Feminismo: principais ondas, contextos históricos e o que é ser mulher hoje

Do voto ao direito de existir com dignidade — a luta feminista por um futuro mais justo e plural para todas as mulheres
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Entender a trajetória histórica do feminismo, seus desafios e conquistas é crucial para entender o que significa ser mulher no mundo de hoje. Para isso, partimos de uma provocação essencial de Simone de Beauvoir, em sua obra O Segundo Sexo, publicada em 1949: “não se nasce mulher: torna-se.”

A frase, que sintetiza um dos fundamentos do pensamento feminista, resume em poucas palavras o conceito da condição feminina como uma construção histórica, social e política, moldada por normas, violências, mas também por resistências.

Aqui vamos discutir contexto histórico, político, como os marcadores sociais influenciam essa experiência e como o movimento feminista tem sido central na luta por transformações profundas na sociedade.

O que é feminismo?

O feminismo é um movimento social, político e cultural que luta pela igualdade de gênero e pelos direitos das mulheres. Ele questiona a estrutura patriarcal da sociedade, denuncia violências simbólicas e materiais, e propõe novas formas de organização social baseadas na equidade.

Mais do que isso, para responder à pergunta “o que é feminismo?” é preciso deixar claro que o feminismo é diverso, interseccional e busca o reconhecimento das diferentes formas de ser mulher, considerando os marcadores sociais da diferença como raça, classe, sexualidade e identidade de gênero.

O símbolo do feminino tem origem na mitologia e representa o espelho da deusa Vênus, deusa do amor, da beleza e da fertilidade. Imagem: divulgação 
O símbolo do feminino tem origem na mitologia e representa o espelho da deusa Vênus, deusa do amor, da beleza e da fertilidade. Imagem: divulgação 

Principais ondas do movimento feminista

O movimento feminista se desenvolveu em diferentes ondas históricas, cada uma com demandas, linguagens e protagonismos específicos. Vamos analisar essas ondas e entender a evolução do movimento:

Primeira onda do feminismo

A primeira onda do feminismo ocorreu entre o final do século XIX e o início do século XX. Suas principais pautas eram o direito ao voto, o acesso à educação e à participação política.

Entre as principais figuras do período estão as sufragistas — mulheres que lideraram campanhas organizadas e mobilizações históricas pelo sufrágio feminino, especialmente no Reino Unido, Estados Unidos e, mais tarde, no Brasil.

Um dos nomes mais emblemáticos foi o de Emmeline Pankhurst, líder do movimento sufragista britânico e fundadora da Women’s Social and Political Union.

Embora marcada pelo protagonismo de mulheres brancas, cisgênero e de classes médias urbanas, essa fase do movimento feminista foi crucial para inaugurar o debate público sobre os direitos das mulheres.

Ainda que limitada em termos de diversidade, a primeira onda plantou as sementes do feminismo contemporâneo ao desafiar as primeiras barreiras impostas pelo patriarcado há muito tempo institucionalizado e nunca antes questionado.

Sufragistas exigem o direito ao voto feminino no início do século XX. Imagem: reprodução
Sufragistas exigem o direito ao voto feminino no início do século XX. Imagem: reprodução

Segunda onda do feminismo

Entre as décadas de 1960 e 1980, a segunda onda ampliou o foco do feminismo, incluindo questões como sexualidade, direitos reprodutivos, violência doméstica e mercado de trabalho.

Foi nesse período que a pergunta “o que é feminismo?” começou a incorporar a crítica à opressão estrutural, apontando como o patriarcado se articula com outras formas de dominação, como o racismo e a homofobia.

Mulheres negras como Angela Davis e Lélia Gonzalez denunciaram a invisibilização de suas experiências dentro do movimento feminista hegemônico. Ao mesmo tempo, feministas lésbicas como Audre Lorde questionaram a heteronormatividade e o silenciamento de suas vozes.

Foi assim que esses tipos de reflexões abriram caminho para uma compreensão mais ampla do que significa ser mulher, tornando o feminismo mais atento à diversidade de trajetórias dentro da luta por igualdade.

Mulheres marcham durante a segunda onda do feminismo nos EUA, como retratado no documentário She's Beautiful When She's Angry. Imagem: reprodução/documentário 
Mulheres marcham durante a segunda onda do feminismo nos EUA, como retratado no documentário She’s Beautiful When She’s Angry. Imagem: reprodução/documentário 

Terceira onda do feminismo

A partir da década de 1990, a terceira onda trouxe a pluralização das “mulheridades”.

O feminismo passou a se tornar mais interseccional, reconhecendo as diferenças entre mulheres e valorizando a escuta de sujeitos históricos diversos, como mulheres trans, travestis e pessoas não binárias.

Uma das vozes mais potentes desse momento foi a da escritora, professora e ativista Bell Hooks, que denunciou como o sexismo se entrelaça com o racismo, o classismo e outras formas de opressão. Seu trabalho foi essencial para expandir o feminismo para além das experiências das mulheres brancas e de classe média.

Os marcadores sociais da diferença tornaram-se centrais para o debate, incluindo aspectos como a forma como mulheres negras são tratadas pela justiça, a violência policial que recai sobre corpos racializados e a dificuldade de acesso a serviços de saúde por mulheres pobres ou periféricas.

Mais do que isso, também é preciso falar sobre a violência contra pessoas trans quando sabemos que a cada 33 horas, uma pessoa trans é assassinada no Brasil, de acordo com o relatório da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Exemplos práticos dessas desigualdades são vistos quando mulheres negras são as mais afetadas pela mortalidade materna, quando mulheres trans são excluídas do mercado formal de trabalho e quando mulheres pobres enfrentam barreiras para denunciar violência doméstica.

O feminismo da terceira onda passou, portanto, a questionar quem são as mulheres cujas vozes estão sendo ouvidas, e quais estão sendo silenciadas.

Manifestantes marcham à noite com cartazes que exigem respeito, igualdade e justiça para as mulheres. Imagem: divulgação 
Manifestantes marcham à noite com cartazes que exigem respeito, igualdade e justiça para as mulheres. Imagem: divulgação 

Principais conquistas feministas

O feminismo teve papel fundamental em conquistas históricas que mudaram a vida de milhões de mulheres no Brasil e no mundo. Leis como a Maria da Penha, a criminalização do feminicídio e a legalização da pílula anticoncepcional são resultados diretos da atuação do movimento feminista.

O movimento feminista também foi responsável por trazer o debate sobre o trabalho doméstico, a dupla jornada e a valorização do cuidado para o centro das discussões políticas.

Além disso, no mercado de trabalho, ainda que a desigualdade persista, hoje temos mais mulheres em posições de liderança e em espaços antes ocupados majoritariamente por homens.

Um exemplo dessa evolução histórica é quando lembramos que até 1932 as mulheres não podiam votar no Brasil. Porém, hoje as mulheres não só podem votar, como são votadas: 302 mulheres foram eleitas para cargos legislativos em todo o país nas eleições de 2022 – mesmo que ainda representem menos de 18% do total de parlamentares.

Mulheres que fazem parte da bancada feminina da Câmara dos Deputados. Imagem: Pablo Valadares
Mulheres que fazem parte da bancada feminina da Câmara dos Deputados. Imagem: Pablo Valadares

Desafios contemporâneos do feminismo

Nos tempos atuais, o feminismo enfrenta desafios complexos. As redes sociais ampliaram o alcance das pautas feministas, mas também abriram espaço para o discurso de ódio, a misoginia e a desinformação com impactos alarmantes entre jovens e adolescentes.

Plataformas como o TikTok têm sido apontadas como grandes propagadoras de conteúdo misógino principalmente entre meninos.

Esses conteúdos, muitas vezes mascarados de humor ou conselhos sobre masculinidade, atacam diretamente os valores feministas e promovem a ideia de que mulheres são inferiores ou uma ameaça ao controle masculino.

Não só isso, mas movimentos antifeministas têm ganhado visibilidade e tentam minar as conquistas obtidas até aqui. Nesse contexto, o movimento feminista precisa reafirmar sua luta em vários espaços: nas escolas, nos ambientes de trabalho, na mídia e nas ruas.

Além disso, também é fundamental continuar ampliando o debate sobre os marcadores sociais da diferença ao combater o racismo, a transfobia e o capacitismo dentro do próprio feminismo.

Por fim, outro desafio central é a construção de políticas públicas que de fato façam a diferença na sociedade. O primeiro passo é dialogando com o Estado e pressionando por legislações que garantam segurança, dignidade e oportunidades para todas as mulheres, sem exceção.

Mulheres marcham em defesa da autonomia sobre seus corpos e direitos reprodutivos na Marcha das Mulheres em São Paulo. Imagem: reprodução
Mulheres marcham em defesa da autonomia sobre seus corpos e direitos reprodutivos na Marcha das Mulheres em São Paulo. Imagem: reprodução

É assim que, hoje, o feminismo se expressa em diversas vertentes que ajudam a compreender suas diferentes abordagens e estratégias.

O feminismo liberal busca igualdade por meio de reformas dentro das estruturas já existentes, enquanto o feminismo radical defende mudanças profundas nas bases da sociedade patriarcal. Já o feminismo negro denuncia o racismo estrutural e a invisibilidade das mulheres negras nas pautas tradicionais.

O feminismo marxista aponta para a relação entre exploração econômica e opressão de gênero, e o feminismo interseccional mostra como diferentes opressões (raça, classe, gênero, sexualidade) se combinam e podem ser defendidas pela mesma luta.

Talvez você esteja se questionando o que essas vertentes têm em comum e a resposta é simples: o entendimento de que a opressão das mulheres não é um acidente da história, mas parte de um sistema que se beneficia da desigualdade.

É, inclusive, esse assunto que Alexandra Kollontai nos lembra no título de um de seus textos mais conhecidos: “não se pode libertar a mulher sem libertá-la da exploração econômica.”

O pensamento de Alexandra é um lembrete de que patriarcado e o capitalismo andam juntos. Afinal, desvalorizar o trabalho doméstico, pagar menos para mulheres e invisibilizar o cuidado não são apenas injustiças morais, mas estratégias econômicas de um sistema que precisa dessa desigualdade para lucrar.

A história do feminismo é também a história de quem nunca aceitou que isso fosse verdade. Do voto à liberdade sexual, das lutas contra a violência às conquistas na política, o movimento feminista mostrou que a pergunta “o que é feminismo?” não tem uma única resposta, mas é uma construção coletiva, viva e plural.

E é com essa pluralidade que seguimos lutando, pensando e resistindo.

Quer entender melhor tudo isso?

A nova série do ICL te explica sobre esse e outros assuntos em apenas 10 minutos. Com a brilhante professora Maria Ribeiro — cientista social e doutora em Comunicação e Semiótica – essa série vai te ajudar a perceber como o feminismo transforma vidas, denuncia injustiças e propõe um futuro mais justo e plural. Clique aqui e confira!

 

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail