Por Cleber Lourenço
A Polícia Federal (PF) ligou o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho Pereira de Oliveira, ocorrido em 2022 em São Luís, a um esquema investigado por corrupção e desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares no Maranhão.
A apuração avançou sobre uma possível rede criada para dificultar o esclarecimento do caso, com suspeitas que envolvem a segurança pública estadual, um agente da própria PF e chegam a contatos do senador Weverton Rocha (PDT-MA) com o ministro Humberto Martins, do Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Os detalhes aparecem em decisões cujo sigilo foi derrubado nesta sexta-feira (14) pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Os documentos conectam investigações que tramitavam separadamente e mostram como um homicídio inicialmente tratado como resultado de uma discussão passou a ser relacionado pela PF à disputa por valores de contratos públicos e aos atos que teriam ocorrido depois para impedir o avanço das apurações.
Ao reunir os casos, Dino registra que são investigados crimes de corrupção e peculato envolvendo recursos públicos e execução de emendas parlamentares, fatos “supostamente conexos com homicídio ocorrido em 2022”. Em outra passagem, a decisão resume a tese da PF: “no desenrolar de tratativas ilícitas envolvendo dinheiro público aconteceu um homicídio”.
João Bosco foi morto a tiros por Gilbson Cutrim Júnior, posteriormente condenado pelo crime. A nova frente da investigação não discute a autoria dos disparos, mas o que teria provocado a reunião que terminou no assassinato.
Gilbson relatou à PF que havia uma disputa pela divisão de valores recebidos de empresas que ele intermediava. Segundo seu depoimento, integrantes do grupo desconfiavam que João Bosco ficava com parte do dinheiro sem repassá-la aos demais.
Foi nesse contexto que, em 19 de agosto de 2022, Gilbson afirma ter sido chamado para uma reunião por Daniel Brandão, atual presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA). No local estavam também João Bosco e Werberth Macedo Castro, conhecido como Beto Castro.
A decisão registra que “a discussão travada no local girou em torno da divisão dos valores decorrentes dos pagamentos viabilizados”. Daniel, segundo Gilbson, permaneceu no início da reunião e deixou o ambiente momentos antes dos disparos.
A presença do presidente do TCE-MA passou a ser um dos pontos de atenção da PF porque, segundo a investigação federal, ela não foi devidamente explorada na apuração original do homicídio.
Os documentos apontam “diversos pontos questionáveis” na condução do caso pela Polícia Civil e mencionam uma “deliberada decisão de não incluir o atual presidente do Tribunal de Contas Daniel Brandão no contexto da reunião que culminou no referido assassinato”.
A PF sustenta que havia elementos para aprofundar essa participação desde o início. Daniel havia sido nominalmente citado, mas não teve seu depoimento colhido.
As suspeitas sobre o que aconteceu depois do homicídio cresceram com o depoimento de Lorena Santos. Ela relatou que Gilbson telefonou para Daniel e Marcus Brandão ainda na delegacia e que vantagens teriam sido oferecidas para que ele não revelasse o contexto do crime.
Daniel teria prometido cargos de assessoria na Assembleia Legislativa. Marcus teria oferecido um imóvel e apoio financeiro contínuo. Segundo a decisão, a condição seria o “silêncio absoluto acerca do contexto real do crime e da participação de agentes públicos”.
As acusações estão sob investigação e não representam uma conclusão sobre eventual responsabilidade de Daniel ou Marcus Brandão.
Dino determinou que as delegadas Katherine Chaves e Caroliny Fernanda dos Santos Santana fossem ouvidas pela PF para esclarecer pontos da investigação original e as suspeitas de interferência na apuração.
Dino aponta “núcleo de contrainteligência”
É nesse ponto que aparece Raimundo Soares Cutrim, ex-delegado da Polícia Civil e então secretário de Estado.
A suspeita é de que Cutrim tenha usado sua experiência policial para pressionar pessoas ligadas ao caso e tentar interferir nas versões apresentadas às autoridades. Dino descreveu a atuação atribuída a ele como uma espécie de “núcleo de contrainteligência do grupo investigado”.
Há gravações que, segundo a PF, mostram Cutrim orientando familiares de Gilbson sobre como deveriam alterar seus depoimentos.
Também há dinheiro no centro dessa frente. O pai de Gilbson afirmou ter recebido R$ 160 mil em espécie, divididos em parcelas de R$ 80 mil, R$ 50 mil e R$ 30 mil, e apontou Marcus Brandão como a origem dos recursos.
Dino decretou a prisão preventiva de Cutrim. Como ele tem mais de 70 anos, a medida foi convertida em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. O ministro também determinou seu afastamento do cargo de secretário de Estado e proibiu entrevistas, manifestações públicas e acesso às redes sociais.
Suspeita chegou à própria PF
Outra frente levou a investigação para dentro da Polícia Federal.
O agente Edvar Rodrigues dos Santos é suspeito de acessar informações sigilosas de uma apuração da qual não fazia parte e procurar pessoas diretamente envolvidas no caso.
O histórico do policial reforçou a preocupação dos investigadores. Edvar havia sido demitido da PF em 2019, e um dos fundamentos da punição foi justamente o vazamento de informações sigilosas da Operação Capitanias Hereditárias/Donatários para lideranças políticas do Maranhão, inclusive conteúdo de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.
Ao comparar os episódios, a própria PF classificou o paralelismo como “inequívoco”: nos dois casos, a suspeita envolve o uso da posição funcional para acessar informações sigilosas e repassá-las a pessoas interessadas no resultado das investigações.
Dino determinou o afastamento do agente por 120 dias e restringiu seu acesso às instalações e aos sistemas da corporação.
Contatos de Weverton com ministro do STJ
A frente de possível obstrução chegou também ao Superior Tribunal de Justiça.
Dados extraídos do celular do senador Weverton Rocha (PDT-MA) revelaram comunicações reiteradas com o ministro Humberto Martins entre janeiro de 2023 e outubro de 2025. A PF encontrou mensagens, áudios, telefonemas e arquivos compartilhados.
Para os investigadores, o material mostra “uma relação de proximidade pessoal entre os interlocutores, que ultrapassa os limites de uma interação meramente formal ou institucional”.
Também foram identificados pedidos feitos pelo senador ao ministro com referências a pessoas que tinham processos sob a relatoria de Martins.
Uma sequência ocorrida em 2 de junho de 2025 chamou especialmente a atenção.
Naquele dia, Weverton e Martins trocaram mensagens e conversaram por telefone durante aproximadamente cinco minutos. Depois, o senador enviou um áudio tratando do horário em que encontraria o ministro.
Também em 2 de junho, por determinação de Humberto Martins, Gilbson Cutrim Júnior foi transferido da Penitenciária de Pedrinhas, no Maranhão, para Brasília.
A PF apura se Weverton tentou influenciar uma sindicância que tramitava no STJ. A investigação registra que, posteriormente, não houve novas movimentações decisórias relevantes no procedimento e foram relatadas dificuldades de acesso aos autos e demora na análise de pedidos considerados urgentes.
Os contatos não comprovam interferência de Weverton nem irregularidade praticada por Humberto Martins. A eventual relação entre essas conversas e o andamento do procedimento é justamente um dos pontos que a PF busca esclarecer.
Ao conectar os diferentes procedimentos, Dino registrou que, na visão dos investigadores, o homicídio de 2022 levou a “sucessivos atos tendentes a impedir ou embaraçar as investigações e a atuação do Poder Judiciário”, em episódios que passaram pela Justiça estadual, pelo STJ e chegaram ao STF.