Já contei para vocês aqui que meu filho se chama Vitor em homenagem ao alpinista Vitor Negrete – o primeiro brasileiro a escalar os 8.850 metros do Monte Everest sem o auxílio de oxigênio suplementar. Vitor morreu na descida, a parte que mais mata naquela montanha.
Nós éramos amigos e compartilhávamos a mesma paixão pelo Everest. Por muito pouco eu não fui cobrir, para a ESPN, aquela temporada — deixamos para a seguinte, que nunca aconteceu.
Almoçamos no Sampa, antigo restaurante que ficava ali pertinho da ESPN, no bairro do Sumaré, na véspera do embarque dele. Vitor estava confiante, feliz e preparado. Ele não esperava o pior, mas sabia que podia acontecer.
Quem pratica esportes de ação e aventura conhece os riscos, os procedimentos e os equipamentos para minimizá-los. Os acidentes entre profissionais são, na maioria, fatalidades.
Eu já saltei de paraquedas, voei de asa-delta, balão, parapente, trike. Já escalei cascata de gelo no Parque do Aconcágua, subi a Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí — onde, um ano depois, um homem morreu —, voei com avião da Esquadrilha da Fumaça, saltei de bungee jump na boca de uma caverna de 150 metros e no Elevador Lacerda, em Salvador. Foram tantas aventuras que mal consigo contar. Sabe qual foi o maior risco que eu já enfrentei? Um acidente de carro com meus pais aos 12 anos.
Juliana Marins também era dessas pessoas que amam o mundo com o corpo inteiro. Ela não morreu por imprudência. Nem por ousadia. Morreu por abandono. Sonhar e realizar não mata. Ainda sou contestada todas as vezes que posto uma foto escalando: “Você é louca!” Não vejo o mesmo tipo de comentário nas redes dos meus amigos homens.
No montanhismo, uma das regras principais é que ninguém fica sozinho. Um guia jamais pode abandonar um cliente na trilha.
A corda usada na primeira tentativa de resgate era pequena. A empresa contratada por Juliana e a infraestrutura do parque falharam.
Oito pessoas morreram ali em cinco anos.
O Monte Rinjani é um dos principais pontos turísticos da Indonésia.
É inaceitável que não exista ali um plano de contingência e equipes treinadas em salvamento em alta montanha.
Faltou tudo para ela.
Juliana morreu sozinha na esperança de um salvamento que não chegou. Não foi o primeiro trekking dela; ela conhecia as regras e, certamente, acreditava que a ajuda viria. Juliana morreu com frio, com fome, sede e dor. Nós, que amamos esses esportes, morremos um pouquinho com ela.
Não culpem Juliana.
Não culpem os aventureiros. Culpar quem sonha é tentar silenciar quem vive.
A gente flerta com a morte a cada minuto de vida — com a nossa própria e com a do outro também.
Levante a mão quem nunca dirigiu cansado ou abusou da sorte em silêncio.
Juliana não errou.
Juliana confiou.
E foi isso que faltou: alguém do outro lado da corda.