Por Cleber Lourenço
A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, recebeu pagamentos pela veiculação de propaganda eleitoral apontada como irregular, enquanto suas plataformas aplicavam restrições que atingiram principalmente conteúdos progressistas e favoráveis ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As práticas estão documentadas em um dossiê organizado pelo Sleeping Giants Brasil, que reúne investigações de pesquisadores, organizações da sociedade civil e jornalistas sobre a atuação da empresa nas eleições brasileiras de 2026.
Intitulado Meta, não se meta nas nossas eleições, o documento de 74 páginas reúne 41 registros sobre publicidade política, inteligência artificial, distribuição de conteúdo e moderação. O levantamento foi elaborado pelas pesquisadoras Elisa Lacerda Silva, Gabri Kucuruza e Suewellyn Cassimiro, sob direção de Humberto Ribeiro e Mayara Stelle, com colaboração do Aláfia Lab.
Um dos principais achados vem do NetLab, laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou 1.613 anúncios político-eleitorais contratados por 187 anunciantes com páginas sediadas no exterior, com investimentos estimados em até R$ 2 milhões. As peças circularam sem a identificação política exigida pela plataforma.
Quase todos os anúncios, 99,5%, foram pagos em dólares. Entre os pagamentos com localização conhecida, 98,1% tinham origem nos Estados Unidos. A pesquisa encontrou ainda indícios de atuação coordenada em 366 anúncios, que movimentaram até R$ 676 mil para promover determinadas candidaturas e atacar adversários.
Os dados levantam suspeitas sobre o financiamento e a fiscalização da propaganda eleitoral, embora a origem estrangeira dos pagamentos não permita identificar, por si só, os responsáveis finais pelo dinheiro.
Outro estudo do NetLab analisou 6.757 anúncios publicados entre 16 de agosto e 16 de setembro. Desse total, 2.326 tratavam do processo eleitoral ou de suas instituições, com gastos estimados em até R$ 2,1 milhões e 224 milhões de exibições. Entre eles, 1.586 anúncios, o equivalente a 68,1%, atacavam instituições ou questionavam a legitimidade das eleições.
As falhas persistiram durante o primeiro turno. Pesquisadores encontraram 568 anúncios irregulares no fim de semana da votação, dos quais 325 estavam ativos no próprio domingo, 4 de outubro. Seis peças simulavam comunicados da Justiça Eleitoral para divulgar uma falsa possibilidade de votar pela internet.
Restrições atingiram principalmente conteúdos progressistas
Enquanto anúncios questionando as eleições circulavam mediante pagamento, usuários denunciavam bloqueios, suspensões e perdas de alcance de publicações políticas.
Um levantamento da organização CTRL+Z, divulgado pela Agência Pública, identificou que 90% das restrições com orientação política reconhecível atingiram conteúdos progressistas ou ligados à campanha de Lula. O percentual considera apenas os casos classificados politicamente. Em 54% dos relatos, não foi possível identificar essa orientação.
A pesquisa reuniu mais de mil denúncias envolvendo redes sociais, com predominância de ocorrências no Instagram. Entre os registros estão 356 relatos de queda de alcance, 163 restrições de compartilhamento, 125 restrições de contas, 119 remoções de publicações e 116 banimentos de perfis. Em 22% dos casos, os usuários afirmaram não ter recebido explicações para as medidas.
Uma comunidade de WhatsApp favorável a Lula, com aproximadamente mil integrantes, chegou a ser banida sob a classificação de terrorismo. Em outro episódio, um vídeo crítico a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi bloqueado no Instagram com uma indicação indevida de nudez infantil.
Os episódios foram identificados em investigação da Agência Pública baseada em notificações recebidas pelos usuários e documentos encaminhados ao Ministério Público Federal. Os registros levantam questionamentos sobre a precisão dos sistemas automatizados e a dificuldade de contestar decisões da plataforma.
Documentários do ICL e do Revelando também foram bloqueados
As controvérsias continuaram nesta quinta-feira (22), três dias antes do segundo turno. A Meta bloqueou no Instagram o trailer de A última peça, documentário original do ICL Notícias que aborda as relações entre a eleição presidencial brasileira e os interesses do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina.
Segundo reportagem do ICL Notícias, a plataforma informou aos usuários que havia detectado o uso de inteligência artificial no material. Até a atualização da publicação, o trailer permanecia indisponível. A estreia do documentário estava prevista para as 18h20, no YouTube.
No mesmo dia, a empresa retirou do Instagram o vídeo de divulgação de Flavinho de Papai, episódio da série jornalística Revelando, apresentado por MC Cabelinho. A produção aborda a trajetória de Flávio Bolsonaro e questiona propostas associadas ao candidato.
A equipe contestou a justificativa apresentada pela plataforma e afirmou que o material não continha imagens produzidas por inteligência artificial. A publicação foi restabelecida horas depois.
A Meta justificou a restrição citando regras eleitorais aplicáveis a conteúdos sintéticos envolvendo candidatos nas 72 horas anteriores à votação. Segundo a empresa, programas de edição podem inserir sinais técnicos de uso de inteligência artificial nos arquivos, posteriormente identificados pelos sistemas de moderação.
O Revelando, produzido pelo podcast Calma Urgente em parceria com o ICL, a Mídia Ninja e a 342 Artes, já havia enfrentado uma suspensão em setembro. Na ocasião, o Instagram derrubou o perfil do projeto após a divulgação de uma reportagem apresentada por Fábio Porchat sobre o Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha e personagens políticos. A conta foi posteriormente restaurada, e a Meta pediu desculpas pela remoção.
Os números que expõem as falhas da Meta
Além dos casos de publicidade irregular e bloqueio de conteúdos jornalísticos, o dossiê reúne outros resultados de pesquisas independentes:
- R$ 1,1 milhão em anúncios: levantamento da Ekō identificou publicidade eleitoral veiculada por 26 contas, algumas operadas a partir da Guatemala, Colômbia e Peru. Os valores pertencem a uma investigação diferente da realizada pelo NetLab e podem apresentar sobreposições;
- 3 de 15 anúncios aprovados: em experimento da Ekō, a Meta autorizou peças produzidas com inteligência artificial que continham desinformação eleitoral, violência política de gênero e mensagens de incitação a golpe de Estado;
- 8 de 15 anúncios aprovados: teste da Anistia Internacional mostrou que a plataforma aceitou peças com acusações falsas de fraude eleitoral e pedidos de intervenção militar. Nos outros sete casos, exigiu verificação de identidade, sem rejeitar o conteúdo por desinformação. Os anúncios dos dois experimentos foram cancelados antes de chegar ao público;
- 50,36% dos conteúdos sintéticos monitorados estavam no Instagram: levantamento do Observatório IA nas Eleições identificou 208 ocorrências na plataforma entre 413 casos de propaganda sintética analisados;
- 12,5% das conversas com a Meta AI apresentaram argumentos de deslegitimação eleitoral: o resultado foi registrado em uma das rodadas de pesquisa do InternetLab, do LabDados da Fundação Getulio Vargas e da Rede Conhecimento Social;
- 410,5 milhões de visualizações em dez vídeos: análise reunida pelo Sleeping Giants Brasil identificou esse alcance em publicações do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) no Instagram. O dado mostra a dimensão da circulação, mas não comprova impulsionamento deliberado pela empresa;
- 58 milhões de visualizações em uma rede de 255 perfis: investigação do Instituto Democracia em Xeque e do Aos Fatos identificou 1.204 publicações sintéticas ligadas à extrema direita. Quase metade delas, 586, utilizou o recurso de colaboração do Instagram, responsável por concentrar 63% do engajamento da rede.
Os dados pertencem a pesquisas com metodologias e períodos diferentes. Eles não podem ser somados como se representassem uma única amostra, mas ajudam a dimensionar os problemas identificados na fiscalização da publicidade e na circulação de conteúdos políticos.
Meta nega favorecimento eleitoral
A empresa nega interferir nas eleições brasileiras ou favorecer candidatos. Em comunicado divulgado em outubro, afirmou que parte dos problemas decorreu de falhas técnicas corrigidas e que aproximadamente 70% das medidas envolvendo contas de Lula examinadas na Justiça Eleitoral estavam relacionadas ao cumprimento de ordens judiciais.
A Meta também atribuiu a diferenças de configuração os resultados de testes nos quais sua ferramenta de inteligência artificial permitia gerar imagens com a expressão “Flávio 22”, mas recusava comandos semelhantes com “Lula 13”.
O Sleeping Giants Brasil ressalta que o dossiê sistematiza pesquisas e investigações já produzidas por diferentes instituições, sem afirmar que todas as ocorrências resultaram de uma ação deliberada da empresa. O conjunto, porém, documenta falhas recorrentes na fiscalização de anúncios, na aplicação de restrições e na transparência dos sistemas que controlam a circulação de informações durante a disputa presidencial.