Música de protesto: trilhas sonoras que embalam movimentos sociais

Da MPB na Ditadura Militar ao rap e funk de hoje em dia, a música segue como uma expressão de pensamento crítico e mobilização social
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Ao longo da história, a música tem funcionado como uma poderosa forma de protesto político e resistência cultural, seja para criticar realidades sociais ou criar espaços de contestação.

Muitas vezes, a música desempenha ambos os papéis simultaneamente, sendo um reflexo das tensões sociais e políticas, ao mesmo tempo em que se transforma em um grito coletivo de resistência. Através dos séculos, a música se mostrou não apenas um reflexo das mudanças sociais, mas uma ferramenta poderosa para a mobilização de movimentos.

No Brasil, a relação entre música e protesto tem raízes profundas e complexas, passando por momentos como as músicas da Ditadura Militar e se estende até as canções de luta dos movimentos sociais atuais. Vamos entender a importância das músicas de protesto para entender como esses ritmos continuam sendo um instrumento de crítica social.

Contexto histórico da música como crítica social no Brasil

No Brasil, a música sempre teve um papel de destaque nas lutas sociais. Desde os primeiros momentos de resistência, quando a música foi usada para questionar e denunciar a realidade, até hoje ela se mantém como uma ferramenta de expressão política.

O samba e o pensamento crítico

Antes mesmo da ascensão da MPB e do protesto nas músicas da ditadura militar, o samba já tinha um papel importante como forma de resistência.

Através de canções como “Pelo Telefone” de Donga e Mauro de Almeida, e mais tarde em músicas de Chico Buarque e Cartola, o samba foi uma forma de criticar a realidade social brasileira e mostrar as dificuldades das classes populares.

Mesmo durante a repressão, o samba continuava a ser uma música de expressão popular, trazendo a resistência não apenas cultural, mas também política.

O samba tornou-se um símbolo da resistência dos marginalizados, muitas vezes usado para contestar as elites e mostrar as desigualdades sociais no Brasil. Durante a década de 20 e 30, por exemplo, o samba passou a ser usado como uma forma de dar visibilidade às lutas urbanas, sendo uma das primeiras manifestações populares a questionar a opressão.

Na foto, Elis Regina cantando em um movimento estudantil durante a ditadura militar. Foto: Arquivo Nacional 
Na foto, Elis Regina cantando em um movimento estudantil durante a ditadura militar. Foto: Arquivo Nacional

A MPB e a Ditadura Militar

Sem dúvida, o período mais emblemático da música de protesto no Brasil se deu durante a Ditadura Militar, que começou em 1964. Nesse contexto, a Música Popular Brasileira (MPB) se tornou a principal voz de resistência ao regime autoritário, com compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento compondo e cantando a realidade que estava acontecendo diante deles.

A censura, imposta pelo regime militar, visava silenciar qualquer manifestação contra o governo, mas, mesmo sob repressão, artistas como Chico Buarque, com sua canção “Cálice”, e Caetano Veloso, com “Tropicália”, criaram obras que se tornaram símbolos de resistência.

Por exemplo, se formos analisar “Cálice” de Chico Buarque, estamos falando de uma música de protesto contra a censura que escondia uma mensagem direta de crítica ao regime, usando a metáfora do “cálice” como uma representação da repressão imposta pelo governo.

Dissecando a letra da música, percebemos que a repetição da palavra “cálice” é também um jogo de palavras que, na verdade, se refere à ideia de “cale-se” (por meio da repressão ou do medo imposto pelo governo).

Por conta desse contexto, as músicas daquela época precisaram ser construídas de maneira que seu significado não fosse imediatamente claro – foi camuflando a crítica direta que os artistas conseguiram sobreviver naquela época.

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O protesto nas músicas da ditadura militar

Como falamos, muitos músicos, especialmente da MPB (Música Popular Brasileira), utilizaram suas canções para fazer críticas ao regime militar, denunciando as injustiças e lutando pela liberdade de expressão. Aqui listamos algumas das músicas que marcaram esse período:

1. “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” – Geraldo Vandré

Lançada em 1968, a música também é conhecida como “Caminhando” e se tornou um hino da resistência. A canção foi proibida, mas ainda assim foi cantada em protestos contra a repressão.

2. “O Leãozinho” – Caetano Veloso

Embora não tenha sido diretamente sobre a ditadura, a canção de Caetano Veloso, lançada em 1977, é marcada pelo contexto de exílio e censura que os artistas sofreram durante aquele período.

3. “O Que É, O Que É?” – Gonzaguinha

A música se tornou um grito de resistência para a população que vivia sob a ditadura militar. Lançada em 1982, a música fala sobre as dificuldades do povo brasileiro durante aquele período e questiona o que era a liberdade e a democracia naquele contexto de opressão.

4. “Sinal Fechado” – Paulinho da Viola

Composta por Paulinho da Viola e lançada em 1969, a música retrata a realidade social da época. O “Sinal Fechado” é, na verdade, fruto da restrição da ditadura e o silêncio sobre o qual Paulinho canta, expressa o medo de se expressar livremente.

5. “Coração de Estudante” – Milton Nascimento

A música de Milton Nascimento, composta em 1983, se tornou um símbolo de luta e resistência contra a ditadura. A música foi inspirada pelo movimento estudantil, que foi duramente reprimido pela ditadura.

O rap como música de protesto contemporânea

Nos anos seguintes à ditadura, o rap brasileiro, especialmente com grupos como o Racionais MC’s, se tornou uma das formas mais contundentes de protesto.

Através do albúm “Nó de Orelha”, lançado por Criolo em 2011 e outras canções, o rap passou a ser a voz das periferias e da população negra, abordando questões como violência policial, racismo, e as dificuldades enfrentadas pela classe trabalhadora.

O rap, portanto, se tornou um veículo poderoso para criticar a realidade social, ressoando as lutas de classe e trazendo à tona uma crítica social direta e sem censura.

A força do rap dos dias de hoje está, na verdade, na sua capacidade de falar diretamente sobre as questões do cotidiano e das desigualdades que ainda marcam a sociedade brasileira. Com Racionais MC’s, Emicida, Criolo, e outros artistas, o rap não só se tornou somente uma forma de protesto cultural, mas também uma maneira de dar voz a grupos marginalizados, levando suas histórias ao holofote da mídia.

Foi através de letras como “Fim de Semana no Parque”, “Negro Drama” e “Vida Loka”, que os Racionais MC’s deram um novo rosto à resistência social no Brasil, focando nas realidades das favelas e nas opressões que essa parcela da população sofre todos os dias.

O rap brasileiro, liderado por grupos como Racionais MC's, se firmou como uma voz poderosa da periferia, abordando questões de racismo, violência policial e desigualdade. Imagem: Folha de Pernambuco
O rap brasileiro, liderado por grupos como Racionais MC’s, se firmou como uma voz poderosa da periferia, abordando questões de racismo, violência policial e desigualdade. Imagem: Folha de Pernambuco

A música de protesto internacional

Embora a música de protesto brasileira tenha características próprias, ela também se conecta com movimentos de resistência ao redor do mundo. No cenário internacional, artistas criaram clássicos como “Blowin’ in the Wind” de Bob Dylan e “Mississippi Goddam” de Nina Simone.

A música de protesto nos EUA foi uma importante ferramenta no movimento pelos direitos civis, especialmente com John Lennon e os protestos contra a Guerra do Vietnã e os artistas do soul e R&B, como James Brown e Aretha Franklin . As canções dos anos 60 e 70 nos EUA também inspiraram músicos brasileiros a resistirem à ditadura militar, criando um ciclo de resistência global através da música.

Artistas internacionais como The Clash, Public Enemy, e Fela Kuti também ajudaram a expandir a ideia de que a música poderia ser uma arma de protesto contra a opressão e as injustiças sociais. Fela Kuti, por exemplo, criou “Zombie”, para não só desafiar o governo militar da Nigéria, mas também encorajar a resistência de toda uma geração.

Em Zombie, Fela Kuti diz: “Zombie não marcha, não sabe onde vai, mas marcha em qualquer direção.” Essa letra critica a obediência cega das forças militares e a falta de autonomia do povo diante do autoritarismo que estavam vivendo naquele momento. A música, lançada em 1976, foi usada para denunciar o abuso de poder e incentivar a resistência contra a repressão.

Na imagem, capa da música Zombie de Fela Kuti, que usava suas canções para combater a opressão e inspirar resistência global. Imagem: Kalakuta Sunrise/reprodução
Na imagem, capa da música Zombie de Fela Kuti, que usava suas canções para combater a opressão e inspirar resistência global. Imagem: Kalakuta Sunrise/reprodução

A música de protesto nos dias de hoje

Nos dias atuais, a música continua sendo um poderoso instrumento de resistência e mobilização. O funk, por exemplo, tem se mostrado uma das principais vozes da periferia, sendo um veículo de protesto contra as opressões sociais e a desigualdade. Artistas como MC Carol, Ludmilla e Tati Quebra Barraco se tornaram figuras importantes na luta contra o machismo, a violência policial e a exclusão social.

Nos bailes funks, a música se tornou a expressão de resistência dos jovens das periferias. Além das músicas sobre ostentação, que também são de protesto, mas sob outra ótica, hoje temos funks que abordam questões como racismo, desigualdade de classe, e a luta por mais direitos e respeito.

Exemplo claro disso são as canções como “100% Feminista”, da MC Carol, e “Quem Tem Coragem”, da Ludmilla. Hoje, sem sombra de dúvidas, o funk se tornou mais uma ferramenta para expressar o pensamento crítico da população.

Ao longo da história, a música tem se consolidado como uma poderosa ferramenta de protesto e resistência social, refletindo as tensões políticas e amplificando as lutas por justiça e igualdade.

Do samba, que já questionava as desigualdades no Brasil, passando pela MPB durante a Ditadura Militar, até o rap e o funk, que continuam a dar voz aos marginalizados e a combater as opressões atuais, a música segue sendo um instrumento vital para a mobilização social.

Seja através de canções icônicas da resistência à Ditadura Militar ou nas batidas do funk que ecoam nas periferias, a música é, e sempre será, uma expressão de contestação, identidade e transformação.

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