“Um corpo que não vibra é um esqueleto que se arrasta”.
A frase acima é utilizada em larga escala em contextos de palestras motivacionais e em discursos para exaltar a ação, o mover-se, a paixão pela vida. Ela sugere que uma vida sem paixão é morta. Pois bem, Juliana Marins era apaixonada e seu esqueleto estruturava um corpo que vibra.
Seu amor radical pela bela diversidade do mundo a fez percorrer paisagens, países e cenários pouco usuais nos desejos dos brasileiros para o turismo. Sem preconceitos e amarras, ela queria experimentar o planeta. Ela só não contava que esta bonita vontade de mergulho na corrente sanguínea da Terra, a levasse a morte justamente pelo desprezo por um determinado “corpo”: o dela.

É bastante repugnante que a tragédia que tirou a vida de Juliana esteja sendo instrumentalizada para culpá-la pelo próprio infortúnio (“Se tivesse ficado quieta em casa estava viva”, “Quem mandou procurar sarna pra se coçar?”) e como munição para a guerra de torcidas que virou a política brasileira há mais de uma década, com senadores e deputados apressando-se em culpar o governo federal. .
Juliana viajou com o dinheiro do seu trabalho, contratou uma empresa supostamente especializada e fez o trajeto em grupo. Passeio este que é feito por centenas de pessoas todos os dias em um parque nacional. Do que está sendo acusada? Parece que a independência e a coragem de realizar sonhos incomodam o naco de país que jamais faria os mesmos comentários caso a vítima fosse um homem.
No entanto, o drama da jovem niteroiense que rolou 600 metros abaixo em um vulcão na Indonésia, comoveu a parcela de país que ainda é capaz sentir empatia e deixou o gosto amargo do desprezo e do descaso. Uma morte totalmente evitável. O “conjunto da obra” das providências em torno do acidente deixam a sensação de que a jovem não caiu, mas foi empurrada por uma sequência inacreditável de pouco caso.
Tudo na história nefasta que teve como cenário o vulcão Rinjani é de desesperar pelo abandono de Juliana — “esperei por ela três minutos”, disse o guia —; a lentidão na comunicação às autoridades, o envio de socorro, as mentiras institucionais sobre o resgate, a desinformação para os familiares, o lugar aberto e em pleno funcionamento enquanto a moça agonizava no fundo do penhasco, sem aviso da periculosidade, sem primeiros socorros, sem guias preparados. Embora outros montanhistas tenham se acidentado no Rinjani sem o mesmo fim e sem o mesmo meio de caminho desdenhoso com suas vidas.
Ninguém garante que, caso tivesse a atenção devida, o acidente de Juliana não resultasse em morte. O que é possível garantir é que, caso tivesse agilidade e preocupação com seu extremo sofrimento, o acidente resultaria em dignidade e respeito por sua existência.
O episódio Juliana Marins, ao contrário de amedrontar os futuros viajantes, deveria provocar uma reivindicação pelo direito à segurança, apoio, atenção e respeito por suas vidas em quaisquer circunstâncias, pois o erro não é desejar chegar ao cume do Rinjani, mas sim não ser visto como alguém digno de segurança e rapidez nos esforços de resgate caso algo aconteça.
Por fim, seu corpo foi içado e a família e os amigos seguirão tendo que lidar com burocracias e custos tremendos para transladar o corpo ao lado da lacuna, do vazio, do buraco causado pela perda de alguém ainda com tantos anos para trilhar os caminhos que desejasse. Uma dor que passa a fazer parte de quem conviveu intimamente com ela e com sua disposição para fazer as malas e se jogar no mundo. Um ato de coragem e autoconfiança difícil de cultivar. Uma ode ao desejo de liberdade tão inerente aos jovens e, em especial, de jovens negros que são olhados em toda parte como não merecedores.
Resta fazer coro ao pai de Juliana, Manoel Marins: “Voa, Juju, voa.”