Midas ao revés: Vorcaro e Zettel perdem amigos e destroem reputações

Até dezembro de 2025, quando uma sucessão de liquidações e investigações os lançou à lona, dupla de cunhados se jactava por transformar em ouro (de tolo) tudo em tocavam
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Em 1973, curtindo a ressaca da primeira onda de sucesso explosivo que a carreira musical lhe proporcionou, escangalhado pelos estragos que o álcool e as viagens psicodélicas iniciáticas já vinham fazendo em sua alma genial, Raul Seixas eternizou reflexões e arrependimentos profundos na excepcional letra de Ouro de Tolo.

“Eu devia estar sorrindo e orgulhoso

Por ter finalmente vencido na vida

Mas eu acho isso uma grande piada

E um tanto quanto perigosa/

 

Eu devia estar contente

Por ter conseguido tudo o que eu quis

Mas confesso, abestalhado

Que eu estou decepcionado…”

Dizia na 4ª e na 5ª estrofes do poema que deixava escapar um nostálgico monólogo saído da consciência inconsciente de um dos maiores nomes de nossa MPB e do rock nacionais.

Nos dias de hoje, mesmo que não deem a menor importância à dimensão e ao gênio de Raul Seixas, tem muita gente na política e no mercado financeiro como o tolo diagramado pelo artista baiano há mais de 40 anos. Irei me deter sobre três deles: Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal, Fábio Faria, ex-deputado, ex-ministro, empresário do ramo de relações institucionais, e Flávio Carneiro, investidor e empresário do ramo de comunicação.

Todos os três, e muita gente mais além deles, fizeram negócios com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, com o pastor e ex-investidor Fabiano Zettel, com o ex-vendedor de abadás Augusto Lima, com o Banco Master, com REAG DTVM e com a holding Super (de Zettel) como se não houvesse amanhã. Curtiram a vida adoidado nos breves e flamejantes anos em que a trinca de instituições aqui descritas operava como a grande compradora da “banca Brasil”. Negócios fechados, iam celebrar nas festinhas privês de Trancoso, do Rio de Janeiro, de Nova York ou de Lisboa.

Ibaneis Rocha (MDB) está às vésperas de anunciar o fim de sua carreira política em razão da liquidação do Master, banco que o BRB (instituição estatal controlada pelo Governo do Distrito Federal onde Rocha pontifica como voz de comando onipresente) imaginou poder comprar. O BRB desmorona sobre as ruínas da instituição de Vorcaro.

O GDF não tem caixa para fazer face ao rombo de R$ 5 bilhões provocado em seus cofres pelos ativos podres oferecidos pelo Master em garantia de um negócio que o banco público não podia fazer. Em desespero, Ibaneis apela para o enrolado e depauperado patrimônio imobiliário da administração do DF tentando fabricar garantias fictícias incapazes de tapar a fossa aberta no descompasso entre as obrigações do Banco Regional de Brasília e seu patrimônio. Inexplicavelmente altivo em meio ao mar de lama que o puxa para fundo do lamaçal, o governador brasiliense esconjura a amizade que construiu com Daniel Vorcaro e da qual se orgulhava até há menos de um ano, quando promoveu ruidoso jantar de celebração à união BRB-Master.

“Eu devia estar contente

Porque eu tenho um emprego

Sou o dito cidadão respeitável

E ganho quatro mil cruzeiros por mês/

 

Eu devia agradecer ao Senhor

Por ter tido sucesso na vida como artista

Eu devia estar feliz

Porque consegui comprar um Corcel 73…”

Ibaneis Rocha se ressente de não ter parado por ali, pelo “Corcel 73” da vida dele, a improvável eleição para o GDF em 2018, quando impediu a reeleição de Rodrigo Rollemberg (PSB) saindo das quimeras dos infernos naquela eleição que nos obrigava a ter de aceitar um Jair Bolsonaro como presidente da República. Como ele, há outros. Fábio Faria, por exemplo.

Casado desde 2017 com Patrícia Abravanel, uma das seis herdeiras da fortuna de Sílvio Santos e do canhão de mídia que é o SBT, Fábio Faria imaginou ter atingido a maturidade política e empresarial ao largar o governo Jair Bolsonaro no seu fim de calendário Gregoriano – 31 de dezembro de 2022 – e ter trocado os gabinetes públicos de deputado e de ministro das comunicações pelas antessalas e lobbys de hotéis e de escritórios onde vicejam os especialistas em relações institucionais.

Mesmo alquebrado por gestões personalistas, desfocadas e sem rumo definido impostas por administradores que tripudiaram do longo período de declínio senil de Senor Abravanel, um dos bambas da comunicação na TV brasileira, o SBT se mantém como uma das joias da Coroa do sistema nacional privado de telecomunicações. Como marido de uma das herdeiras da emissora, Faria é por si alguém que desloca ar pelos corredores nos quais flana em Brasília. Isso atraiu a ambição de Daniel Vorcaro e de Fabiano Zettel. Em fevereiro de 2024 o cunhado do ex-banqueiro, o pastor Zettel, resolveu dar match num negócio familiar que estava encruado nas mãos do marido de Patrícia Abravanel havia quase uma década e meia: o Complexo Eólico Fazenda São João/ Ventos de Galinhos.

Naquele momento, um ano e dez meses antes da liquidação do Banco Master, dois anos antes da liquidação da REAG DTVM, que expôs o apetite canibal de Zettel, só a argúcia e o desprendimento de alguém realmente atento ao que ocorre ao seu redor na Capital da República poderia ligar sinais de alerta e fazer Fábio Faria recuar de uma “grande negócio” firmado com Zettel que, agora, ecoa ao revés dele em todo esse furdúncio de fraudes e operações estranhas promovidas pela matilha “a turma do Banco Master”. A matilha é um coletivo daquelas criaturas que operavam na frequência dos canibais, mesmo. Tendo embolsado R$ 70 milhões de comissão naquele negócio dos Ventos de Galinhos, Faria teve Vorcaro e Zettel como bons amigos até o dezembro desgraçado (para eles) de 2025. A amizade acabou, ficou o constrangimento e o empenho, para o ex-deputado, ex-ministro de Bolsonaro, explicar que o negócio de 2024 foi feito entre “entes privados” e que não gerou nenhum negócio paralelo irregular como lançamento de debêntures ou empréstimos fictícios. O ex-banqueiro e seu cunhado deixaram o genro de Silvio Santos batalhando por reconstruir a reputação.

“Porque longe das cercas embandeiradas

Que separam quintais

No cume calmo do meu olho que vê

Assenta a sombra sonora dum disco voador.”

Canta Raul na estrofe final de Ouro de Tolo. E a sombra sonora do disco voador atropelou o empresário mineiro Flávio Carneiro, fazendo-o bailar nas curvas – mesmo que celestes – das fanfarronices sonhadas por Daniel Vorcaro, Augusto Lima e Fabiano Zettel como se possíveis fossem. Enfatiotado, conversa sagaz, Flávio Carneiro se deixou embalar no sonho de estar junto com aquela turma para se tornar uma espécie de dealer de opinião do mercado financeiro e da informação política construindo – com a ajuda deles – um sistema de controle de veículos que teriam peso sobre “stakeholders” (formadores de opinião no jargão da comunicação corporativa) escolhidos a dedo e com influência em Brasília e na Avenida Faria Lima, em São Paulo. Ou seja, no cérebro político e no coração financeiro do país.

Deu tudo errado e logo que o disco voador perdeu condições de voo o pesadelo desabou sobre a cabeça de todos. “Brazil Journal” e “Plato.BR”, controlados por Carneiro, lutam para restabelecer seus conceitos de independência que sequer estavam estabelecidos e por retomar o caminho limpo da construção da própria reputação ilibada (há imensa dificuldade nisso, pois a desconfiança em grande na contaminação tóxica das empresas de mídia do grupo com o dinheiro podre de Vorcaro). O projeto de comprar o controle os Diarios Associados, grupo falido de empresas de comunicação montado por Assis Chateaubriand nos anos 1960, foi para as calendas (ou seja, nunca acontecerá). Há quatro meses, Flávio Carneiro é outro dos ex-amigos de Daniel Vorcaro e de Fabiano Zettel que vive pedindo atenção para o fato relevante que não sai da ponta de sua língua: jurar que não era laranja – jamais foi! – de quaisquer investimentos midiáticos do complexo liquidado Master/ REAG. Tem dificuldade em receber o benefício da dúvida, pois os fundos de todos eram muito misturados e andavam juntos demais nos bons tempos que sempre acabam.

Na mitologia, a personagem Rei Midas transforma em ouro tudo o que toca. Era assim com os ex-banqueiros Daniel Vorcaro e Augusto Lima e o “pastor” e operador financeiro Fabiano Zettel até 18 de dezembro de 2025, quando o mundo deles caiu. Rapidamente se converteram nos renunciantes empesteados pelos próprios exageros que saltam da letra memorável de Ouro de Tolo, de Raul Seixas.

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