomes nas urnas e comparar o perfil de quem se candidata com o de quem, de fato, consegue ser eleito.
Nas últimas duas décadas, mudanças na legislação eleitoral e a pressão de movimentos sociais e da sociedade civil levaram à criação de medidas para ampliar a presença de grupos historicamente sub-representados na política. Mas estar entre os candidatos registrados pelo Tribunal Superior Eleitoral é bem diferente de ter as mesmas condições para disputar uma eleição.
Os dados mostram justamente essa diferença. Entre quem se candidata e quem é eleito, existe um caminho marcado por desigualdades de representação e desafios estruturais.
A composição racial na Câmara dos Deputados
O infográfico abaixo mostra a proporção de candidatos e deputados eleitos segundo a declaração de cor ou raça. Use os botões para alternar entre quem disputou a eleição e quem conseguiu chegar à Câmara dos Deputados.
A autodeclaração de cor ou raça passou a ser obrigatória no registro de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2014. Desde então, a presença de candidatos pretos, pardos e indígenas nas eleições para deputado federal aumentou. Entre os eleitos, porém, a mudança acontece em um ritmo mais lento.
O resultado é uma Câmara dos Deputados que ainda apresenta uma representação racial distante da composição da população brasileira. Os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram a dimensão da diferença:
- Pardos: 45,3% — 92,1 milhões de pessoas
- Brancos: 43,5% — 88,2 milhões de pessoas
- Pretos: 10,2% — 20,6 milhões de pessoas
- Indígenas: 0,6% — 1,2 milhão de pessoas
- Amarelos: 0,4% — 850,1 mil pessoas
A comparação não significa que o Congresso precise reproduzir exatamente a composição demográfica do país, mas mostra como ainda há um abismo entre a diversidade do país e a forma como ela é representada nas instituições.
Veja mais: Candidaturas negras chegam a 49,8% e se aproximam do perfil racial do Brasil
A representatividade de gênero na Câmara
A desigualdade de gênero na Câmara também aparece quando comparamos quem se candidata com quem consegue ser eleito.
O infográfico a seguir mostra a evolução da participação de mulheres entre os candidatos e as deputadas federais eleitas entre 2002 e 2022.
A cota que determina o preenchimento de pelo menos 30% das candidaturas por mulheres fez a presença feminina nas listas eleitorais crescer. O mesmo avanço, porém, não aconteceu na composição da Câmara. A bancada feminina aumentou ao longo dos últimos pleitos, mas as mulheres ainda representam menos de um quinto dos deputados federais, embora somem mais de 51% da população brasileira, segundo o IBGE.
Em 2022, porém, houve um momento inédito na história das eleições no Brasil. Pela primeira vez, duas mulheres trans foram eleitas para a Câmara dos Deputados: Erika Hilton, pelo PSOL, e Duda Salabert, à época filiada ao PDT. A eleição das duas ampliou a representação de pessoas LGBTQIAPN+ no Legislativo e marcou uma mudança importante em uma instituição ainda majoritariamente masculina e heteronormativa.
A questão racial no Senado Federal
No Senado, a distância entre a diversidade das candidaturas e a composição da Casa também chama atenção.
O gráfico abaixo permite comparar o perfil racial dos candidatos a senador com o dos senadores efetivamente eleitos a partir de 2014.
A comparação precisa levar em conta uma diferença importante em relação à Câmara. O mandato de um senador dura oito anos, por isso, as eleições para esse cargo alternam entre a renovação de um terço e dois terços da Casa. Isso explica por que existe uma diferença entre o número de eleitos a cada eleição para o Senado, alternando entre 27 e 54.
Além disso, diferentemente da votação para a Câmara, esta eleição é majoritária: vence o candidato — ou candidatos — que obtiver o apoio mais expressivo em cada estado. Com menos vagas disponíveis, a corrida tende a favorecer nomes já conhecidos e com estruturas políticas e financeiras consolidadas.
O fato é que a desigualdade assume características interseccionais e a existência de candidaturas pretas e pardas nas urnas não garante, por si só, condições equivalentes de disputa. A distribuição de recursos, o tempo de campanha, a estrutura partidária e o apoio político nos estados também podem determinar quais candidaturas terão condições reais de chegar ao Senado.
A representação de gênero no Senado Federal
A presença das mulheres no Senado também revela uma diferença importante entre quem disputa as eleições e quem consegue chegar à Casa.
O infográfico abaixo mostra a evolução da representatividade de gênero entre os candidatos e os senadores eleitos de 2002 a 2022.
Como vimos antes, a eleição para o Senado impõe desafios diferentes dos enfrentados por candidatos à Câmara. Isso faz com que a representatividade seja atravessada por questões como tamanho da estrutura partidária e capacidade de mobilizar votos em todo o estado.
Mesmo com o aumento da presença feminina entre as candidaturas em alguns pleitos, esse movimento não se converteu na mesma proporção em mais mulheres ocupando cadeiras no Senado. A participação feminina na Casa avançou lentamente ao longo das últimas duas décadas e continua distante de uma representação equilibrada.
Ampliar a presença feminina nas listas de candidatos é parte do desafio, mas não significa, por si só, que mais mulheres serão eleitas. Entre o registro da candidatura e a decisão do eleitor frente à urna, há condições profundas de desigualdade que, há séculos, estruturam o país.
O que mudou nas eleições no Brasil e o que não mudou?
A transformação ao longo dos anos é nítida. O mapa das eleições presidenciais mudou, com a tradicional disputa entre PT e PSDB dando lugar, a partir de 2018, à polarização entre petismo e bolsonarismo. No Congresso, antigas siglas perderam espaço, desapareceram ou se fundiram, enquanto novas legendas cresceram e o Centrão ampliou sua força na Câmara dos Deputados.
O perfil de quem disputa um cargo político também mudou. Mulheres, pessoas pretas, pardas e indígenas ampliaram sua presença entre as candidaturas. Mas, quando olhamos para os eleitos, é evidente que ainda há muitos desafios a serem superados. A distância entre o perfil da população brasileira e o de seus representantes continua evidente.
O sistema político mudou bastante, mas algumas estruturas mais profundas permanecem resistentes a essa mudança. A desigualdade de representação, a força das máquinas partidárias, a influência do dinheiro e o peso de nomes que orbitam a política brasileira há séculos permanecem um desafio histórico. Olhar para as últimas duas décadas nos ajuda a entender as diferenças, mas também revela muitas similaridades.
E há, ainda, uma outra lição que as últimas eleições no Brasil tornaram difícil de ignorar: nossa democracia é jovem e, embora resiliente, não é uma certeza, muito menos inabalável. Proteger o Estado democrático depende de instituições funcionando, eleições respeitadas, representação política ampla e de uma sociedade capaz de reagir quando as regras começam a ser quebradas.