ICL anuncia Clube do Livro, em parceria com Projeto Portinari, no Despertar 2026

Anúncio ocorreu após apresentações de João Candido Portinari e João Carvalho sobre o acesso à arte, a formação de leitores e a leitura como direito
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Por Leila Cangussu

O Instituto Conhecimento Liberta anunciou neste sábado (19), durante o Despertar 2026, a criação do Clube do Livro ICL. O projeto reúne seis clássicos em edições únicas, uma parceria oficial com o Projeto Portinari e uma jornada de leitura coletiva ao longo de um ano.

O anúncio encerrou uma sequência dedicada à arte, ao acesso aos livros e à formação de leitores. Primeiro, João Candido Portinari apresentou a trajetória do pai e o trabalho de preservação realizado pelo Projeto Portinari. Depois, João Carvalho falou sobre a leitura como uma disputa política e mostrou dados sobre a redução do número de leitores e de bibliotecas no país.

João Candido Portinari: arte para o povo brasileiro

Filho de Candido Portinari e fundador do projeto dedicado à preservação de sua obra, João Candido abriu a sequência com uma apresentação sobre a formação do pintor, sua relação com o Brasil e o trabalho realizado há quase cinco décadas para tornar seu acervo acessível ao público. “Essa é a missão do Projeto Portinari: reunir essa obra imensa para devolvê-la ao seu verdadeiro dono, o povo brasileiro”, afirmou.

João Candido relembrou a infância ao lado do pai e a rotina no ateliê. Segundo ele, acompanhar o trabalho do pintor mostrou desde cedo que aquelas obras não poderiam permanecer restritas a coleções privadas.

“Crescer ali no ateliê era ver de perto a arte como entrega total, ver meu pai trabalhando todo dia. Foi o que me fez entender que essa obra não podia ficar trancada numa sala. Ela tinha que circular, tinha que ser de todo o mundo”, contou.

João Candido Portinari, único filho de Candido Portinari e fundador e diretor geral do Projeto Portinari. Foto: Oficina de Imagens / ICL
João Candido Portinari, único filho de Candido Portinari e fundador e diretor geral do Projeto Portinari. Foto: Oficina de Imagens / ICL

A apresentação recuperou as origens de Portinari em Brodowski, no interior de São Paulo, e a influência da família, dos trabalhadores rurais e das paisagens da infância em sua produção. O pintor retratou agricultores, retirantes, crianças, festas populares e personagens que raramente ocupavam o centro da arte brasileira.

João Candido também falou sobre os painéis Guerra e Paz, criados para a sede da Organização das Nações Unidas. Com 280 metros quadrados, as obras foram produzidas quando Portinari já sofria os efeitos da intoxicação pelo chumbo presente nas tintas. “Mais que um mural para a ONU, essas telas são um grito urgente pela paz em um mundo dividido. Portinari enfrentou a doença e a própria morte para nos deixar essa esperança”, disse.

Após a morte do artista, em 1962, grande parte de sua produção permaneceu dispersa em coleções particulares, bancos e outras instituições. O Projeto Portinari nasceu em 1979 para localizar, documentar e divulgar esse acervo. O trabalho reuniu informações sobre cerca de 5 mil obras e mais de 30 mil documentos, entre cartas, fotografias e depoimentos. O levantamento também deu origem ao primeiro catálogo da América Latina dedicado à produção completa de um artista.

Nas últimas décadas, o projeto levou exposições a comunidades ribeirinhas, periferias urbanas e espaços fora do circuito tradicional dos museus. A obra de Portinari também chegou ao Museu Nacional da China, em uma das maiores exposições de arte brasileira já realizadas na Ásia. “O Projeto Portinari existe exatamente para isso: devolver ao povo o espelho da sua própria gente e o orgulho de quem ele é”, afirmou João Candido.

Ao fim da apresentação, Eduardo Moreira adiantou que a parceria entre o ICL e o Projeto Portinari daria um novo passo.

João Carvalho: “Ler no Brasil sempre foi uma disputa de poder”

Na sequência, João Carvalho apresentou um panorama histórico do acesso à leitura no Brasil. O professor começou pela proibição de uma oficina de impressão instalada no Rio de Janeiro em 1747 e lembrou as leis que impediram pessoas escravizadas e parte da população negra de frequentar escolas. “Ler no Brasil nunca foi passatempo. Sempre foi uma disputa de poder. E quem manda sabe disso muito melhor do que quem obedece”, afirmou.

João Carvalho também mostrou como a exclusão educacional limitou o exercício da cidadania. Em 1881, a legislação passou a exigir que eleitores soubessem ler e escrever. Brasileiros analfabetos só recuperaram o direito ao voto em 1985.

Para o professor, essa história ajuda a explicar desigualdades que permanecem no país. Ele citou dados segundo os quais 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Em cinco anos, o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores.

O acesso às bibliotecas também diminuiu. Segundo os números apresentados, 75% dos brasileiros não frequentam esses espaços e 45% dos municípios não têm uma biblioteca pública ou comunitária. “No imaginário de boa parte do país, a biblioteca é uma sala de silêncio, de dever de casa. Não é um lugar de encontro. É uma biblioteca que ninguém sente como sua. Essa jamais formará leitores”, disse.

João Carvalho defendeu que o hábito de leitura depende do acesso aos livros, mas também da convivência entre leitores. “O gosto de ler se constrói socialmente. A gente gosta de ler quando alguém empresta, quando alguém indica, quando a gente lê junto, quando conversa sobre o livro. O livro precisa de um lugar, mas também precisa de pessoas”, afirmou.

Durante a apresentação, o professor contou que começou distribuindo livros entre seguidores de seu trabalho na internet. Depois, passou a organizar bibliotecas populares em comunidades, sindicatos, acampamentos e salas de aula.

O próximo projeto será construído na Casa Pajubá, em Curitiba, que acolhe pessoas trans expulsas de casa ou vítimas de perseguição. O ICL informou que destinará à iniciativa os valores arrecadados com as taxas de confirmação de presença no Despertar 2026. O recurso será usado na montagem da biblioteca, na compra do mobiliário e na formação do acervo. “Ler é um ato político”, resumiu João Carvalho. “O livro precisa estar onde o povo está.”

João Carvalho, historiador e educador popular, no palco do Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL
João Carvalho, historiador e educador popular, no palco do Despertar 2026. Foto: Oficina de Imagens / ICL

Clube do Livro ICL terá jornada coletiva de um ano

Após as apresentações, o ICL anunciou oficialmente seu Clube do Livro. A iniciativa atende a um pedido feito há muito tempo pela comunidade e amplia a atuação do instituto no incentivo à leitura. Desde sua criação, o ICL já distribuiu quase 1 milhão de livros.

O primeiro projeto do clube terá seis clássicos publicados em edições exclusivas de capa dura. Cada volume contará com um prefácio inédito. Reunidas, as lombadas formarão uma obra de Candido Portinari, resultado da parceria oficial com o Projeto Portinari.

Xico Sá, Jessé Souza e Lindener Pareto estão entre os nomes já confirmados no Clube do Livro ICL.

Os títulos que integrarão a primeira coleção e os demais participantes serão divulgados em um evento online no próximo domingo, 27 de setembro, às 20h. As inscrições estão abertas e você já pode garantir o seu lugar para descobrir tudo em primeira mão.

Carregar Comentários
Assine nossa newsletter
Receba nossos informativos diretamente em seu e-mail