Por Lúcio de Castro
Jogos Panamericanos de 2007.
Jogos Mundiais Militares de 2011. (*)
Copa das Confederações de 2013.
Copa do Mundo de 2014.
Olimpíadas de 2016.
O esboço de quadro acima grita.
Por trás dele, estão os bilhões em reais gastos.
Foi a “Década dos Grandes Eventos” no Brasil.
Você pode pegar os fatos acima e partir para as mais diversas análises. Cabe qualquer coisa. Sociológica, econômica, urbanística, política, geopolítica, policial, e, pasmem, por último, mas jamais menos importante, até esportiva.
Nesse disneylândia de pautas para um repórter, vou ficar, por vício e por amor, com o que o que os olhos enxergam mais de perto: o viés da cobertura da imprensa esportiva sobre algo tão gigantesco ao longo dessa década.
Um breve olhar de botequim, sem maiores pretensões acadêmicas. E algumas hipóteses.
O fracasso é o ponto de chegada da viagem por esses 10 anos de espiada no que foi a cobertura da “década de grandes eventos”.
Como pode ser concebível que nesses 10 anos, nenhuma redação formou uma força-tarefa especial para estar debruçada sobre os milhões que sumiam? As manchetes reproduziam declarações da cartolagem de modo geral, o esplendor da festa.
Quando algo além era mostrado, estava em 90% das vezes a reboque de Ministério Público Federal ou PF.

Tenho duas hipóteses para tentar chegar a entender tal fracasso. Que se completam.
Em primeiro lugar, está o eterno conflito entre “jornalismo esportivo x direitos de transmissão”.
Já abordado por outros antes, pauta de reflexão em congressos de jornalismo mundo afora e artigos.
Em síntese bem breve: os veículos detentores de direitos de transmissão, para estar bem com os detentores e garantir lugar na ponta da próxima concorrência num mercado cada vez mais fragmentado e concorrido entre TVs abertas, cabo, streaming e o que mais vai chegando, abrem mão de sua missão original e a maior possível de quem tem por obrigação fiscalizar mazelas em tudo o que envolve interesse público, o que é o caso.
O resultado disso é o que convencionei a chamar de “o jornalismo de cócoras”.
Mais acentuado em alguns lugares, um pouco amenizado em outros.
Lugares e empresas que conseguem melhor separar “Igreja x Estado”, o velho e secular conflito que, afinal, é um dos fatores que decidem o grau de funcionamento das instituições de uma nação. Aqui, no caso, “Igreja x Estado” traduzido por “jornalismo x direitos de transmissão”.
Nos lugares que obtiveram algum êxito nessa separação, o show dos eventos é vendido como deve ser.
Como o Galvão Bueno local berrando que tudo é espetacular e emocionante nos 90 minutos de um jogo ou seja lá qual for a modalidade. Separa-se evento e jornalismo e o segundo faz seu dever de casa no resto da programação ou editoria.
Por aqui deu errado.
“Igreja x Estado” desfilam irremediavelmente abraçados no jornalismo esportivo. Inseparavelmente.
O resultado, novamente em resumo bem apertado, é que o jornalismo fica aleijado de sua função primordial. Se alguém ousar contrariar esse limite, o próprio detentor de direito se achará no direito de “pedir a cabeça” do jornalista e acabar com esse problema. Na maior parte das vezes, recebem numa bandeja.
Essa é o primeiro ponto mencionado acima.
O segundo ponto é consequência direta dele.
O que se criou ao longo de anos sem que o ofício fosse desempenhado em plenitude foi a única coisa que poderia acontecer, afinal, de pé de banana não sai laranja: uma terrível falta de referências para o jovem e a jovem “foca”, o novato. Salvo as boas sempre citadas exceções de sempre.
Mais resumido ainda: a falta de uma escola para que jovens se formem e se versem nas coisas do ofício entendendo bem sua missão.
Tudo isso agravado pela era do entretenimento. A era das gracinhas. Que naturalmente podem ter seu lugar. Mas em outro tipo de espaço.
Toda essa preliminar é para dizer e explicar: assim chegamos até aqui.
Assim chegamos ao que aconteceu nesse país na área de jornalismo esportivo a partir do ano da graça de 2021.
O ano em que o futebol começou uma transformação profunda, que segue.
Com a aprovação das Sociedades Anônimas de Futebol (SAF), uma corrida do ouro digna do Velho oeste americano começou por aqui.
Com algumas características parecidas. Como uma legião de aventureiros em busca do seu quinhão.
Alguns desclassificados, com prontuário e não currículo. Na dúvida, façamos a exceção de praxe: “salvo boas exceções”.
De maneira geral, sem falar em particular de caso específico, gente com histórico de golpes, falências e fraudes. Déficits acumulados, alavancagens sem fim, venda de ações e empréstimos levantando dinheiro novo até quebrar, balanços financeiros que valem uma nota de três, estruturas complexas por trás que ninguém irá entender ou rastrear, uma rede de offshores, paraísos fiscais, pirâmides ao longo da vida, o velho e bom Ponzi. E uma legião de enganados que acreditaram que iam ganhar muito dinheiro botando capital ali na fila eterna para receber. E ao fim, só essa pessoa se dá bem. Sempre. Até o próximo negócio. Até o próximo trouxa.

Sempre legitimados por uma regra mundial que vale até nos países mais ricos: poderoso, por pior passado que tenha, sempre dá um jeito de arrumar um salvo-conduto na Justiça que o inocenta. E com isso ganha um “nada consta” como aval. Sim, lá fora também existem “grandes acordos nacionais”.
Ajudados (e muito) por uma das mais sórdidas manobras dos últimos tempos: no apagar das luzes da chegada da lei das Safs, Paulo Guedes, aquele mesmo do “Damares, deixa todo mundo se fuder”, abriu de vez a porteira para todo e qualquer tipo de aventureiro. Para 171, bandido, crime organizado, oligarca com dinheiro sujo e testas de ferro, lavanderias e quem mais chegar e quiser para ter uma SAF e chamar de sua. Até o crime organizado.
Foi no dia 9 de agosto de 2021. O governo Bolsonaro meteu a colher na lei das SAFs e vetou os dois pontos que garantiam o mínimo de transparência nessas sociedades. Paulo Guedes em intervenção direta, desobrigando fundos de investimentos a ter que revelar o nome de quem está por trás da sociedade. E desobrigando a divulgação em site do clube de quem eram os acionistas. Pesquisador com grande obra na área, Irlan Simões tratou do tema seguidamente.
Com a explicação de que isso era “burocracia excessiva” e que “poderia desestimular investimentos”, o proxeneta da Faria Lima que não queria doméstica na Disney escancarou todas as portas para que as SAFs viessem a se tornar valhacoutos de uma escumalha mundial. De colarinho branco.
Foi assim que cumpriu seu número predileto e proferiu a já clássica frase, símbolo de anos que ainda terão a devida dimensão de horror mais bem dimensionadas em algum momento: “Todo mundo está achando que, tão distraídos, abraçaram a gente, enrolaram com a gente. Nós já botamos a granada no bolso do inimigo”, como na famosa reunião. Agora no futebol.
Se por acaso viu Paulo Guedes escancarando as portas das SAFs para qualquer sorte de malfeito, a imprensa não deu. Se não viu, fracassou do mesmo jeito.
E o fracasso seguiu. Um dia a cobertura das SAFs será caso de congressos de jornalismo.
Manchetes, programas, debates. Todos venderam como o céu na terra. Shangrilá era logo ali, um sujeito chegando e falando grosso que era de outra galáxia, que era nova realidade. E isso já tava na primeira página.
Assim chegou John Charles Textor.
“Bilionário”, diziam todas as vozes.
“Empreendedor de sucesso”. “Gênio”. A bem da verdade, isso ele é. Só não se sabia para que lado. Também a bem da verdade vale ressaltar que genialidades parecem potencializadas quando do outro lado se tem uma multidão ávida a ser enganada. A clássica ideia de que todo dia um malandro e um otário se cruzam. É quando a mágica acontece.

As manchetes se esmeravam em ser cada dia mais doces para o americano. Que, sem disfarçar, deixava claro que estava se divertindo muito com tanto servilismo e bajulação. Como um colonizador que chega para distribuir espelhinhos e levar ouro.
Até uma inusitada competição na imprensa teve início: quem já estava íntimo suficiente para chamar de “John”. Quem falava no celular com o “John’. (E ele se divertindo, parece que manipulava, quer dizer, falava com um monte). E aí, a glória da humanidade, quem jantava com o “John”. A velha promiscuidade sob a cínica capa de “falar com as fontes” que disfarça vida social e servilismo em muitos casos. “John” numa bancada para falar o que quisesse e ser elogiado parecia o Olimpo.
O preço de estar com o “John” era reproduzir tudo o que ele queria. Acriticamente.
Diante de um cenário tão sem pudor, sem vergonha, orgulho próprio e um mínimo de dignidade em cumprir o papel dessa imensa parcela da imprensa, o “John” viu que podia escalar. Dar um vôo mais alto em seu esculacho com os colonizados.
E eis que, com base na cabeça dele mesmo, sem jamais apresentar uma prova sequer, apontou o dedo e generalizou que existia corrupção e roubo no futebol brasileiro. Afirmou ainda que “os jogos do Botafogo de 2022 e 2023 tinham sido manipulados contra os principais adversários”.
Muito longe que jogos não possam ser manipulados por aqui, como em qualquer lugar do mundo. O surreal era repercutirem e debaterem semanas e meses a fim sem que ele apresentasse qualquer prova. Em qualquer lugar do mundo, não teria ido além do pé de página com tanta fragilidade.
Já totalmente sem limites, no dia 22 de abril de 2024 se sentou no Senado Federal como protagonista da “CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas”. Jurou falar a verdade.

E mais uma vez mentiu. Dessa vez, dizendo que tinha comprado o negócio multiclubes que engloba o Botafogo com o dinheiro que fez em empresa anterior dele. Que hoje todos sabem não ser assim. A começar pelo “dinheiro dele comprando o Botafogo”.
Apesar do juramento e da lei do Congresso para quem está sob juramento, mentiu e saiu de lá andando.
Realmente o céu não tinha mais limites.
Muito mais do que a própria figura, ainda que extremamente arrogante, muito mais do que as próprias SAFs, era o papel da imprensa naquilo tudo que despertava a profunda indignação nesse reportero aqui.
Aquilo tudo era por demais ofensivo a crença irmanada em Gabo de que “o jornalismo é uma paixão insaciável”.
Sem nenhum sentimento de justiceiro como um apressado pode se assanhar. Que isso não combina com bom jornalismo. Apenas com a convicção de que efetivamente jornalismo é fiscalizar poderes e poderosos.
Ou como ensina Giannina Segninni, maestra soberana que lá de sua Costa Rica mudou tanto do que entendíamos como as possibilidades e do que conhecíamos da profissão, que nos passa a lição que guardo como lei:
“O jornalismo que praticamos deve ser um jornalismo incômodo”.
E foi assim e só por isso que “Os segredos de Textor” começaram a ser contados.
No processo, na doce viagem da apuração que vai casando as peças do quebra-cabeça veio o susto.
Não parava mais de jorrar coisa daquela caixa-preta.
Uma matéria só já não dava conta.
Eram tantos personagens. Alguns vivendo esquecidos nas páginas policiais. Muitos como vítimas.
Era uma infinidade de documentos públicos produzidos em mais de duas décadas. Registros por toda parte. Nos tribunais americanos, nos processos da Comissão de Valores Mobiliários, no histórico de falências, em instituições da burocracia da Flórida, nas denúncias por ser o mentor de pirâmides financeiras. No caminho do dinheiro. Nas conexões. Uma rede de negócios extensa e intricada que passava por paraísos fiscais, múltiplas camadas, a intimidade irrecorrível de contestação com um cambono de oligarcas.
Sobrava documentação, apuração. Mas era tudo tão complexo que foi preciso desenhar para entender.
Consulta impagável a especialistas da área econômica e do mercado, gente capaz de montar o organograma e a teia dessa estrutura extensa e nebulosa. Sofisticada. Que ao fim, existe propositalmente para driblar leigos e incautos.
Em algum momento, era preciso parar e botar a matéria no papel. Senão a caixa-preta não acabava nunca mais. E ela ainda está aí, com muita coisa para sair.
Ao fim, o que toda apuração deseja no início: era possível entender o modo de ação que se repetia sistematicamente. A vida toda.
Tradução: modus operandi.
Como quem analisa um jogador de vôlei que ataca 90% das suas bolas na diagonal e torna possível entender quem está do outro lado.
Tinha muito mais. Uma sequência de fatos novos, a chama de toda reportagem maior.
Faltavam alguns detalhes.
Eram muitos registros, entre eles o testemunho de quem conviveu com Textor. Nenhum em “on’, como se fala no jargão. O temor do entorno permitia entender melhor ainda o outro lado.
Sobravam truculência, palavras e movimentos agressivos na direção de quem ousava entrar no caminho. A desqualificação do mensageiro como regra, a calúnia. E a mentira, sempre. A ameaça do assédio judicial por alguém poderoso que soube jogar com a justiça de diferentes países ao longo dos anos com todo seu poderio e influência. Tudo isso explicava o silêncio de quem passara por sua vida. Dos tantos ouvidos. Sempre em off.
Faltava um título para a série. Podiam ser tantos. Gostava de “A Teia de Textor”. Gostava muito de “O Mercador de Ilusões de Kirksville”, menção ao pedaço do Missouri onde ele nascera. E que tentava dar conta do cara que pegou dinheiro público na Flórida com a promessa de ali construir “a Hollywood do Oriente”. Que nunca veio. Evaporou. O dinheiro também. Ao fim, sempre um acordo judicial para resolver tudo. Sempre.
Acabou sendo martelo batido para o que mais parecia dar conta da caixa-preta e de tanta coisa jamais publicada: “Os Segredos de Textor”.
Faltava muito mais.
Nesse cenário de “jornalismo de cócoras”, faltava quem iria publicar.
O ICL Notícias topou. Na figura de Chico Alves e também dos editores que bateram o martelo naquela reunião semanal que o repórter aguardava com ansiedade para saber o veredito. O polegar indicado para cima ou para baixo, sai ou não.
E então, tudo ok, depois de meses entre apuração, escrever e publicar, quis o destino que viesse a primeira peça pregada. Que era boa demais para não rir.
Reportagem programada junto aos editores algumas semanas antes para sair enfim numa segunda-feira, 19 de agosto. No domingo, um Botafogo jogando um futebol deslumbrante atropelou o Flamengo. Placar final: 4 x 1. Fora o baile.
Por absoluta e óbvia coincidência e obviamente sem qualquer relação com a publicação no dia seguinte, o time do repórter.

Ás 5h da madrugada, como programado já no site, subia a primeira reportagem de quatro. “Os segredos de Textor: o lado B do milionário americano que comprou o Botafogo”.
Com o andar da manhã, foram surgindo as primeiras reações. Nenhuma falava do tanto que começava a ser revelado. Todas desqualificavam o mensageiro e andavam para a gravidade de tudo o que estava ali.
Provavelmente 99% dos comentários eram sobre o time do repórter e a relação com a publicação.
Aquilo era espetacular demais para aborrecer. Talvez fosse mais espetacular do que a velha teoria da conspiração de que 22 homens em silêncio venderam uma Copa do Mundo para a Nike.
Pois então vale o regozijo do cenário criado: o jogo acaba lá pelas 20h de domingo. De cabeça inchada, o repórter resolve apurar algo para falar da vida do dono do time que surrou o dele.
Ás 4h30 tem quatro reportagens, cada uma com umas 5 páginas, e, melhor ainda, enviou pedido de “outro lado” para Textor como manda o bom jornalismo. (Essa aliás uma das melhores peças da coleção de Textor: mesmo sendo fácil provar que os pedidos de “outro lado” foram feitos, garantiu que não fora procurado. E afirmou com convicção. O tempo mostrou que era sistemático.).
Tava só começando.
A caixa de mensagens do site, as redes sociais do repórter, era tudo um saboroso mar de ofensas.
Diante do que, a lembrança de que para alguma coisa envelhecer tem que servir. E alguma casca ter se formado ao longo dos anos.
Assim, a gritaria vira diversão. O surrado “o tempo é o senhor da razão” vira certeza. Tudo vira material fascinante de estudo da estupidez humana.
Com o pecado da citação de um dos maiores brasileiros da história, Dom Hélder, para quem “tudo era graça”. Como dizia quando era ofendido e alvo de mentiras sórdidas da ditadura. Sem qualquer comparação com o Dom. Que seria pecado mortal. Só com a benção de que o tempo e algumas casca tenha feito achar tudo graça.
Fica sempre mais fácil. Aos conselhos de “fechar as redes”, compartilhei com os mais próximos o aviso para também desfrutassem. Perder aquela diversão, jamais.
Era uma peça de ficção a reação a tudo. A mais perfeita tradução de “distopia”.
Ainda teve algo mais grotesco: uns poucos nem sei se “jornalistas”, mas ao menos assim autoanunciados, explicando nas redes como “nada daquilo existia”. Jornalistas de quinta divisão no ofício, sem nada relevante publicado, dando aula. E a massa embevecida com as explicações. Tinha influencer das redes, tinha gente que nunca vi numa reportagem travestido de jornalista, tinha podcast, tinha tudo. Cada um mais engraçado do que o outro.
Teve o silêncio de muitos.
Mas teve o abraço e as palavras definitivas dos melhores. Bastava. De um lado eles. Do outro… a quinta divisão, a turma daquele páreo de matungos do jóquei.
Mário Magalhães, gigante, discípulo maior do maior Jânio de Freitas, postou logo cedo: “Grande reportagem: o repórter Lucio de Castro escrutina no @ICLNoticias negócios do empresário John Textor. 1º capítulo saiu hoje. Coragem de quem investiga e de quem publica. Barra pesada. Nem a mais ardente paixão negará a relevância das informações”.
Juca Kfouri todo dia. Milly Lacombe escreveu coluna como sempre corajosa sobre, Xico Sá falou por diversas vezes, Dudu Monsanto e José Trajano. Ficando por aqui com o risco de sempre ser injusto esquecendo, não pouparam palavras sobre a série em momento algum.
Do primeiro elenco, Mauro César esteve na primeira hora presente, como de hábito em abraço nas suas redes. “Devastador! Reportagem de Lúcio de Castro, o maior repórter do Brasil”.
Do exterior chegava muita coisa, mensagens do reportariado do primeiro anel do mundo. França, Estados Unidos, todo mundo estarrecido e repercutindo querendo saber mais detalhes.
A série seguiu.
Era tudo tão fascinante para entender sobre reações e comportamentos de rebanho que estamos até hoje falando disso.
Para completar tudo, a bola tava entrando naquele 2024 para o Botafogo. E o futebol ensina que quando a bola tá entrando, a cartolagem pode tudo.

Como esperado e mais do que programado por conhecer o modus operandi do outro lado, veio a reação de Textor.
Revisitar as respostas de Textor passado algum tempo e, a essa altura com tudo tão mais claro para não só uma torcida, um país, mas como para o mundo inteiro, não deixa de ser mais uma vez divertido. Soa porém um tanto quanto assustador ao se deparar como envelheceram mal tais respostas. E como já não arrastam mais a horda de inocentes de antes. Provavelmente nenhum.
Antes tarde do que nunca. O rei está nu.
A resposta já começa exaltando a cruzada do empresário na luta pelo bem, de alguém que desembarcou aqui para transformar nosso futebol, e, porque não, um país. Sobre as reportagens: “claramente escritos com a intenção maliciosa de prejudicar a reputação do Sr. Textor e o trabalho que ele e sua empresa estão fazendo para trazer mudanças positivas ao futebol no Brasil”.
Ok, adiante. Um missionário. Melhora:
“O Sr. Textor escolheu desafiar forças poderosas no Brasil, melhorar os padrões de governança e acabar com práticas de corrupção”. Espetacular.
Sagaz sempre, como já dito, soube apontar e criminalizar o mensageiro. Sabia que o principal para ele era falar ao público dele mesmo. No caso, a criminalização era apontar o time do repórter. Algo desde sempre sabido por todos e que nunca mudou nada.
Nas tantas reportagens sobre cartolas do Flamengo e tantos processos por parte desses. E também em insinuações de algum objetivo “obscuro”, sem respeitar a história alheia.
“Não está claro se a campanha de difamação lançada pelo Sr. de Castro vem de sua perspectiva como um torcedor emocional e fanático do Flamengo, ou se vem de um lugar mais obscuro, inspirado pelos alvos da cruzada pública do Sr. Textor contra a corrupção. A única coisa da qual podemos ter certeza é que o Sr. Castro não agiu como um jornalista independente neste projeto, em busca da verdade”. Ora, temos um cruzado contra a corrupção!
A sabida truculência, o modo de destruição de reputações no melhor estilo Trump, chegou ao delírio de afirmar que teria o poder de bater o martelo sobre a carreira de alguém com décadas no ofício, dezenas de prêmios entre os mais importantes do mundo inteiro.
“Agora sacrificou sua reputação em favor de seus motivos sinistros e questionáveis. Simplificando, ele perdeu sua cabeça de (torcedor do) Flamengo”. Errou. Seguiram e seguem convites para falar de jornalismo no mundo inteiro, palestras, reportagens publicadas aqui e fora do país. A pretensão e arrogância transformadas em algo meio patético com o tempo, ainda mais quando se sabe sobre “sacrifícios de reputação”.

Esbarra quase na diversão quando fala da relação umbilical nos negócios com o russo Sergey Skaterschikov, financista com amplas conexões com oligarcas de seu país. A reportagem havia mostrado a participação dos dois juntos em vários momentos. Até nas conexões documentadas de empréstimos de US$ 100 milhões do qual, foi mostrado pela apuração, foi preciso recuar porque não
passavam ao crivo do KYC pelo histórico. Como tudo, documentado.
Melhorava. Textor dizia que apesar de todas as relações comerciais com o russo, “não tinha conhecimento do seu passado”, sobre quem “acreditava ser uma boa pessoa”. Aqui: “Tudo isso é baseado no relacionamento relativamente recente do Sr. Textor com o Sr. Skaterschikov, que Textor acredita ser uma boa pessoa e um banqueiro de investimentos extremamente capaz. O Sr. Textor não tem conhecimento de todo o seu passado, embora o Sr. Skaterschikov tenha sido extremamente útil para os negócios de Textor, principalmente como consultor de banco de investimentos.”
Melhor ainda é ler ainda hoje alguém falando sobre relação com russo ser “invenção”, quando o lado do russo enviou resposta confirmando os vários negócios através de sua Index Atlas: “A IndexAtlas co-investiu e/ou aconselhou o Sr. Textor em diversas transações no passado”. Skaterschikov estava entre tantos negócios antes, presente na aquisição do Olympique de Lyon, nas tratativas fracassadas com o Benfica. Documentos na reportagem 1.
Melhora ainda quando lia, no começo da derrocada do americano, questionamento sobre “cadê o russo”. O russo de tantos negócios antes. Mas sou eu que devo responder sobre a razão por ele não estar aparecendo agora para mais um resgate.
O fim é uma profecia que ficará através dos tempos, com sua declaração de amor ao povo brasileiro.
“Será preciso muito mais do que o trabalho de um jornalista investigativo equivocado para diminuir o entusiasmo e o amor do Sr. Textor pelo povo do Brasil”.
Parece que não foi. “O entusiasmo e o amor pelo povo do Brasil” parece com hora marcada para acabar.
Deixando o de sempre para trás e mirando tudo de seu exílio dourado: um inventário de destruição, terra arrasada e caminhos tortuosos para quem fica.
LEIA AS REPORTAGENS DA SÉRIE:
Os segredos de Textor: o lado B do milionário americano que comprou o Botafogo
Os segredos de Textor (2) — Novos negócios, velhas acusações