Por Iago Filgueiras*
Nos últimos anos, sobretudo com a ascensão da extrema direita, resgatar a memória da ditadura militar como um momento glorioso da história brasileira se tornou mais comum. O golpe de 1964, que mergulhou o país em 21 anos de violência, censura e repressão, passou a ocupar o centro de uma disputa de narrativas que vai muito além do passado.
No fundo, trata-se de um conflito sobre o presente e o futuro. Sobre o que se considera democracia, sobre quem tem legitimidade para governar e sobre quais limites o Estado pode ultrapassar.
Com a ascensão da extrema direita e do bolsonarismo, o debate sobre o golpe de 1964 deixa de ser historiográfico e se torna político. A memória da ditadura vira um campo de batalhas onde projetos de sociedade se chocam. Neste artigo, você vai entender as razões por trás do revisionismo e como essa disputa por memória sai do campo das ideias e chega a ação.
O que foi a ditadura militar no Brasil após o golpe de 1964?
A ditadura militar no Brasil foi um regime autoritário instaurado a partir do golpe de 1964, que depôs o presidente João Goulart e colocou as Forças Armadas no poder. Ao longo de 21 anos, o país foi governado por generais que concentraram poderes, suspenderam direitos políticos, censuraram a imprensa e reprimiram violentamente opositores.
O regime se estruturou por meio de atos institucionais, sendo o mais emblemático o AI-5, que institucionalizou a repressão, permitindo prisões arbitrárias, cassações e o fechamento do Congresso. A perseguição política incluiu torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados, atingindo militantes, trabalhadores, estudantes e intelectuais.
Além da repressão, a ditadura também reorganizou a economia e o Estado brasileiro, promovendo um modelo de desenvolvimento concentrador de renda e dependente de capital externo. Ao mesmo tempo em que buscava legitimação por meio de um discurso de ordem e progresso, o regime ocultava suas práticas autoritárias.
Com o fim da ditadura em 1985, iniciou-se um processo de redemocratização marcado por negociações e limites, entre eles a ausência de punição aos responsáveis por crimes de Estado.
Veja mais em: Ditadura militar no Brasil: resumo, causas, presidentes, repressão e resistência
“Na ditadura era melhor”: O perigo do revisionismo e da disputa narrativa
A afirmação “na ditadura era melhor” se tornou muito difundida no debate público sobre o golpe de 1964. Repetida à exaustão em redes sociais, discursos políticos e conversas cotidianas, ela carrega em si uma leitura simplificada e seletiva do passado. Uma leitura em que tortura, ditadura e desigualdade dão lugar a ordem, segurança e prosperidade.
Para entender essa narrativa, é preciso considerar que ela surge a partir de recortes específicos, apagamentos e distorções. O ditado popular “quem conta um conto aumenta um ponto” agora ganha uma adição: “quem conta um conto também pode minimizar muitos pontos”.
Elementos como o crescimento econômico pontual ou a ideia de controle da criminalidade ganham destaque. Ao mesmo tempo, a repressão, as violações de direitos humanos e a censura são relativizadas ou ignoradas. E vale pontuar que o controle do Estado sobre a imprensa durante a ditadura militar foi, justamente, um dos principais motivadores da percepção pública de ausência de corrupção e ordem pública preservada.
Mais do que uma interpretação equivocada, o revisionismo ideológico acerca da ditadura reflete algo mais complexo: a disputa pela memória. Quando se apresenta o regime militar como positivo e se opõe a glória de um passado contra os desafios do presente, questionar e se opor ao momento atual se torna possível. Se o passado autoritário é visto como desejável, o regime democrático passa a ser interpretado como um problema.
Revisionismo historiográfico vs. ideológico: Qual a diferença?
Para compreender como a relativização das barbaridades da ditadura militar se sustenta, é preciso distinguir dois usos muito diferentes da ideia de “revisionismo”. No debate historiográfico, nem toda revisão é negativa e, muitas vezes, é parte importante do trabalho acadêmico.
O revisionismo historiográfico é uma prática legítima, baseada em método e ética. Ele busca reavaliar interpretações consolidadas a partir de novas fontes, novas pesquisas ou mudanças nas sensibilidades históricas.
Por exemplo: se no momento atual surge um documento inédito que revela novos detalhes sobre um período histórico, é fundamental que haja uma revisão. Esse trabalho é parte essencial do método científico, e os resultados dessa pesquisa seriam avaliados pela comunidade e passariam a integrar um debate coletivo.
Já o revisionismo ideológico funciona de outra forma. O rigor se torna dispensável e o método científico dá lugar a um processo que muitas vezes se pauta na distorção de teses reconhecidas, no uso descontextualizado de fontes e na exploração sensacionalista de casos isolados. No lugar de tirar conclusões a partir da investigação, usam-se conclusões prévias para selecionar os argumentos que melhor as sustentem.
Nesse processo, a história é reduzida a uma narrativa simplificada e orientada por interesses políticos. Como aponta o historiador Lindener Pareto, na aula História do Brasil disponível para membros do ICL: “Fazer revisionismo não tem problema; o problema é negar fatos incontornáveis do passado”.
E é justamente esse revisionismo ideológico que permite a criação de uma suposta roupagem científica para afirmações como “na ditadura era melhor”.
Quais os reais interesses por trás da relativização do golpe?
É preciso considerar que relativizar a memória do golpe de 1964 não é um processo inocente. Ele atende a interesses políticos e se insere em disputas políticas que acontecem agora, no presente. Quando se reescreve o passado, determinados grupos buscam legitimar posições e ampliar sua capacidade de mobilização.
O papel das Forças Armadas e a manutenção da impunidade
Entender o papel das Forças Armadas na ditadura militar e no período democrático é fundamental para compreender esse processo. Passado o golpe de 1964 e os 21 anos de ditadura que assombraram o país, o Brasil nunca realizou um processo amplo de responsabilização pelos crimes cometidos no período. A ausência de punição consolidou uma cultura de impunidade que segue influenciando o debate público.
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, reconhecido por seu negacionismo acerca dos crimes da ditadura, o Ministério da Defesa passou a celebrar o 31 de março de 1964, data em que os militares assumiram o poder no país. Entre 2019 e 2022, a narrativa adotada buscava reivindicar o papel do golpe de Estado na “pacificação do país” e a ideia de que ele foi essencial para “sustentar a democracia”.
Nesse contexto, a impunidade vai além de uma injustiça: ela funciona como um mecanismo de legitimação. Ao não responsabilizar os agentes do regime, abre-se espaço para a preservação de uma memória que apresenta as Forças Armadas como garantidoras da ordem, e não como protagonistas de um golpe de Estado.

Esse papel, inclusive, costuma ser mobilizado pela extrema direita a partir de interpretações acerca da própria Constituição Federal de 1988, que, em seu artigo 142, estabelece que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.
Com base nisso, a ideia de que uma intervenção militar pode ser, em determinadas circunstâncias, uma resposta legítima a crises políticas permanece pairando sobre a sociedade. Ao longo das últimas décadas, essa percepção foi mobilizada em diferentes momentos de instabilidade, reforçando a presença dos militares no debate público e na política institucional.
Os privilégios de militares e seus herdeiros
Militares que torturaram e mataram opositores do regime não foram responsabilizados. Em 2014, o relatório final produzido pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), órgão criado para apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com foco na ditadura militar, apontou 377 pessoas como responsáveis diretas ou indiretas pela prática de tortura e assassinatos. No entanto, poucos foram de fato punidos.
E mais: até os anos 2000, o ordenamento jurídico previa o pagamento de pensão às familiares de militares, com base na Lei 3.765 de 1960. Em 2021, segundo reportagem da Agência Pública, esse valor era pago a 73 mulheres, viúvas ou filhas de 47 militares falecidos e acusados de crimes na ditadura. À época, isso representava um gasto de R$ 1,2 milhão por mês ao Estado.
Veja mais em: Militares na política: a politização dos quartéis e a militarização do Estado
Como a extrema direita usa o passado para mobilização política
Na extrema direita brasileira, o revisionismo ideológico também funciona como uma ferramenta de mobilização política. Ao simplificar e relativizar o passado, constrói-se uma narrativa em que lados opostos aparecem de forma simplificada: ordem versus caos, segurança versus ameaça. Essa lógica gera uma identificação imediata e dispensa análises mais complexas da história.
No artigo O revisionismo utilizado como política de governo pelo bolsonarismo, o mestre em história pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Ariel Cherxes Batista, analisa a mobilização da memória saudosista da ditadura militar pelo bolsonarismo, principal vertente da extrema direita brasileira.
Nesse sentido, ganha força a ideia de que a ditadura teria tido apoio de setores conservadores, guiados por valores como a moral cristã e o anticomunismo. A partir disso, vai se formando uma narrativa de um passado “organizado” e “correto”, em que esses valores estariam protegidos. No Brasil de hoje, essa memória é usada para mobilizar o chamado “cidadão de bem” e reforçar a defesa da chamada “família tradicional”.

O anticomunismo, que foi central para justificar o golpe de 1964, reaparece como elemento estruturante dessa mobilização. Ainda que, mesmo à época, não houvesse evidências concretas que sustentassem a ideia de uma ameaça comunista iminente, essa narrativa permanece. Hoje, ela se atualiza na noção de “marxismo cultural”, um conceito que associa instituições democráticas, universidades, mídia e debates sobre gênero a uma suposta conspiração ideológica para implantar o comunismo.
Como consequência, o passado é instrumentalizado para legitimar projetos de poder no presente. A história deixa de ser campo de reflexão e vira um mecanismo de legitimação para a ação política. Ao transformar a memória da ditadura em um ativo capaz de gerar mobilização, o revisionismo ideológico contribui para naturalizar soluções autoritárias e expandir os limites do debate democrático.
Leia mais em: Ditadura: a influência do anticomunismo e dos Estados Unidos no golpe 64
Quando o revisionismo vira ação: do discurso ao 8 de janeiro

Essa trajetória de relativização se soma ao histórico de impunidade e produz efeitos no Brasil contemporâneo. Em 8 de janeiro de 2023, dezenas de milhares de manifestantes insatisfeitos com a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro, líder da extrema direita, invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília clamando por uma intervenção militar.
O episódio que, após investigações e julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF), foi enquadrado como parte de uma trama mais ampla de conspiração para a abolição do Estado Democrático de Direito, foi precedido por grandes acampamentos montados em frente a quartéis pelo país. Nesses locais, manifestantes pediam que o Exército assumisse o poder para garantir a “ordem”.
Na aula Bolsonarismo: dissonância cognitiva coletiva e retórica do ódio, disponível na plataforma ICL, o historiador e professor titular de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, João Cezar de Castro Rocha, destaca:
“Quando a impunidade passa a ser a regra, é possível que generais, neste país, em 2022, tenham acobertado dezenas de milhares de pessoas acampando diante de quartéis pedindo ditadura militar”.
Entre o passado e o futuro: a disputa pela democracia
A disputa em torno do golpe de 1964 não é apenas sobre o passado. Ela define os limites do presente. Ao relativizar crimes de Estado, abre-se espaço para sua repetição. Ao negar violações, impede-se a construção de uma memória coletiva capaz de sustentar a democracia.
Em A ditadura revisitada: a Comissão Nacional da Verdade 10 anos depois, disponível na plataforma ICL, a historiadora e uma das vítimas do regime, Janaína Teles, chama atenção para a persistência desse negacionismo. Para ela, os crimes da ditadura “ainda são muito fortes na opinião pública”, em parte porque não foram plenamente expostos. A ausência de testemunhos amplamente divulgados, segundo ela, pode ter enfraquecido o enfrentamento dessas narrativas.
Por isso, lembrar é uma escolha política e combater o revisionismo ideológico exige que se trave também uma disputa por sentidos. A memória, afinal, vai além de revisitar o que aconteceu. É sobre o que nós, enquanto sociedade, decidimos fazer com o que passou. E, no caso do golpe de 1964, essa decisão continua em aberto.
*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu