Por Cleber Lourenço, Igor Mello e André Uzêda e Juliana Dal Piva
A Polícia Federal prevê concluir nos próximos 60 dias as oitivas de duas investigações ligadas a Daniel Vorcaro que classifica como em “estágio avançado”: uma sobre o suposto pagamento de vantagens indevidas a servidores do Banco Central e outra sobre a atuação do grupo conhecido como “A Turma”.
A avaliação consta de relatório da PF de 27 de agosto, que integra o material cujo sigilo foi retirado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A corporação afirma que, além das oitivas em andamento, ainda precisa concluir análises bancárias e examinar materiais apreendidos.
Um dia depois da elaboração do relatório, na sexta-feira (28), Vorcaro foi ouvido por cerca de quatro horas justamente na investigação sobre a suspeita de cooptação de servidores do Banco Central. O ex-controlador do Banco Master negou ter corrompido os investigados e sustentou que os pagamentos sob apuração estavam relacionados a negócios legítimos.
A informação da PF de 27 de agosto separa as apurações em duas “hipóteses criminosas conexas, porém distintas”.
A primeira trata da suspeita de corrupção de servidores do Banco Central. A segunda investiga a atuação de “A Turma”, grupo que, segundo os investigadores, teria sido utilizado para obter informações sigilosas e agir contra pessoas consideradas adversárias dos interesses de Vorcaro e do Master.
“Ambas as investigações se encontram em estágio avançado, pendentes apenas a conclusão das análises bancárias e o exame do material apreendido. As oitivas relacionadas aos fatos já foram iniciadas, com previsão de conclusão nos próximos 60 dias.”
A previsão foi registrada pela PF no documento assinado em Brasília em 27 de agosto. Os 60 dias mencionados dizem respeito especificamente à conclusão das oitivas, e não ao encerramento integral dos dois inquéritos.

Vorcaro foi ouvido sobre servidores do BC
Na frente relacionada ao Banco Central, a PF investiga a relação de Vorcaro com Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que ocupavam postos ligados à fiscalização e supervisão bancária.
A suspeita dos investigadores é de que os dois tenham recebido vantagens financeiras enquanto auxiliavam Vorcaro informalmente em assuntos de interesse do Banco Master. A investigação apura, entre outros pontos, se houve repasse de informações internas, orientação na elaboração de documentos e auxílio na estratégia adotada pelo banco diante do próprio órgão responsável por fiscalizá-lo.
Vorcaro foi interrogado sobre essas relações na sexta-feira (28). O depoimento estava inicialmente marcado para o dia anterior, mesma data em que a PF concluiu o relatório agora tornado público, mas foi adiado devido a problemas técnicos na videoconferência.
Durante a oitiva, o banqueiro negou ter obtido informações privilegiadas ou corrompido servidores do BC. Também afirmou que as operações financeiras investigadas tinham justificativas legítimas. Segundo a defesa, Vorcaro respondeu aos questionamentos e negou “qualquer ato de corrupção envolvendo os servidores mencionados na investigação”.
Ao final do interrogatório, porém, Vorcaro voltou a sinalizar interesse em fechar um acordo de colaboração premiada. Segundo relatos sobre o depoimento, afirmou que, em um ambiente de colaboração, poderia “falar muito mais coisas” sobre o assunto. A defesa também declarou que ele está disposto a prestar esclarecimentos mais amplos caso tenha a possibilidade de colaborar.
Paulo Sérgio e Belline negam irregularidades e favorecimento ao Banco Master.
Segunda investigação mira ‘A Turma’
A outra investigação que a PF afirma estar em estágio avançado trata de “A Turma”, nome atribuído a um grupo que aparece nas apurações sobre a estrutura montada em torno de Vorcaro.
Segundo a investigação, integrantes do grupo são suspeitos de atuar na obtenção de informações sigilosas e em ações de monitoramento, intimidação e coerção contra pessoas consideradas adversárias dos interesses do banqueiro.
A existência dessa frente investigativa já era conhecida. O relatório de 27 de agosto, no entanto, mostra como a própria PF avalia atualmente o andamento do caso: as oitivas já começaram, há uma previsão de 60 dias para concluí-las e restam análises bancárias e do material apreendido.
Material apreendido ainda está sob análise
As duas investigações derivam de medidas cautelares adotadas no âmbito das apurações sobre o Banco Master. No documento, a PF ressalta que ainda não terminou de examinar tudo o que foi recolhido.
O relatório afirma que estão pendentes a conclusão das análises bancárias e o exame do material apreendido. Em fevereiro, Mendonça já havia autorizado o fluxo normal de perícia de cerca de uma centena de dispositivos eletrônicos recolhidos nas operações relacionadas ao caso Master, além de diligências que não dependessem de nova autorização judicial.
A previsão de 60 dias cria agora um horizonte concreto para uma etapa das duas investigações. No caso envolvendo o Banco Central, esse cronograma já começou a se materializar com o depoimento de Vorcaro no dia seguinte à elaboração do relatório. Enquanto as oitivas avançam, a PF continua cruzando movimentações bancárias e o conteúdo dos equipamentos apreendidos antes de concluir as duas frentes.