Representante do Banco Master acompanhou missão do governo Bolsonaro ao Irã

Telegramas diplomáticos mostram a atuação do Banco Master em iniciativas comerciais do Brasil com o Irã entre os governos Bolsonaro e Lula
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Por Cleber Lourenço

Documentos diplomáticos obtidos pelo ICL Notícias mostram que um representante do Banco Master integrou uma missão empresarial que acompanhou a então ministra da Agricultura, Tereza Cristina, em uma visita oficial ao Irã em fevereiro de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. No ano seguinte, já sob o governo Lula, o Banco Master voltou a aparecer em uma iniciativa comercial brasileira no Irã e passou a ocupar o pavilhão oficial do Brasil na Iran Agrofood, apresentado como fornecedor de serviços financeiros para exportações destinadas a mercados submetidos a sanções internacionais.

Os dois telegramas revelam que a presença do Master em iniciativas comerciais brasileiras no Irã não foi um episódio isolado. Entre 2022 e 2023, o banco saiu de uma missão empresarial formada por cerca de 30 pessoas para um espaço organizado diretamente pela Embaixada do Brasil em Teerã e pelo Ministério da Agricultura.

A entrada do Master no Irã

A primeira viagem ocorreu entre 16 e 20 de fevereiro de 2022. O telegrama nº 00091, assinado pelo então embaixador brasileiro no Irã, Laudemar Aguiar, relata os compromissos de Tereza Cristina e identifica separadamente os integrantes da comitiva ministerial e os representantes do setor privado que acompanharam a visita.

A comitiva oficial era formada por três auxiliares do Ministério da Agricultura do governo bolsonaro: o secretário-adjunto de Comércio e Relações Internacionais, Jean Marcel Fernandes; uma assessora do Departamento de Promoção Comercial e Investimentos; e uma assessora de comunicação do gabinete da ministra.

“Também participaram da visita missão empresarial de cerca de 30 pessoas”, registra o telegrama. Além do Banco Master, a lista incluía JBS/Seara, Marfrig, BRF, Aprosoja de Mato Grosso, associações do agronegócio e empresas de fertilizantes e armazenagem.

Embora não integrasse a comitiva oficial, a missão empresarial participou de atividades vinculadas à programação de Tereza Cristina. Em 18 de fevereiro de 2022, a ministra discursou em um encontro organizado pela Jahad-e-Esteghlal, empresa pública ligada ao Ministério da Agricultura iraniano. Segundo a embaixada, os representantes empresariais brasileiros estiveram no evento.

No dia seguinte, Tereza Cristina reuniu-se com seu homólogo iraniano, Seyed Javad Sadati Nejad, e participou de um encontro ampliado com a cúpula do Ministério da Agricultura do Irã e empresas dos dois países. O telegrama não individualiza os participantes de cada empresa e, por isso, não permite afirmar se o Master esteve em todas essas reuniões ou manteve encontros próprios com autoridades iranianas.

A agenda também contou com jantar promovido pela Câmara de Comércio Conjunta Irã-Brasil, almoço oferecido pela embaixada em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes e um jantar oficial oferecido pelo ministro iraniano.

A prioridade do governo Bolsonaro naquela viagem era garantir o fornecimento de fertilizantes iranianos ao Brasil, especialmente ureia, e ampliar as exportações brasileiras de carnes, alimentos e outras commodities agrícolas. Tereza Cristina visitou a Petroquímica Shiraz, uma das maiores fabricantes de ureia e fertilizantes do Irã, e se reuniu com o presidente da National Petrochemical Company, estatal ligada ao Ministério do Petróleo iraniano.

Em declaração conjunta, os ministros da Agricultura dos dois países assumiram o compromisso de ampliar as vendas de alimentos brasileiros e as exportações iranianas de fertilizantes. Também defenderam a atração de investimentos, a criação de joint ventures (parceria empresarial) e a implementação de projetos agrícolas envolvendo empresas dos dois países.

Ao avaliar a viagem, Laudemar Aguiar destacou que se tratava da primeira visita brasileira de alto nível ao Irã em mais de quatro anos. O embaixador classificou a relação como “absolutamente pragmática” e afirmou que a aproximação atendia aos interesses comerciais brasileiros.

O contexto das sanções já aparecia no centro das tratativas. A embaixada avaliava que um eventual acordo sobre o programa nuclear iraniano poderia levar ao levantamento de parte das restrições impostas pelos Estados Unidos e abrir oportunidades mais amplas para empresas brasileiras.

Um ano e quatro meses depois, o Master reapareceu em uma iniciativa brasileira no Irã, desta vez com uma função definida já no governo Lula.

O Master no comércio sancionado

Entre 16 e 19 de junho de 2023, o banco participou da Iran Agrofood, uma das principais feiras do setor agrícola iraniano. O pavilhão brasileiro foi organizado pela Embaixada do Brasil em parceria com a Coordenação-Geral de Promoção Comercial do Ministério da Agricultura.

Segundo o telegrama nº 00879, o espaço do Brasil foi ampliado para 96 metros quadrados e recebeu dez empresas e entidades. O evento também marcou os 120 anos das relações diplomáticas entre Brasil e Irã.

Na relação dos participantes, o Banco Master foi descrito como fornecedor de “serviços financeiros de apoio às exportações em mercados sancionados”. Era a primeira vez que instituições do setor financeiro integravam o pavilhão brasileiro.

“Tratou-se da primeira edição em que representantes do setor financeiro se incorporaram ao pavilhão”, afirmou a embaixada. Segundo o relato, os bancos ofereciam soluções para um dos principais obstáculos à ampliação do comércio com o Irã: a realização de pagamentos e operações financeiras em um mercado atingido por sanções.

Além do Master, o Banco BS2 participou do evento com a mesma descrição. Também estavam no pavilhão JBS, C.Vale, West Food, Trevisan Alimentos, OKA Commodities, Abimaq e outras empresas exportadoras de carnes e produtos agrícolas.

O secretário do Itamaraty Laudemar Aguiar viajou de Brasília para inaugurar o espaço. Era a primeira vez que uma autoridade desse nível participava da abertura do pavilhão brasileiro na feira.

A embaixada relatou que o estande recebeu centenas de reuniões empresariais. A avaliação recolhida entre os participantes foi considerada positiva, mas o telegrama não apresenta valores de negócios fechados nem informa os resultados individuais obtidos pelo Master.

Ao contrário do que ocorreu com o banco de Daniel Vorcaro, o documento detalha parte da atuação do BS2. Um diretor da instituição reuniu-se, em atividade privada e sem a participação da embaixada, com integrantes do Banco Central iraniano.

O executivo informou que o BS2 estava abrindo contas no Brasil para três bancos iranianos e havia estruturado um mecanismo de compensação comercial. Pelo modelo, exportadores do Irã receberiam pagamentos em reais e poderiam utilizar os recursos para comprar alimentos brasileiros, reduzindo a necessidade de operações em dólar.

O plano enfrentava resistência do próprio banco central iraniano, que não aceitava o acúmulo de reservas na moeda brasileira. O representante do BS2 pediu ajuda ao governo brasileiro para negociar a utilização do real nas transações bilaterais.

Sobre o Master, não há explicação semelhante. O telegrama não informa qual mecanismo financeiro o banco ofereceu, com quem seus representantes se reuniram ou se alguma operação foi concretizada.

As autoridades brasileiras reconheciam que as sanções dificultavam o comércio. Durante uma reunião com integrantes do governo iraniano, Laudemar Aguiar afirmou que o Brasil não reconhecia a legitimidade das medidas unilaterais, mas admitiu que elas criavam limitações concretas para o setor privado.

O secretário também apontou uma contradição nas propostas iranianas para abandonar o dólar. Segundo ele, empresas petroquímicas do país, muitas delas vinculadas ao Estado, continuavam exigindo pagamentos antecipados e na moeda americana.

Os telegramas mostram como o governo Bolsonaro abriu as portas ao Banco de Daniel Vorcaro na tentativa de ampliar os negócios com o Irã. Em 2023, já no governo Lula, a instituição ganhou uma posição mais definida dentro da estratégia brasileira quando passou a ocupar o pavilhão oficial e a ser apresentada como fornecedora de soluções financeiras para o comércio com mercados sancionados.

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