Por Cleber Lourenço
O Banco Central (BC) manteve nesta quarta-feira (4) a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, apesar de reconhecer uma desaceleração mais acentuada da economia brasileira. A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), com o voto de Gabriel Galípolo, indicado por Lula para presidir a instituição, interrompe cinco cortes consecutivos da Selic e prolonga uma política que encarece o crédito, restringe o consumo e desestimula investimentos.
A decisão ocorreu dez dias depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em meio a uma mudança nas expectativas do mercado financeiro. Antes do segundo turno, investidores projetavam nova redução da Selic. Após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ganharam força as apostas na interrupção dos cortes.
O próprio Copom reconheceu o enfraquecimento da atividade, especialmente nos setores mais sensíveis aos juros, mas manteve uma política monetária classificada como “substancialmente contracionista”. Em setembro, o BC projetava crescimento de apenas 1,8% em 2026 e 1,4% em 2027, depois de uma expansão de 3,4% em 2024.
Mercado pressionou câmbio e juros após derrota de Flávio
Levantamento do ICL Notícias mostrou que investidores estrangeiros ampliaram em US$ 6,84 bilhões sua exposição ao dólar no mercado de derivativos da B3 no primeiro pregão após a vitória de Lula. Naquele dia, o Ibovespa caiu 13,88%, o dólar subiu 9,19% e os juros futuros para janeiro de 2031 chegaram a 15,19% ao ano.
A turbulência levou o Tesouro Nacional a cancelar leilões de títulos públicos previstos para 27 e 29 de outubro.
A reação ocorreu após a frustração das expectativas de investidores que apostavam na vitória de Flávio e em cortes expressivos de despesas públicas. Outra reportagem do ICL mostrou que o candidato prometia um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões sem detalhar de onde retiraria os recursos.
Entre as medidas discutidas por integrantes de sua equipe estavam mudanças previdenciárias e assistenciais, alterações nos pisos de saúde e educação e restrições à valorização de benefícios sociais. A campanha afirmava que essas propostas não representavam compromissos oficiais do candidato.
Projeções do Focus já superestimaram a inflação
A deterioração das expectativas de inflação foi um dos argumentos utilizados pelo Banco Central para manter os juros. Essas expectativas são acompanhadas pelo Boletim Focus, relatório divulgado semanalmente pelo próprio BC com projeções de bancos, gestoras, consultorias e outras instituições para inflação, juros, câmbio e crescimento econômico.
O Focus não apresenta previsões produzidas pelo Banco Central, mas reúne estimativas de participantes do mercado. Sua principal utilidade é mostrar o que esses agentes esperam para a economia nos meses e anos seguintes. O Copom acompanha essas expectativas porque elas podem influenciar reajustes de preços, negociações salariais e decisões de investimento, afetando a inflação futura.
O problema é que essas estimativas também podem estar erradas. Um estudo da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicado em 2023, identificou tendência de superestimação da inflação nas projeções do Focus entre 2015 e 2022. A pesquisa também constatou erros maiores nas previsões feitas com mais antecedência.
Em janeiro de 2025, por exemplo, o mercado projetava inflação de 4,99% para aquele ano. O IPCA efetivo ficou em 4,26%, diferença de 0,73 ponto percentual. O histórico evidencia as limitações de expectativas financeiras utilizadas como referência para decisões que afetam toda a economia.
Lara Resende acusa BC de agravar desequilíbrio fiscal
Levantamento publicado pelo ICL Notícias revelou que bancos e fundos concentram aproximadamente R$ 3,37 trilhões em títulos públicos vinculados à Selic, quase 70% desse estoque. Cada ponto percentual adicional na taxa representa cerca de R$ 48,4 bilhões em remuneração anualizada sobre esses papéis, mantidas as demais condições.
O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, questiona a lógica de combater o endividamento público por meio de cortes de despesas enquanto os juros continuam pressionando a dívida.
“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu em artigo publicado em setembro.
Lara Resende argumenta que as contas públicas estão próximas do equilíbrio quando excluídos os juros da dívida. Nos 12 meses encerrados em setembro, as despesas com juros do setor público alcançaram aproximadamente R$ 1,2 trilhão, enquanto o déficit primário ficou em R$ 70,1 bilhões.
O economista propõe reduzir gradualmente a Selic para 7,5% em 12 meses e estabelecer uma coordenação entre metas fiscais e monetárias. Sua avaliação é que cortes de gastos, isoladamente, não conseguem estabilizar a dívida enquanto o custo dos juros supera o crescimento nominal da economia.
A economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), também defendeu nesta quarta-feira que o impacto da política monetária sobre o endividamento público seja incorporado às análises do Copom.
O debate expõe uma contradição: enquanto juros elevados ampliam as despesas financeiras do Estado, setores do mercado cobram maior austeridade, inclusive por meio de restrições a investimentos, serviços públicos e benefícios sociais.
Lindbergh questiona independência do Banco Central
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) acusou o Banco Central de interromper os cortes por causa da vitória de Lula.
“Vergonha!!!! BC interrompe queda de juros porque o Lula ganhou. Simples assim!”, escreveu nas redes sociais.
Segundo o parlamentar, até a sexta-feira anterior às eleições, o mercado projetava uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, mas mudou suas expectativas após a derrota de Flávio.
“O povo vota, mas, quem manda são os barões da Faria Lima?”, questionou.
A reação reacende o debate sobre a autonomia do Banco Central. Criada para proteger a política monetária de pressões do governo eleito, essa independência não elimina a influência do mercado financeiro, cujas expectativas ajudam a orientar as decisões da instituição.
Para os críticos, o BC conquistou independência em relação ao governo escolhido nas urnas, mas não demonstra a mesma distância dos interesses financeiros. A autonomia institucional, argumentam, não deveria significar isolamento das consequências sociais de decisões que afetam o emprego, a produção e a capacidade de investimento do país.
A ata da reunião, prevista para terça-feira (10), deverá detalhar os argumentos utilizados pelo Copom para interromper os cortes em um momento de enfraquecimento da atividade econômica.