A inteligência artificial (IA) é frequentemente associada ao alto consumo de energia dos data centers que a sustentam. No entanto, uma parte significativa de sua pegada ambiental se manifesta antes mesmo de o primeiro servidor entrar em operação. A construção dessas instalações exige volumes massivos de concreto — um dos materiais mais intensivos em carbono da economia global.
Com a corrida pela infraestrutura de IA ganhando escala nos Estados Unidos, onde projetos bilionários se espalham do Texas a Wisconsin, empresas de tecnologia passaram a ocupar um novo papel: o de grandes compradoras de concreto e cimento de baixo carbono.
Até 2030, a expansão dos data centers deverá demandar cerca de 2 milhões de toneladas de cimento, segundo a organização ambiental RMI (anteriormente conhecida como Rocky Mountain Institute). Caso sejam utilizados métodos convencionais de produção, esse volume pode resultar em 1,9 milhão de toneladas de CO₂ (gás carbônico), o equivalente às emissões anuais de aproximadamente 415 mil carros movidos a gasolina.
O cimento, principal agente ligante do concreto, responde por grande parte dessas emissões. De acordo com especialistas, o material — assim como o aço — representa uma fatia relevante do carbono incorporado na construção de data centers, tornando-se um ponto crítico na agenda climática das big techs.
Big techs entram no mercado de concreto verde
Diante desse cenário, empresas como Microsoft, Amazon e Meta passaram a firmar acordos de longo prazo com startups de cimento de baixo carbono. Em 2023, a Microsoft anunciou um contrato com a Sublime Systems para a compra de até 622,5 mil toneladas métricas de cimento ao longo de seis a nove anos.
A Amazon, por sua vez, fechou parceria com a Brimstone e aderiu, ao lado da Meta Platforms e da Prologis, à Sustainable Concrete Buyers Alliance, iniciativa criada para sinalizar demanda consistente aos produtores de materiais de menor impacto ambiental.
Segundo representantes do setor, esses compromissos funcionam como garantias de mercado, essenciais para viabilizar investimentos e acelerar a escala industrial das novas tecnologias.
Um setor promissor, mas ainda frágil
Apesar do avanço tecnológico, a indústria de cimento verde ainda enfrenta obstáculos estruturais. Embora as soluções já existam, o setor carece de capital suficiente para atender à demanda projetada nos próximos anos. Parcerias com grandes empresas ajudam, mas não substituem políticas públicas de fomento.
Esse equilíbrio foi abalado recentemente com a retirada de cerca de US$ 1,6 bilhão em apoio federal dos EUA previsto na Lei de Redução da Inflação. Os efeitos já são visíveis: a Sublime Systems anunciou demissões e suspendeu a construção de uma fábrica em Massachusetts após perder financiamento governamental.
Emissões incorporadas no centro do debate
Embora as emissões operacionais dos data centers tendam a superar as da construção ao longo do tempo, elas podem ser gradualmente reduzidas com eficiência energética e uso de fontes limpas. Já as chamadas emissões incorporadas — ligadas aos materiais e à obra — são permanentes e só podem ser mitigadas na fase de projeto e construção.
Para empresas que assumiram metas climáticas ambiciosas, enfrentar esse desafio tornou-se inevitável. Internamente, os data centers — e especialmente o uso intensivo de concreto — já são vistos como um dos principais entraves à descarbonização do setor de tecnologia.
Nesse contexto, a corrida pela IA passa a expor uma contradição central: a infraestrutura que viabiliza o futuro digital também aprofunda dilemas ambientais que exigem soluções imediatas, coordenação industrial e decisões políticas de longo alcance.