Por Cley Medeiros*
A apreensão de atabaques e instrumentos sagrados do terreiro Mina Jejê-Nagô Nossa Senhora da Conceição por seis viaturas da Polícia Militar, em Manaus, no sábado 27 de junho, expôs uma falha estrutural profunda na segurança pública do Amazonas.
Documentos obtidos com exclusividade apontam que a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) mantém engavetado desde 2014 um curso obrigatório contra o racismo religioso.
Para especialistas, a omissão no treinamento reflete diretamente nos indicadores de violência nas ruas: hoje, a polícia amazonense é a que mais mata pessoas negras no país, com 96% das vítimas por letalidade policial, de acordo com o estudo Pele Alvo, da rede de Observatórios da Segurança, divulgados na última semana.
Na noite da ação, a PM foi questionada porque nunca agiu diante do som alto de vigílias de uma igreja evangélica na mesma rua. “Ninguém vê policiais armados lá na frente”, questionou Heriberto dos Santos Sena Junior, sacerdote do terreiro e advogado. “Como vou diminuir o volume se não é um aparelho sonoro? É um tambor”, afirma.
Daniel de Bem, doutor em antropologia e professor do curso de licenciatura em ciências sociais da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS), ressalta que a apreensão rompe a conexão direta com o sagrado. Ele lembra que os tambores passam por rituais de consagração e aprontamento antes das cerimônias.
“Imagina um padre fazendo todas as partes de uma cerimônia, até chegar na entrega da hóstia, e ser impedido de realizar a comunhão”, explica De Bem, que também é membro do Núcleo de Estudos da Religião do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Após as denúncias de intolerância, a Polícia Militar abriu inquérito, afastou os agentes envolvidos e declarou que “não tolera qualquer ato de discriminação”.
O cenário nacional, no entanto, aponta para a consolidação de um “apartheid da segurança pública”, termo usado pela Comissão Arns. O relatório Pele Alvo contabilizou mais de 4.300 mortes por intervenções policiais no último ano no Brasil, sendo 86,3% de vítimas negras.
Vídeo feito durante a apreensão dos instrumentos sagrados
O apagão de ensino documentado
Os documentos que comprovam o apagão na formação policial do Amazonas vieram à tona após o Ministério Público Federal (MPF) investigar uma grave subnotificação de crimes. Em 2024, a SSP-AM informou ter registrado apenas 13 casos de racismo religioso em todo o estado. No mesmo período, porém, 55 denúncias diretas foram feitas ao Disque 100 federal.
A larga diferença levou os procuradores a descobrirem que o curso de “Capacitação e Prevenção aos Ilícitos de Intolerância Religiosa”, aprovado em 2014 em um Termo de Ajustamento de Conduta, nunca saiu do papel.
O MPF classificou a inércia como uma “omissão irrazoável” e rejeitou a justificativa do Instituto Integrado de Ensino de Segurança Pública (IESP), que alegava que a temática já era abordada de forma transversal nas aulas de Direitos Humanos. A reportagem apurou que a implementação do tema também foi cobrada pela Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro de Matriz Africana (Aratrama), durante uma reunião na última semana na sede do Comando Geral da Polícia Militar do Amazonas.
Pressionada e na contramão da PM amazonense, a Guarda Municipal de Manaus começou a investir em cursos contra o racismo em 2025, ano em que passou a usar armas de fogo.
Christian Rocha, instrutor e ativista da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, busca dar um “choque de realidade” na tropa durante as aulas. “Na formação, colocamos exemplos de crimes racistas para que os guardas reconheçam que o racismo estrutural existe antes de ir para a rua”.
Para a advogada Luciana Santos, especialista em questões étnico-raciais, o ensino precisa de imersão. “A educação apenas na sala de aula, não resolve 100%. Seria interessante que os ciclos de formação tivessem visitas e vivências nos terreiros para desmistificar o pensamento racista e eurocêntrico que historicamente nos é imposto, seja na família, seja na escola. Eles poderiam entender melhor a complexidade de cultos e culturas que formam as religiões de matrizes africanas”.
Apenas no primeiro semestre de 2026, o Disque 100 registrou 1.269 denúncias de intolerância religiosa no Brasil, quase metade do total de casos acumulados em todo o ano passado. No topo das vítimas estão os praticantes de Umbanda e Candomblé. No Amazonas, 13 denúncias foram recebidas pela Ouvidoria.

Intolerância de farda e controle territorial
O comandante da operação no terreiro, capitão Ângelo Alcolumbre Alves, revela a face falha da engrenagem. Após apreender os atabaques, o material acabou liberado pelo delegado de plantão por falta de laudo de decibéis.
Alcolumbre então foi às redes sociais criticar a Polícia Civil, chamou o delegado de “omisso” e atualizou seu perfil no Instagram com a frase: “Quem tem JESUS não tem medo das trevas”.
Para Daniel de Bem, atitudes como essa refletem o patrimonialismo e o autoritarismo da cultura institucional brasileira, onde o agente confunde o espaço público com convicções privadas.
“Ao agir de forma truculenta, o policial se enxerga como ‘o dono da lei, em que ele pode ser tanto o acusador, quanto o julgador e o executor'”, aponta.
De Bem afirma que a justificativa de “perturbação de sossego” tem sido a ferramenta padrão — a mesma usada para enviar 14 viaturas da polícia do Paraná para interromper um culto de Umbanda no Terreiro Guerreiros do Vento, em Curitiba, também em junho.
“Utilizam dois pesos e duas medidas: para os amigos, todas as desculpas; para os inimigos, a lei. Templos evangélicos usam caixas de som gigantescas a qualquer hora, mas o ritual de matriz africana não pode”, pontua.
Em outubro de 2025, o capitão Alcolumbre recebeu a maior medalha de honra da PM do Amazonas, a Ordem de Mérito Militar, e acumula mais de 15 elogios na sua ficha policial.
Contudo, ele é alvo do Ministério Público em processos que envolvem abuso de autoridade, agressões e homicídio. O militar também responde a inquéritos militares, onde chegou a ser enquadrado por crimes de estelionato, desrespeito a superior e crítica pública indevida.
Em 2021, testemunhas relataram que o capitão atirou em um jovem de 22 anos e jogou o corpo na viatura “como um animal”; o policial afirma que reagiu a tiros durante uma perseguição. Em outro processo, ele foi livrado por um comandante em um inquérito militar que o acusou de abuso de autoridade contra uma família, durante uma ocorrência em 2023.
Nos autos, o capitão Alcolumbre tem negado a prática de crimes, sustentando que atuou no cumprimento do dever legal e em legítima defesa para resguardar a própria integridade e a dos colegas policiais. Na sua ficha policial, Alcolumbre afirma ser protestante.

De onde vem a intolerância?
Dados do Censo do IBGE apontam que a população evangélica e protestante no Brasil gira em torno de 22% a 26% em regiões como o Nordeste e o Sudeste; no Norte, atinge 36,8% — tornando-a a região mais evangélica do país. Inflados por discursos de alas fundamentalistas, grupos acabam reproduzindo essas ações nas ruas.
A pesquisa “Respeite o meu Terreiro”, do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, revelou que quase 80% dos terreiros já sofreram algum tipo de ataque e, nos casos em que a religião do agressor pôde ser identificada, 59% eram evangélicos.
O sociólogo Fábio Candotti, pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Violência, Poder e Segurança Pública (INViPS), aponta que a repressão revela uma aliança histórica do Estado para proteger apenas a religiosidade dominante.
Para ele, a apreensão dos tambores carrega forte simbolismo: “Não foi um procedimento legal, foi um ato de guerra religiosa, uma demonstração de poder”. Ele ressalta que o controle territorial envolve alianças informais profundas.
“O que chamamos de ‘segurança pública’ é um pedaço do que chamamos de ‘segurança’, e esta é feita de relações entre policiais e outros grupos. Em diversos lugares do Brasil, quem interfere em ritos afro-religiosos, por exemplo, são grupos que comercializam drogas ilícitas”.
O pesquisador observa um fenômeno perigoso em ascensão: agentes de segurança ganhando fama e prestígio nas ruas e na internet ao atuarem como defensores da fé em vez de servidores públicos. “A novidade atual no campo da segurança é a ascensão de policiais à condição de lideranças religiosas. Atuar como um ‘cruzado da fé’ nas ruas garante prestígio”, aponta.
Segundo o sociólogo, a apreensão de atabaques sinaliza a falência da rede de controle sobre a atuação policial. Candotti argumenta que a polícia estuda direitos humanos há décadas, mas mantém a seletividade racial intacta. “Se a formação teórica fosse suficiente, não teríamos a raça e a classe social como critérios silenciosos de seleção de alvos”, explica.
“A dificuldade não é dar curso de formação, mas fazer funcionar a rede de instituições que deveriam exercer o controle sobre a atuação policial. Corregedorias e promotorias, principalmente”, afirma.
Diante da ineficácia estrutural, ele sugere que pautas mais radicais, como a abolição das polícias e a construção de novas instituições de segurança — debate já crescente internacionalmente —, deveriam ganhar mais atenção dos movimentos sociais no Brasil.
“Aliás, essa pauta da abolição das polícias cresce em escala internacional e mereceria maior atenção por parte de movimentos sociais no Brasil. Às vezes, reformar parece mais utópico do que abolir as polícias e construir outras instituições dedicadas à segurança”, conclui Candotti.
Em nota oficial, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) rejeitou o rótulo de “violência policial”, defendeu que as mortes são “intervenções legais” decorrentes de confrontos armados amparados por excludente de ilicitude, e afirmou que a taxa de letalidade do estado figura entre as menores do país, com 44 registros oficiais em 2025 (1,0 caso por 100 mil habitantes).
Sobre a fiscalização da atuação policial, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Amazonas foram procurados pela reportagem, mas não retornaram os pedidos imediatos de respostas. O espaço segue aberto.
*Especial para o ICL Notícias