O carnaval foi, é e sempre será pura política

Nada se acabará na quarta-feira
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Esta coluna é publicada toda quinta-feira e ontem foi o fim oficial do carnaval. Há mais de dois anos, neste tempo inserido dentro de outro em que — dizem —, a sociedade brasileira está polarizada, temas diversos do cotidiano que invadem o noticiário foram tratados aqui. Hoje precisamos falar da máscara tirada durante a folia de 2026.

Uma falsa ideia permeia o senso comum de que política não deve se inserir no entretenimento. Aí vem os Jogos Olímpicos de Inverno e um atleta é desligado da competição por querer protestar contra a guerra, depois vem o carnaval e bota uma homenagem ao presidente Lula na avenida (mas não somente!), canta letras em Yorubá, traz o caleidoscópio que é a experiência negra. Aí vem o futebol e — mais uma vez — tenta desumanizar Vinícius Júnior. Não adianta fingir que não. É tudo política pura.

Não sejamos ingênuos. A Acadêmicos de Niterói sabia que a probabilidade de voltar à Série Ouro da Liga das Escolas de Samba era grande. Muito raramente uma agremiação que acabou de subir permanece de imediato. O rebaixamento não foi surpresa. Cientes desta  possibilidade, foram para o tudo ou nada trazendo um tema para lá de polêmico: A vida de Luiz Inácio Lula da Silva. Deixaram a nítida sensação de que sabendo do que aconteceria, implodiram o muro das aparências e decidiram que seriam “a” notícia deste carnaval. E foram.

O desfile bem-humorado trouxe alas questionando os conservadores, contou a história dos últimos 15 anos do país no abre-alas e, queiram ou não, levantou a torcida com um refrão chiclete. O resultado, além de dominar as mídias, foi instigar a curiosidade gerando um aumento impressionante de seguidores nas redes sociais e inscrever o nome da escola num episódio que será lembrado por muito tempo.

Embora o desfile de Niterói seja o caso mais explicitamente político, visto que trouxe a vida do presidente em exercício, todas as outras o foram. Desde os artistas desrupitivos escolhidos como enredo — Ney Matogrosso (Imperatriz Leopoldinense); Rita Lee (Mocidade Independente de Padre Miguel), Carolina Maria de Jesus (Unidos da Tijuca), Conceição Evaristo (Império Serrano), ou ainda as paulistanas Léa Garcia (Mocidade Alegre) e o grupo Geledés (Mocidade Unida da Mooca) até os que vieram honrando a ancestralidade negra. Estas últimas então, mais políticas impossível.

Enquanto os desfiles passavam décadas exaltando a monarquia e a república, desfilando generais, condes, marquesas e imperadores, estava tudo certo. Também estava tudo certo quando forçaram todas as agremiações a desfilarem o “descobrimento” do Brasil, nos 500 anos. A coisa começa a incomodar quando as escolas decidem parar de fingir que não são profundamente, tremendamente e radicalmente… pretas.

Imagine Virgínia Fonseca, a rainha de bateria milionária e casada com um jogador negro retinto e talentosíssimo chamado Vinícius Junior, usando sua voz junto aos 50 milhões de seguidores para denunciar o absurdo da desumanização que ele sofre? O silêncio é escolha política.

Por fim, mais não menos importante, político também foi o desfile da campeã carioca, a Viradouro. Trazendo Mestre Ciça como tema, a escola honrou toda a comunidade do samba e emocionou todos os trabalhadores desta indústria que gera bilhões, mas que vê pouco desse dinheiro retornando para os que fazem a festa acontecer. Quando Mestre Ciça ergueu o troféu de campeão, estava acompanhado de todos os que ao longo da história foram cruelmente punidos pelo terrível crime de portar um pandeiro.

Nada é neutro. Tudo conta uma história.

Que venham as próximas em 2027.

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