Esse texto começa com uma pergunta sincera aos brancos, como eu, que almejam desconstruir o racismo naturalizado na nossa formação e o nosso complexo de superioridade (o racismo é, afinal, e em larga medida, um problema dos brancos).
Por que é que nós devemos buscar conhecer, ainda que parcialmente, as culturas africanas e afrodescendentes, cruzadas por inúmeras circularidades, sincretismos e referências?
Aos pretos e indígenas costumamos dizer em nossas práticas pedagógicas que é importante conhecer a cultura europeia para adquirir conhecimento e ampliar o nosso repertório de compreensão do mundo. Mas e o inverso? Por que conhecer as culturas afro-ameríndias?

Uma hipótese é a de que essa é uma questão de reparação histórica, em virtude do horror da escravidão.
Outra hipótese é a de que assim temos condições de entender melhor o Brasil.
A terceira hipótese é a de que reconhecemos que a diáspora africana nas Américas, sem deixar de ser uma tragédia, acaba se definindo como um empreendimento inventivo altamente complexo e surpreendente.
As culturas das diásporas se manifestaram em arte, sofisticação, beleza, pensamento, palavra, maneiras de lidar com o mistério da fé e modos de fazer que podem melhorar as vidas das mulheres, dos homens e das crianças de qualquer origem e cor.
Nós achamos que os afrodescendentes foram os artífices fundamentais da cultura carioca? Eu acho que foram. Consideramos que sambas, canjiras, capoeiras, omolocôs, candomblés, umbandas, redefinição dos carnavais, culinária, falares bantos e iorubás enchendo o português de dendê, mitos, cantos e medicinas, formam um complexo de saberes que não fica a dever aos complexos de saberes mais potentes que a humanidade produziu?
Estamos mesmo dispostos a combater o racismo naquele campo em que ele é mais arraigado e difícil de ser percebido; o simbólico? Ou ficaremos no plano pitoresco da “simpatia cordial”, do encanto superficial e folclorizante em relação a estes saberes?
Já nos ocorreu que mesmo aqueles que execram o racismo inscrito na impressão física podem ser racistas nas dimensões simbólicas e mais minuciosas em que o racismo se inscreve como prática?
Eu conheço pessoas que, sinceramente, jamais chamariam um ser humano de macaco e consideram inconcebível discriminar alguém pela impressão física. Elas acham, todavia, que macumba é barbárie ou simpática manifestação pitoresca dos oprimidos, que batuque é coisa inferior, que só o ocidente produziu formas sofisticadas de se pensar o mundo (e é claro que produziu, mas será que exclusivamente?), que o ofá de Oxossi é folclore e a cruz é potência encarnada da fé, que uma ópera é grande arte e um desfile de escola de samba é apenas carnaval, que livros contam histórias lindas e um tambor só faz barulho. E por aí vai.
Sinto informar que isso é racismo também.
Ao lado da responsabilidade histórica e do desejo de compreensão do que é afinal o Brasil, eu só vou acreditar na possibilidade de superação do racismo quando o Brasil se convencer — especialmente os brancos como eu, insisto — que precisamos também, e sobretudo, conhecer as culturas da diáspora nas Américas por aquilo que elas produziram de melhor
A beleza de inventar a vida no precário, lidar com a fragilidade da condição humana e surpreender a morte e o aniquilamento da memória em ritos e artes de corpo, canto, pensamento, fé, sabores, cheiros, falares e maneiras de abordar a existência como experiência libertadora de vida e possibilidade de ampliação dos nossos repertórios e olhares sobre o que nos define como humanos: o espanto do mundo.