O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem aos poucos cumprindo suas promessas de campanha para “tonar a América grande de novo”. O republicano já mostrou que não tem limites, mas não é bobo. Tanto que, a cada medida, abre espaço para negociação. Assim, obtém as contrapartidas que deseja.
Trump já anunciou sobretaxas a produtos importantes para as economias dos Estados Unidos e dos países que exportam, como o aço, medida que atinge empresas brasileiras, que estudam como reagir sem entrarem em uma guerra fiscal.
Na quarta-feira (19), ele anunciou a possibilidade de “anunciar no próximo mês ou antes” novas tarifas sobre produtos como automóveis, chips e até produtos farmacêuticos importados pelos EUA. A notícia contribuiu para as bolsas da Ásia fechassem com queda, nesta quinta-feira (19).
Além de promover o tarifaço, Trump também deu início, logo no começo de seu governo, a uma política anti-imigração com a deportação de modo bastante desumano de imigrantes não documentados no país.
Tudo isso junto e misturado deixou o Fed (Federal Reserve, o banco central estadunidense) bastante preocupado, conforme demonstrado na ata da última reunião, realizada em janeiro, que foi divulgada na véspera.
No documento, a autoridade monetária sinaliza preocupação com os impactos das medidas de Trump na economia do país, apontando que empresas já anteciparam que devem repassar o peso das tarifas nos produtos, o que pesa no bolso dos consumidores. Ainda, antecipa que deve manter os juros em patamares mais elevados, algo bastante ruim para a economia global, principalmente para países emergentes, como o Brasil.
O que Trump já fez e contra quem
Entre os produtos que podem ou serão sobretaxados por Trump estão:
- Carros;
- Semicondutores e chips;
- Drogas e outros produtos farmacêuticos;
- Madeira.
Na sexta-feira (14) e na terça-feira (18), Trump já havia sinalizado que iria colocar em vigor, a partir de 2 de abril, tarifas de pelo menos 25% sobre automóveis importados pelos EUA. Também havia dito que taxaria a compra de petróleo e gás vindos de fora do país.
Trump também anunciou que ampliará as tarifas sobre madeira e outros itens florestais. Durante uma conferência em Miami, Trump revelou planos de impor uma tarifa de 25% sobre esses produtos, que devem entrar em vigor por volta de 2 de abril. Esta medida se soma aos planos já divulgados para tarifas sobre carros importados, semicondutores e medicamentos.
Ele ainda enfatizou que as novas tarifas gerarão grandes receitas para os Estados Unidos, mas também sugeriu que os países poderiam obter alívio caso reduzissem ou eliminassem suas próprias tarifas sobre os produtos norte-americanos.
Essa tarifa impacta o Brasil, que é o maior exportador mundial de celulose. Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de produtos madeireiros, e uma tarifa de 25% pode afetar severamente esse comércio. Desde 1997, o Brasil exportou US$ 59,5 bilhões em produtos madeireiros para os Estados Unidos, com US$ 3,7 bilhões registrados apenas no ano de 2024, segundo o Metrópoles. De acordo com o Serviço Florestal Brasileiro, o principal produto de madeira exportado é a celulose, essencial para as indústrias de papel, embalagens, tecidos, cosméticos e até biocombustíveis.
Produtos cujas tarifas já foram anunciadas:
- Taxação de 25% sobre todas as importações de aço e alumínio, oficializada no dia 10 de fevereiro, e sobre as quais Trump afirmou que não haveria exceções. O Brasil é o segundo maior exportador de aço para os EUA, atrás somente do Canadá. Governo e empresas brasileiras estudam como reagir.
Tarifas recíprocas:
- Trump assinou em 13 de fevereiro a ordem de implementação de tarifas recíprocas, mirando países que, segundo o governo americano, taxam excessivamente produtos dos EUA. Entre os produtos citados por ele, está o etanol brasileiro. Ao assinar a medida, ele citou seu plano para um comércio “justo e recíproco”.
No entanto, as tarifas recíprocas ainda não foram oficializadas. O documento enviado por Trump diz que sua equipe terá um prazo para analisar caso a caso de cada país com quem os EUA se relacionam, para aplicar cobranças específicas a cada um. Os estudos devem ser concluídos em 1º de abril.
Países afetados
Normalmente, o tarifaço de Trump atinge países com os quais a balança comercial é deficitária para os Estados Unidos. No caso do Brasil, o comércio entre os dois países é superavitário em favor dos EUA há pelo menos duas décadas.
Entre os principais alvos de Trump estão Canadá, México, China e União Europeia. Outro país alvo de Trump foi a Colômbia, que se negou, a princípio, a receber deportados, mas voltou atrás depois da ameaça de sobretaxar produtos do país em 25%.
No entanto, apesar das queixas contra os europeus, nada efetivamente de concreto foi direcionado ao bloco até o momento.
As primeiras medidas de Trump atingiram produtos importados do Canadá, México e China. Com os dois primeiros, ele conseguiu negociar a suspensão de tarifas por 30 dias, em troca do compromisso de que fossem adotadas medidas pelos respectivos governos para combater a imigração irregular e tráfico de drogas.
Com a China, segunda maior economia do mundo, Trump ainda não negociou, e o revide chinês foi mais contundente.
Os chineses elevaram tarifas sobre alguns produtos estratégicos aos EUA, e denunciaram a política comercial trumpista à OMC (Organização Mundial do Comércio).
Por ora, outra ameaça de Trump que ficou no campo da retórica foi contra os Brics (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul). Neste caso, o alvo do republicado é o projeto do bloco de criar uma moeda alternativa ao dólar para negociações.
Trump disse que os países do Brics poderiam enfrentar sobretaxas de 100% “se quiserem brincar com o dólar”.