O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltou a criticar a postura do governo de Donald Trump diante da imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. Em entrevista ao Canal Livre, da Band, no domingo (31), Haddad destacou a dificuldade de interlocução com a administração norte-americana, a qual, segundo ele, estaria centralizando decisões comerciais em uma única figura do governo, algo sem precedentes naquele país.
“Está muito centralizado numa pessoa só […] é um novo modo de governar”, disse o ministro.
Apesar das críticas, Haddad reconheceu que o empresariado norte-americano demonstrou disposição para amenizar os impactos, o que resultou na inclusão de 694 produtos brasileiros na lista de exceções ao tarifaço promovido por Trump.
Resposta a Trump
Questionado sobre possíveis medidas retaliatórias, o ministro afirmou que a Lei da Reciprocidade, aprovada com apoio da base e da oposição no Congresso, será analisada por uma comissão que avaliará o melhor momento e forma de implementação. O governo brasileiro, segundo Haddad, ainda espera reabrir o diálogo com os EUA.
O ministro também revelou ter tido uma reunião desmarcada com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, no mesmo dia em que ele se reuniu com o deputado Eduardo Bolsonaro. Haddad vê relação entre o endurecimento da política comercial do governo Trump e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
“Acredito que depois das revelações da quebra do sigilo […] o Estado vai distensionar. O tempo vai trazer alguma racionalidade”, ponderou.
Juros altos: obstáculo ao crescimento
Na entrevista ao Canal Livre, Haddad também comentou o patamar da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 15% ao ano. Ele criticou o peso da taxa real de juros sobre a economia — estimada em cerca de 10% — e alertou para os riscos de desaceleração e aumento da inadimplência.
“É preciso normalizar a divergência dentro do governo, isso não é contestar autoridade”, explicou, ao afirmar que a decisão sobre o corte de juros caberá ao Banco Central, cuja diretoria já tem maioria indicada pelo governo atual.
Estatais sob pressão: o caso dos Correios
Haddad chamou atenção para a situação crítica dos Correios, que enfrentam concorrência desleal de empresas privadas sem obrigação de universalização do serviço postal.
“Os concorrentes vão pegando o filé mignon”, criticou, ao citar marketplaces como desafio à reinvenção da estatal.
Operação Carbono Neutro
O ministro também celebrou os avanços da Operação Carbono Neutro, que revelou conexões entre o crime organizado e o sistema financeiro. A ação conjunta da Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público teria atingido o “comando do sistema”, especialmente no mercado financeiro da Faria Lima.
“Ela inaugurou um novo momento da segurança pública”, afirmou. Estima-se que a operação possa revelar movimentações de centenas de bilhões de reais.