Senado deve votar projeto que endurece regras contra devedores contumazes nesta 3ª

Proposta mira empresas de fachada usadas por organizações criminosas; Receita pode recuperar até R$ 30 bilhões por ano
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O Senado deve votar nesta terça-feira (2) o projeto que cria o Código de Defesa do Contribuinte (PLP 125/2022), com o objetivo de endurecer regras contra os chamados devedores contumazes. A iniciativa ganhou força após a Operação Carbono Oculto — ação conjunta da Receita Federal e da Polícia Federal que revelou um esquema bilionário de sonegação e lavagem de dinheiro envolvendo o PCC (Primeiro Comando da Capital).

O relatório do projeto foi apresentado na segunda-feira (1º) pelo senador Efraim Filho (União-PB). O texto traz regras mais rígidas contra os chamados devedores contumazes — empresas e pessoas que deixam de pagar impostos de maneira recorrente, planejada e injustificada, utilizando estruturas jurídicas de fachada para fraudar a Receita Federal.

“Apesar de árido e técnico, esse tema dialoga com a vida real das pessoas. É um projeto de ganha-ganha: bom para o Estado, para o setor produtivo e para o cidadão. Só é ruim para o criminoso”, afirmou Efraim.

Os devedores contumazes são definidos pela proposta como aqueles que acumulam dívidas superiores a R$ 15 milhões de forma reiterada e sem justificativa. Esses contribuintes ficarão proibidos de acessar benefícios fiscais, participar de licitações públicas, firmar contratos com o poder público e até de entrar em recuperação judicial. Também poderão ter o CNPJ suspenso e as atividades empresariais interrompidas.

A Receita poderá ainda atuar em parceria com órgãos como Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo) e Ministério Público, numa abordagem mais coordenada para rastrear fraudes fiscais.

No setor de combustíveis — identificado como vetor central do esquema criminoso revelado pela Carbono Oculto —, o projeto impõe capital social mínimo para empresas:

  • R$ 1 milhão para revenda,
  • R$ 10 milhões para distribuição,
  • R$ 200 milhões para produção.

Além disso, a ANP (Agência Nacional do Petróleo) passará a exigir comprovação da origem dos recursos investidos e a identificação dos beneficiários finais das empresas do setor, com o objetivo de dificultar o uso de “laranjas” e blindar o mercado formal contra o crime organizado.

As fintechs e instituições de pagamentos também entram no radar: estarão sujeitas a normas definidas pelo Poder Executivo para garantir transparência nas operações e prevenir lavagem de dinheiro.

Devedores contumazes: R$ 200 bi em dívidas irrecuperáveis

Estudo da Receita Federal citado por Efraim aponta que 1.200 empresas acumularam R$ 200 bilhões em dívidas irrecuperáveis na última década, a maioria em nomes de “laranjas” e CNPJs já encerrados. Com as novas regras, o governo estima que entre R$ 20 e R$ 30 bilhões por ano poderão ser recuperados gradualmente, sem aumento de impostos.

“Essas empresas são criadas para o crime. Existem no papel, em nome de terceiros, e desaparecem quando a Receita tenta executar a dívida”, afirmou o relator.

O projeto também cria estímulos para empresas que mantêm sua regularidade fiscal. Entre os benefícios estão:

  • Desconto de 1% no pagamento à vista da CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido);
  • Prioridade na análise de processos administrativos;
  • Canais de atendimento simplificados e possibilidade de regularização antecipada de débitos futuros.

Além disso, o texto incorpora três programas da Receita:

  • Confia (Programa de Conformidade Cooperativa Fiscal),
  • Sintonia (Programa de Estímulo à Conformidade Tributária),
  • OEA (Operador Econômico Autorizado), focado na facilitação do comércio internacional.

Apoio político e expectativa de aprovação

Efraim afirmou que o texto foi amplamente discutido com o Ministério da Fazenda, a Receita, o setor produtivo e parlamentares. A expectativa é de aprovação por ampla maioria.

“Esse projeto é a antítese do aumento de carga tributária. Ele foca na justiça fiscal, em separar quem não pode pagar de quem não quer pagar”, disse o senador.

O projeto foi originalmente apresentado pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), com base em sugestões de uma comissão de juristas para modernizar o sistema tributário brasileiro.

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