Servidores da Abin desmontam versão de militar sobre ‘operação Luneta’ e apontam irregularidades

Profissionais afirmam que documento não seguiu padrões da doutrina militar e não poderia ser tratado como produto de inteligência
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Por Cleber Lourenço

Servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em caráter isolado e sem manifestação oficial da instituição, contestaram de forma contundente a versão apresentada pelo tenente-coronel Hélio Ferreira Lima ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O militar depôs na ação que investiga sua participação nas articulações golpistas de 2022 e é acusado de atuar em atividades de inteligência voltadas para monitoramento e levantamento de informações sem respaldo legal, com potencial de uso para fins políticos.

Durante o depoimento, Hélio afirmou que o documento intitulado “Desenho Operacional da Operação Luneta” seria um estudo de cenário prospectivo produzido no âmbito da inteligência do Exército. A Operação Luneta, segundo investigações, consistia na elaboração de um material que descrevia possíveis ações e estratégias envolvendo forças de segurança e instituições, em um contexto sensível do país.

Para os servidores da Abin ouvidos, o material não segue a metodologia, os registros formais nem os protocolos definidos pela própria doutrina militar para trabalhos dessa natureza.

Abin

Segundo um dos servidores, um estudo sério no campo da inteligência militar exige processos claros, normatizados e devidamente registrados. “Além de ter metodologia, tem registro. É uma atividade pedagógica, educativa, que envolve outros participantes e gera, no mínimo, uma memória formal do que foi discutido e decidido. Isso não sai da cabeça de uma pessoa. E, se envolve outras forças, como a segurança pública, há protocolos de integração. Esse documento não segue esse padrão.”

Outro servidor foi direto: “O que foi apresentado não é um documento sério de acordo com a doutrina do próprio Exército. Estudos de cenário deixam rastro documental, com atas, conclusões e pareceres. A Operação Luneta é um texto isolado, sem validação e sem ritos formais.”

Profissionais experientes acrescentaram que trabalhos desse tipo não são feitos de forma unilateral: “Um oficial não produz sozinho um estudo com previsões de ações sensíveis. Há sempre revisão, distribuição por canais oficiais e controle de acesso. A Operação Luneta não apresenta nada disso.”

Abin e os servidores

O ICL Notícias também ouviu a União dos Profissionais de Inteligência de Estado (Intelis), entidade que representa servidores da Inteligência de Estado. Em declaração exclusiva, a Intelis explicou que há uma diferença fundamental entre a inteligência militar — voltada para capacidades bélicas e estratégias de operações — e a Inteligência de Estado, destinada a assessorar autoridades na preservação da soberania nacional, na defesa do Estado Democrático de Direito e na concretização dos princípios constitucionais.

A entidade afirmou que nenhuma vertente de inteligência — militar, de Estado, policial, ambiental ou outra — pode ser utilizada para fins privados, políticos ou criminosos, nem para atentar contra direitos fundamentais ou instituições da República.

“A observância rigorosa do interesse público e dos valores democráticos é condição inegociável para a legitimidade de qualquer atividade de inteligência”, destacou. E alertou: “O desvio de finalidade de qualquer ação de inteligência, independentemente de sua origem, compromete a credibilidade institucional e coloca em risco a própria segurança do Estado”.

Para os profissionais ouvidos, a tentativa do militar de apresentar a Operação Luneta como simples exercício hipotético ignora a realidade dos padrões técnicos e institucionais. Na prática, afirmam, o documento não atende aos requisitos para ser considerado produto legítimo de inteligência militar formal e está longe de alcançar o nível de um trabalho estruturado segundo a doutrina oficial.

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