Festa do pecado, alienação, escapismo, coisa de bandidos e vagabundos, reino da desordem, antro de promiscuidade, etc. Estas são apenas algumas das diatribes lançadas contra o carnaval ao longo da história do Brasil. Em comum, as críticas e chiliques ignoram os múltiplos e complexos sentidos da festa e a importância dela para a nossa formação.
O carnaval está longe de ser uma celebração de desocupados. Qualquer critica nesse sentido é pueril e absolutamente alheia ao que acontece nos dias de Momo. O carnaval é também, para muita gente que trabalha na folia, alternativa de sobrevivência material.
Mas não é só isso.
Ressaltar exaustivamente a importância do carnaval para a economia das cidades, destacando o enorme potencial de retorno financeiro que ele traz, é fundamental. Mas é pouco e passa longe da relevância do carnaval para a nossa cultura.
As escolas de samba, por exemplo, constituíram-se como instituições comunitárias das populações afrodescendentes nas décadas seguintes à abolição. Possuem ainda, mesmo com todos os dilemas e problemas graves, setores orgânicos (baianas, bateria, passistas, alas comunitárias, crianças) que a partir delas elaboram meios de interação com o chão e o mundo.

No fim das contas, o carnaval está sob ataque faz tempo: os higienistas da casa grande querem eliminá-lo, os tubarões do mercado querem capturá-lo a partir da lógica da circulação de capitais e os mercadores da fé querem atrelá-lo ao imaginário do pecado e da danação da alma.
Ponderações são necessárias. Sou do time dos acham que mensurar a importância do carnaval apenas pela lógica da economia é esvaziar a festa de seu sentido mais amplo. O carnaval gera renda, emprego, retorno para as cidades. Ótimo! Mas não percamos as dimensões mais sensíveis da festa.
Festas populares reconstroem coletividades, tensionam práticas de rua em cidades hostis, redefinem a própria ideia do ser na aventura cotidiana do corpo contra a morte. Essa dimensão — que não é a da felicidade, mas a da alegria — é crucial.
Deu lucro? Excelente! Não deu? O carnaval, esse inventor incessante de sentidos para a vida, há de continuar.