Sob Trump, Moody’s rebaixa nota de crédito dos EUA e acende alerta sobre dívida

Agência baixou a nota de crédito soberano dos EUA de “AAA” para “Aa1”, sob a justificativa de que o endividamento público do país atingiu patamar significativamente superior
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A decisão da agência de classificação de risco Moody’s de rebaixar a nota de crédito soberano dos Estados Unidos de “AAA” para “Aa1”, na última sexta-feira (16), reacende o debate sobre a sustentabilidade fiscal da maior economia do mundo e a politização crescente em torno da política econômica norte-americana.

O rebaixamento vem no embalo da guerra tarifária deflagrada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que mexeu com as cadeias globais e empresas locais, como grandes redes varejistas.

Embora o rebaixamento mantenha o país em um patamar elevado de confiança — “high grade”, na terminologia das agências —, o gesto é simbólico e potencialmente impactante no médio prazo.

A justificativa da Moody’s é direta: o endividamento público norte-americano, em trajetória ascendente há mais de uma década, atingiu patamar significativamente superior ao de outros países com classificação semelhante.

O comunicado destaca que, se mantida a atual tendência, os pagamentos de juros devem consumir cerca de 30% da receita do governo até 2035 — mais que o triplo da fatia observada em 2021. Em contraste, países com nota máxima destinam, em média, apenas 1,6% da receita ao serviço da dívida.

O corte na nota ocorre num momento em que os Estados Unidos acumulam uma dívida pública superior ao próprio PIB — herança de pacotes de estímulo fiscal em resposta à pandemia e de juros elevados que pressionam ainda mais o custo da dívida.

O resultado é um déficit crescente, que não encontra resposta concreta em reformas estruturais. A agência reconhece, no entanto, que os EUA mantêm uma perspectiva “estável”, devido à resiliência de sua política monetária conduzida por um Federal Reserve independente.

Gestão Trump atribui o rebaixamento da nota da Moody’s à gestão Biden

A reação da Casa Branca, no entanto, foi imediata e politizada. Autoridades do governo Trump, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, classificaram o rebaixamento como um “indicador atrasado” e atribuíram a deterioração fiscal à gestão anterior, de Joe Biden.

Ao ser questionado sobre o rebaixamento da nota, durante entrevista ao programa Meet the Press, da rede de TV americana NBC, Bessent minimizou o rebaixamento:

“A [nota da] Moody’s é um indicador atrasado. É assim que todo mundo vê as agências de classificação de risco. Não chegamos até aqui nos últimos 100 dias. Isso é resultado do governo Biden e dos gastos que vimos nos últimos quatro anos, que herdamos. Estamos determinados a reduzir esses gastos e fazer a economia crescer”, afirmou na entrevista.

O porta-voz de Trump, Steven Cheung, chegou a atacar pessoalmente Mark Zandi, economista da Moody’s Analytics — embora esta seja uma entidade distinta da Moody’s Ratings, responsável pela nota.

Nesta manhã de segunda-feira (19), as bolsas globais amanheceram o dia no campo negativo em uma reação ao rebaixamento. Mas, de modo geral, a cautela ainda prevalece. Os rendimentos dos títulos de 10 anos do Tesouro americano subiram para 4,49%, enquanto ETFs atrelados ao S&P 500 recuaram 0,6% no pós-mercado.

Especialistas avaliam que o rebaixamento pode elevar os custos de financiamento do governo, forçando o Tesouro a oferecer rendimentos mais altos para atrair investidores. No entanto, como observado após os rebaixamentos da Fitch (2023) e da S&P (2011), os ativos americanos tendem a se recuperar, em parte por sua relevância global e falta de alternativas com liquidez comparável.

O pano de fundo é um ambiente político em que a responsabilidade fiscal passou a ser usada como ferramenta de disputa partidária. Embora esteja em tramitação no Congresso um projeto de corte de custos, analistas destacam a ausência de um consenso duradouro para enfrentar o desafio estrutural da dívida.

O caso Walmart

Na entrevista ao Meet the Press, Bessent também disse que conversou no sábado (17) com o CEO do Walmart, Doug McMillon, para discutir os sinais recentes de que a maior varejista do mundo pretende aumentar os preços devido ao aumento das tarifas de importação por Trump.

No mesmo dia, Trump declarou que a rede varejista deveria parar de culpar o tarifaço pelo aumento dos preços e “absorver as tarifas” em vez disso.

A fala do secretário Bessent minimizando o impacto do rebaixamento e das tarifas sobre empresas como o Walmart reforça o uso político da pauta econômica.

Internacionalmente, a decisão da Moody’s isola os EUA entre as grandes economias. A nota máxima “AAA” agora é mantida por apenas três países: Alemanha, Dinamarca e Noruega. No mesmo grupo dos EUA (“Aa1”) estão nações como Áustria e Finlândia.

Apesar de não representar um risco imediato de calote, o rebaixamento da Moody’s coloca os Estados Unidos diante de um espelho desconfortável: a força econômica do país permanece, mas sua capacidade de resolver desequilíbrios fiscais de forma institucionalizada parece cada vez mais refém da polarização.

Reação da China

A China pediu aos Estados Unidos que adotem políticas econômicas responsáveis após a decisão da Moody’s.

Em uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China pediu a Washington que tome medidas políticas responsáveis para manter a estabilidade do sistema financeiro e econômico internacional e proteger os interesses dos investidores, informou a agência Reuters.

 

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