Quem é Flávio Bolsonaro? Parte 3: o que mostram os casos da rachadinha, Fabrício Queiroz e outras controvérsias

No terceiro e último artigo da série, você acompanha os principais episódios investigados envolvendo Flávio Bolsonaro, os argumentos da acusação e da defesa e os desdobramentos judiciais de cada caso
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Nos dois primeiros artigos desta série, você acompanhou a trajetória de Flávio Bolsonaro desde a infância, passando pela formação acadêmica, a entrada na política e os quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), até sua chegada ao Senado Federal e a consolidação como uma das principais lideranças do bolsonarismo.

Paralelamente à ascensão política, porém, sua atuação também passou a ser acompanhada por investigações, denúncias do Ministério Público e reportagens que colocaram seu nome no centro do debate público. O episódio de maior repercussão foi o caso das chamadas rachadinhas, investigação iniciada a partir de um relatório do antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). As apurações levaram o ex-assessor Fabrício Queiroz ao noticiário e deram origem a uma denúncia por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro contra Flávio Bolsonaro e outras pessoas ligadas ao seu antigo gabinete.

Ao longo dos anos, esse não foi o único episódio envolvendo o senador. O nome de Flávio também apareceu em investigações relacionadas a movimentações financeiras, operações imobiliárias, uma franquia da Kopenhagen da qual era sócio, homenagens e vínculos com pessoas investigadas e, mais recentemente, na divulgação de mensagens sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção inspirada na trajetória de Jair Bolsonaro.

Nem todas essas apurações tiveram o mesmo desfecho. Em alguns casos, o Judiciário anulou provas consideradas irregulares; em outros, as investigações continuaram produzindo novos desdobramentos. Em todas as situações abordadas neste artigo, Flávio Bolsonaro negou irregularidades e afirmou ser alvo de perseguição política.

Neste terceiro e último artigo da série, você acompanha os principais episódios que marcaram essa trajetória, os elementos apresentados pelos órgãos de investigação, os argumentos da defesa e as decisões judiciais que influenciaram o andamento desses casos.

A investigação das rachadinhas

A investigação que mais repercutiu na trajetória política de Flávio Bolsonaro começou no fim de 2018, quando um relatório do antigo Coaf identificou movimentações financeiras consideradas atípicas nas contas de Fabrício Queiroz, policial militar aposentado que havia atuado como assessor do então deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo o relatório, Queiroz movimentou aproximadamente R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017, valor incompatível com a renda oficialmente declarada pelo ex-assessor. A partir desse documento, o Ministério Público do Rio de Janeiro iniciou uma investigação para identificar a origem dos recursos e reconstruir a movimentação financeira do gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Durante as apurações, promotores afirmaram ter identificado depósitos feitos por assessores do gabinete nas contas de Queiroz em datas próximas ao pagamento dos salários pela Assembleia Legislativa. Segundo a investigação, parte desses valores era posteriormente sacada em dinheiro vivo.

Para o Ministério Público, esse padrão indicava a existência de um esquema de rachadinha, prática em que servidores devolvem parte dos salários recebidos ao parlamentar ou a pessoas ligadas ao gabinete.

As conclusões da investigação levaram o Ministério Público do Rio de Janeiro a denunciar Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outras 15 pessoas, em 2020, pelos crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Na denúncia, os promotores afirmavam que o então senador liderava o esquema investigado.

Desde o início, Flávio Bolsonaro negou as acusações. Sua defesa afirmou que não existia qualquer esquema de desvio de salários, contestou a legalidade da investigação e argumentou que parte das provas havia sido produzida de forma irregular.

O papel de Fabrício Queiroz

Embora o nome de Flávio Bolsonaro tenha ocupado a maior parte das manchetes, foi Fabrício Queiroz quem apareceu no centro da investigação conduzida pelo Ministério Público.

Policial militar aposentado, Queiroz trabalhou durante anos no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e mantinha relação próxima com a família Bolsonaro.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, Fabrício Queiroz atuava como operador financeiro do suposto esquema de rachadinhas. Além do relatório inicial do antigo Coaf, novas análises apontaram que ele movimentou cerca de R$ 7 milhões em um período de três anos, por meio de centenas de operações financeiras, muitas delas em espécie. Para os investigadores, parte desses recursos teve origem em depósitos realizados por assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro.

O Ministério Público também investigou pagamentos de boletos, depósitos em espécie e negociações imobiliárias envolvendo Flávio Bolsonaro, buscando identificar se existia relação entre essas operações e os valores movimentados por Queiroz.

A defesa do ex-assessor negou qualquer irregularidade e afirmou que todas as movimentações financeiras possuíam origem lícita. A defesa de Flávio Bolsonaro adotou posição semelhante, sustentando que não havia provas da existência de organização criminosa ou desvio de recursos públicos.

flavio bolsonaro com queiroz e jair bolsonaro
Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro ao lado de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador que se tornou uma das principais figuras da investigação sobre o caso das rachadinhas. Foto: Reprodução/Redes Sociais

As decisões do STF e do STJ mudaram o rumo do processo

A investigação sobre o caso das rachadinhas teve um desdobramento importante nos tribunais superiores. Ao analisar recursos apresentados pela defesa de Flávio Bolsonaro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) consideraram irregulares parte dos procedimentos adotados durante a produção das provas utilizadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

As decisões atingiram, entre outros elementos, relatórios financeiros derivados do antigo Coaf e provas obtidas a partir de quebras de sigilo bancário. Com a invalidação desses elementos, a denúncia apresentada pelo Ministério Público perdeu parte de sua sustentação jurídica.

Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia oferecida contra Flávio Bolsonaro e os demais investigados. O processo foi encerrado sem que o mérito das acusações fosse analisado, em razão da invalidação das provas que fundamentavam a ação penal.

Desde o início da investigação, Flávio Bolsonaro negou irregularidades. O Ministério Público, por sua vez, sustentou que as provas reunidas eram suficientes para demonstrar a existência do esquema investigado, entendimento que acabou comprometido pelas decisões posteriores dos tribunais superiores.

A franquia da Kopenhagen também entrou na investigação

As investigações sobre Flávio Bolsonaro não ficaram restritas ao funcionamento de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Durante a apuração patrimonial conduzida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, promotores também passaram a analisar empresas ligadas ao senador, entre elas uma franquia da Kopenhagen da qual era sócio.

Segundo a denúncia apresentada pelo MP-RJ, a empresa registrou 1.512 depósitos em dinheiro vivo, que somaram cerca de R$ 2,3 milhões entre 2015 e 2018. Para os investigadores, a frequência e o volume das operações justificavam a análise das movimentações financeiras da franquia dentro do conjunto de provas reunidas durante a investigação das rachadinhas.

Da esquerda para a direita: Carlos Alberto Parreira, Wagner Montes, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Alexandre Santini durante a inauguração da franquia da Kopenhagen da qual Flávio Bolsonaro era sócio, no Rio de Janeiro, em 2015.
Da esquerda para a direita: Carlos Alberto Parreira, Wagner Montes, Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro e Alexandre Santini durante a inauguração da franquia da Kopenhagen da qual Flávio Bolsonaro era sócio, no Rio de Janeiro, em 2015. Foto: Reprodução Folha de S. Paulo

O que apontava a investigação?

De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, os depósitos em espécie e o padrão das movimentações financeiras levaram os investigadores a incluir a franquia entre os elementos analisados na denúncia. Para os promotores, as operações faziam parte da estratégia atribuída aos investigados para ocultar ou dissimular a origem de recursos relacionados ao suposto esquema de rachadinhas.

As movimentações financeiras da empresa passaram a integrar a denúncia apresentada contra Flávio Bolsonaro, sendo analisadas em conjunto com outros elementos patrimoniais e bancários reunidos durante a investigação.

O que disse a defesa?

A defesa do senador rejeitou as conclusões do Ministério Público e afirmou que a franquia funcionava regularmente, com receitas compatíveis com o volume de vendas do estabelecimento. Os advogados também sustentaram que depósitos em dinheiro eram comuns para esse tipo de atividade comercial e que não existia qualquer prova ligando a empresa ao suposto esquema investigado.

Assim como ocorreu em outros pontos da investigação, parte dos elementos relacionados à franquia acabou sendo atingida pelas decisões judiciais que invalidaram provas utilizadas pelo Ministério Público durante o processo.

Adriano da Nóbrega e as homenagens na Alerj

Outro episódio frequentemente citado quando se analisa a trajetória de Flávio Bolsonaro envolve o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega.

Antes de ser apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como um dos líderes do grupo conhecido como Escritório do Crime, o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega recebeu homenagens na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) por iniciativa de Flávio Bolsonaro. Além disso, sua mãe, Raimunda Veras Magalhães, e sua ex-esposa, Danielle Mendonça da Costa, trabalharam como assessoras no gabinete do então deputado estadual.

Como a relação veio à tona?

Após a morte de Adriano da Nóbrega, em fevereiro de 2020, durante uma operação policial na Bahia, reportagens passaram a revisitar sua relação com integrantes da família Bolsonaro e a atuação de familiares no gabinete parlamentar de Flávio.

O caso ganhou repercussão nacional por ocorrer paralelamente às investigações das rachadinhas, embora se trate de episódios distintos.

O que disse Flávio Bolsonaro?

Flávio Bolsonaro afirmou que desconhecia qualquer envolvimento de Adriano da Nóbrega com organizações criminosas quando apresentou as homenagens na Alerj. Também sustentou que a nomeação de familiares do ex-capitão para seu gabinete ocorreu dentro da legalidade e antes de Adriano ser apontado pelas investigações como integrante do Escritório do Crime.

O episódio teve ampla repercussão política, mas não resultou, até o momento, em denúncia criminal contra o senador.

O caso Dark Horse e Daniel Vorcaro

Em 2026, o nome de Flávio Bolsonaro voltou ao noticiário em razão de reportagens sobre o documentário Dark Horse, produção inspirada na trajetória de Jair Bolsonaro. As reportagens revelaram conversas sobre o financiamento do projeto e colocaram em evidência a relação entre o senador e o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

Segundo as reportagens, Flávio Bolsonaro buscou apoio financeiro para viabilizar o documentário. As conversas divulgadas mostravam tratativas sobre o aporte de R$ 134 milhões para a produção e levantaram questionamentos sobre a participação de empresários no financiamento de um projeto ligado à família Bolsonaro.

Novos desdobramentos

Dias depois, o caso ganhou um novo capítulo. A coluna de Juliana Dal Piva no ICL Notícias divulgou uma fotografia em que Flávio Bolsonaro aparece ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Segundo a reportagem, Mourão era apontado pelas investigações como um dos operadores ligados a Daniel Vorcaro e responsável por ações de monitoramento e intimidação de desafetos.

Após a divulgação da imagem, Flávio Bolsonaro apresentou versões diferentes sobre a fotografia. Em um primeiro momento, afirmou que nunca havia visto a pessoa retratada e levantou dúvidas sobre a autenticidade da imagem. Pouco depois, sua assessoria alterou a nota, retirando esse trecho e passando a afirmar que seria impossível ao senador saber quem eram todas as pessoas que se aproximavam para tirar fotografias. Em seguida, publicou um vídeo nas redes sociais dizendo: “Eu não sei se é verdade. Se for verdade é mais uma das várias que eu tiro todos os dias”.

O senador Flávio Bolsonaro com Philipe Mourão, o Sicário de Vorcaro. Foto: ICL Notícias e CLIP

A posição de Flávio Bolsonaro

Sobre o financiamento de Dark Horse, Flávio Bolsonaro negou inicialmente que Daniel Vorcaro tivesse aportado recursos para a produção. Após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de áudios em que conversava com o empresário sobre o tema, reconheceu que Vorcaro participou do financiamento, mas negou a existência de qualquer irregularidade.

Em relação à fotografia divulgada pelo ICL Notícias, na qual aparece sem camisa ao lado de Luiz Phillipi Mourão, sua assessoria afirmou que o senador não conhecia o homem retratado e sustentou que, por ser uma figura pública, seria impossível identificar todas as pessoas que pedem fotos com ele.

Os episódios envolvendo Daniel Vorcaro ampliaram a cobertura sobre a relação de Flávio Bolsonaro com empresários e pessoas ligadas ao entorno do controlador do Banco Master. Somados às demais controvérsias apresentadas ao longo desta série, eles ajudam a compreender por que a trajetória do senador continua sendo acompanhada de perto pela imprensa, pelos órgãos de controle e pelo Judiciário.

O que as investigações revelam sobre a trajetória de Flávio Bolsonaro?

As investigações envolvendo Flávio Bolsonaro acompanharam diferentes momentos de sua carreira política e tiveram repercussão no noticiário nacional. Parte das apurações resultou em denúncias do Ministério Público, enquanto outras foram encerradas após decisões judiciais que invalidaram provas consideradas irregulares. Em todos os episódios abordados neste artigo, o senador negou irregularidades e afirmou ser alvo de perseguição política.

Independentemente dos desfechos judiciais, os casos passaram a integrar a cobertura sobre a atuação política de Flávio Bolsonaro. Reportagens, investigações e manifestações da defesa acompanharam sua trajetória pública e ampliaram o interesse da imprensa e dos órgãos de controle por seus mandatos e por sua atuação política.

Ao longo desta série, você acompanhou a trajetória de Flávio Bolsonaro desde a infância e a formação acadêmica até a consolidação de sua carreira política e as principais investigações envolvendo seu nome. Também conheceu os argumentos apresentados pelos órgãos responsáveis pelas apurações, as manifestações da defesa e os desdobramentos judiciais de cada caso.

Compreender a cronologia desses acontecimentos ajuda a contextualizar a trajetória de Flávio Bolsonaro e os episódios que marcaram sua atuação na política brasileira.

A investigação continua

Ao longo desta série, você conheceu a formação, a carreira política e os principais episódios investigados envolvendo Flávio Bolsonaro. O documentário original do ICL amplia essa análise com meses de investigação jornalística, documentos, reportagens e informações que ajudam a compreender o papel do senador no cenário político brasileiro.

A estreia é online, gratuita e exclusiva. Reserve sua vaga e acompanhe a investigação completa.

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