Jovens da Geração Z derrubam estigma de ‘preguiçosos’ e ensinam a mudar o mundo

Donald Trump e Flávio Bolsonaro teriam sido derrotados sem os estudantes que lotaram ruas e urnas para lutar contra a extrema direita? Duvido.
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Há tempos que falar mal dos jovens da geração Z (pessoas que nasceram entre 1996 e 2012) é uma espécie de obsessão da mídia e das redes sociais. Eles seriam preguiçosos, mimados e “nutella”. O clichê também diz que eles não gostariam de trabalhar, o que não é sustentado por nenhuma pesquisa. Mas, para todas as gerações mais antigas, essa parecia ser uma verdade absoluta. Isso até eles se organizarem e jogarem todo o preconceito na cara dos mais velhos reclamões.

Como todos sabem e muitos de nós comemoram, o mundo parece, finalmente, estar começando a se livrando de líderes de extrema direita autoritários, ultraconservadores e corruptos. Uma onda progressista parece estar chegando ao planeta. É possível ver isso nas ruas e nas urnas de vários países, como o Brasil e os Estados Unidos, Sérvia e França, só para citar alguns. E quem está na frente dessa revolução? Eles, os tais jovens “chatos e reclamões” (sic).

Nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, os eleitores  lotaram o Congresso e o Senado de democratas e deram um sonoro “não” para o governo do extremista e ameaçador Donald Trump. O chamado “Tsunami azul” fez também com que minorias odiadas pelos caretas de direita, como pessoas trans, mulheres negras e imigrantes muçulmanos fossem eleitos. E quem está por trás desse feito? Em grande parte, eles, os jovens que de inúteis não tem nada. De acordo com pesquisa divulgada pela agência France 24, cerca de 75% dos jovens da Geração Z teriam votado para os democratas nessas eleições. Impressionante.

Em 2024 foi diferente e o número de jovens que votou em Trump foi grande. Muitos viram na extrema direita uma chance de mudança e de ser contra “tudo isso que está aí”. A experiência com Trump e Bolsonaro no governo parecem ter mostrado para esses jovens que esse “novo” representado pelos extremistas tinha gosto de mofo. Eles querem mudar o mundo, sim, o que é ótimo. Mas, agora, eles parecem ter visto que a saída para essa mudança é querer mais políticas públicas e direitos.

Exemplo brasileiro 

Depois da vitória contra a extrema direita nos EUA, muitos norte-americanos foram agradecer aos brasileiros, que deram um exemplo incrível no segundo turno de 25 de outubro.Os agradecimentos são merecidos. Demos exemplo mesmo. Mas, na linha de frente dessa luta pela democracia estão eles, os jovens.

O campo progressista teria derrotado Bolsonaro sem os jovens? Duvido. Só para lembrar, e para que conste nos livros de história, enquanto os adultos de esquerda ainda estavam apavorados e sem saber o que fazer após Flávio Bolsonaro ficar em primeiro lugar no primeiro turno, os estudantes da UFF, de Niterói, no estado do Rio foram para as ruas deixar claro que não aceitariam uma volta da família Bolsonaro. Simples assim.

Essa primeira passeata espontânea levou a outras, de estudantes do Brasil inteiro. Se não fosse por eles, manifestações gigantes como a que reuniu cerca de 2 milhões de pessoas em São Paulo na véspera do segundo turno teriam acontecido? Difícil.

No mesmo final de semana, enquanto brasileiros celebravam a vitória de Lula e a derrota do bolsonarismo, cidadãos da Sérvia também soltavam foguetes e se abraçavam nas ruas celebrando como se o país tivesse ganho a Copa do Mundo. À frente dessa vitória estavam os estudantes, que criaram o movimento Lista Estudantil e lotaram as ruas do país em manifestações contra o governo de extrema direita  e votaram em peso. Resultado: o extremista Aleksandar Vučić perdeu. Essa vitória teria acontecido sem os jovens? Mais uma vez, acho difícil.

Nesses tempos de ebulição, no bom sentido, estudantes fizeram as maiores manifestações da história da França. Eles estão nas ruas há semanas demandando educação, melhoras no custo de vida e defendendo mais serviços públicos. Na última sexta-feira (05/10) aconteceu uma greve geral no país, puxada por estudantes e sindicatos. Manifestações de apoio aos “protestos dos estudantes!” aconteceram em toda a Europa.

Na Alemanha, país onde moro, a virada para a esquerda da geração Z também é óbvia. Uma pesquisa feita em 2025, quando o chanceler conservador Friedrich Merz foi eleito, mostrou que, se só jovens com menos de 25 anos votassem, o partido de esquerda Die Linke teria ficado em primeiro lugar nas eleições. O partido, que já foi visto como uma organização ultrapassada de esquerda antiga, mudou de rosto e de estilo e cresceu muito nas pesquisas, impulsionados por eles, os jovens da geração Z.

Esses jovens parecem estar, sim, cansados, mas não por serem preguiçosos. Eles estão cansados do capitalismo selvagem e da ameaça à perda de direitos. E estão cobertos de razão. Como diz o ditado, “the kids are all right” (os jovens estão todos bem).

 

 

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