O governo do Japão fez uma proposta formal ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que um processo negociador seja estabelecido com o Mercosul para a criação de um acordo de livre comércio. A iniciativa foi debatida num encontro nesta terça-feira, às margens do G7, em Evian.
Sanae Takaichi, primeira-ministra do Japão, ainda deixou claro ao presidente Lula que quer “aprofundar” o debate sobre o acesso aos minerais críticos do Brasil. “A segurança econômica é prioridade máxima para o Japão”, disse, no início do encontro.
O Japão vive uma situação delicada no acesso às terras raras, fundamentais para seu setor de tecnologia. Hoje, quase todo seu abastecimento vem da China e um dos objetivos de Tóquio é reduzir essa dependência. A estratégia encontrada foi a de uma aproximação ao Brasil e ao Mercosul.
Em nota publicada ao final da reunião de 30 minutos, o governo do Japão informou que os dois governos “concordaram em aprofundar as discussões na área de segurança econômica, com vistas a construir uma relação de cooperação mutuamente benéfica entre os dois países”.
“Os dois líderes saudaram a publicação de uma declaração conjunta anunciando o início das negociações sobre o Acordo de Parceria Econômica (APE) Japão-MERCOSUL e confirmaram que, levando em consideração as sensibilidades de cada lado, alcançarão um acordo mutuamente benéfico e fortalecerão ainda mais as relações econômicas entre o Japão e o MERCOSUL”, disse.
Oa governos ainda comemoraram o lançamento do Diálogo Japão-Brasil sobre Cooperação em Inteligência Artificial.
Segundo Lula, o lançamento oficial das negociações pode ocorrer no dia 30 de junho, na cúpula do Mercosul, em Assunção. O presidente brasileiro se mostrou favorável à iniciativa e indicou que espera que o pacto seja lançado no final do mês.
“Eu fico muito feliz com essa perspectiva virtuosa de um acordo Japão-Mercosul”, disse o presidente, ao lado da primeira-ministra do Japão. “Nós estamos aguardando isso com muita intensidade. Espero que na próxima reunião do Mercosul, no dia 30 de junho, a gente possa ter boas noticias”, completou.
Lula não pode tomar uma decisão em nome do bloco. Diplomatas, portanto, recomendaram ao presidente que apoie o processo. Mas que não se antecipe à decisão dos demais membros.
A aproximação entre os dois países começou, em janeiro, com o primeiro encontro MERCOSUL-Japão no âmbito da parceria estratégica assinada em dezembro de 2025.
Naquele momento, foi confirmado que existe uma intenção de seguir adiante com um projeto de acordo, com um potencial significativo para aprofundar e diversificar as relações econômicas.
No encontro, a delegação do Japão fez referência a uma ampla gama de áreas para uma possível cooperação com o objetivo de fortalecer as relações, incluindo áreas específicas como comércio e investimento, cadeias de abastecimento, economia digital, fornecimento estável de grãos e transição energética.
O interesse pelo Brasil responde a dois fenômenos. De um lado, a esperança é a de diversificar mercados, principalmente com as tarifas de Trump. Mas há também a expectativa de que isso promova uma redução de sua dependência em relação às cadeias de produção construídas pela China.
A pandemia, as guerras e o governo americano fizeram soar um alerta entre os japoneses de que não poderiam manter a dimensão da vulnerabilidade que hoje enfrentam em relação ao comércio internacional. Além do Mercosul, Tóquio busca acordos comerciais e de investimento no Indo-Pacífico, Europa e América Latina.
Os japoneses também esperam que o acordo volte a dar maior competitividade para a exportação de carros do país, principalmente diante da nova concorrência de veículos chineses.
No setor de tecnologia, os japoneses não disfarçam os interesses pelo lítio e terras raras no Mercosul, inclusive para reduzir suas importações da China.
O Mercosul demonstrou interesse em garantir o acesso aos mercados para os produtos agrícolas, juntamente com medidas sanitárias e fitossanitárias transparentes e baseadas na ciência.
Nos últimos anos, parte dos obstáculos tem sido justamente as barreiras criadas pelas autoridades japonesas para impedir a entrada de produtos do bloco. Carne bovina, carne suína, trigo e laticínios estão entre os itens de maior interesse. Mas diplomatas alertam que essa negociação promete ser delicada.
Canadá
A reportagem apurou que a expectativa do Palácio do Planalto é de que haja um anúncio de um acordo com o Canadá ainda em 2026. Tanto Ottawa quanto Brasília tem o mesmo objetivo: reduzir de forma substancial sua dependência em relação ao mercado dos EUA, principalmente diante da imprevisibilidade da política comercial de Donald Trump.
Do lado brasileiro, a expectativa é de que um acordo permita um maior acesso ao mercado canadense para produtos agrícolas e para atrair investimentos no setor de mineração. Já os canadenses olham principalmente para o Mercosul como uma alternativa aos EUA, principalmente depois das tarifas que foram impostas por Trump contra seus produtos.
O processo de aproximação entre os dois parceiros foi iniciado em 2018. Mas, em 2021, as negociações chegaram a um impasse. Oito anos depois, a esperança é de que o pacto possa ser fechado.
Em 2025, o comércio de mercadorias do Canadá com o Mercosul totalizou US$ 18 bilhões, sendo as exportações canadenses avaliadas em US$ 3,7 bilhões e as importações em US$ 14,3 bilhões.