Por Cleber Lourenço
Os governos de Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e Ricardo Nunes, na capital paulista, autorizaram o Banco Digimais, ligado ao bispo Edir Macedo, a operar crédito consignado diretamente na folha de pagamento de policiais militares e servidores públicos em meio a um cenário de deterioração financeira da instituição e elevado volume de reclamações de consumidores.
Na prática, o consignado funciona assim: o banco concede o empréstimo e a parcela é descontada automaticamente do salário do servidor. Para isso acontecer, o banco precisa de autorização do governo para acessar a folha de pagamento. É esse acesso que transforma a decisão administrativa em ponto sensível de controle público.
O que foi autorizado (portarias e atos oficiais)
- PM de São Paulo: contrato nº CIAF 011/2025, de 25/08/2025, autoriza consignações em folha do efetivo da PMESP, com o Banco Digimais como consignatário e vigência vinculada ao credenciamento até 25/02/2030.
- Governo estadual: Comunicado DFP nº 006, de 16/07/2025, libera o uso de código de consignação pelo Digimais no sistema estadual.
- Recadastramento: despacho de 09/06/2025 defere o credenciamento e recadastramento do banco como consignatário.
- Prefeitura de São Paulo: termo de adesão da Secretaria Municipal de Gestão autoriza a atuação do banco na folha municipal, com base no Decreto nº 58.890/2019.
Esses atos colocam, na prática, o banco dentro da folha de pagamento pública, permitindo desconto automático em salário — um modelo de baixo risco para a instituição e alta exposição para o servidor.

Crise financeira e histórico recente do banco
O Digimais, antigo Banco Renner, passou a enfrentar dificuldades a partir da pandemia de Covid-19, quando o aumento da inadimplência afetou sua carteira de crédito. Nos anos seguintes, a situação exigiu aportes recorrentes do controlador para manter a instituição dentro das regras prudenciais do Banco Central.
Entre 2024 e 2025, o banco operou sob pressão patrimonial, registrou prejuízo relevante no exercício e enfrentou uma disputa judicial de cerca de R$ 500 milhões. No mesmo período, uma tentativa de venda da operação foi iniciada e depois cancelada, indicando dificuldades adicionais na reestruturação.
Paralelamente, o Digimais intensificou a captação de recursos oferecendo CDBs com rentabilidade acima da média do mercado. Em um cenário de juros elevados, passaram a aparecer ofertas entre 135% e 140% do CDI, o que, na prática, se aproxima de retornos na casa de 20% ao ano. Esse tipo de estratégia é comum em instituições que precisam atrair recursos rapidamente para sustentar a operação.
Reclamações e problemas no consignado
Os indícios de problemas na atuação do banco não se limitam à sua situação financeira. Levantamento em plataformas públicas de defesa do consumidor, como o Reclame Aqui, aponta um volume expressivo de queixas relacionadas à oferta e execução de crédito consignado pelo Digimais.
- mais de 20 mil reclamações registradas em plataformas públicas
- relatos de cobranças indevidas e empréstimos não autorizados
- casos de descontos em holerite sem reconhecimento
- registros de ligações insistentes oferecendo crédito consignado
Os registros indicam um padrão recorrente de conflitos envolvendo contratos de consignado, modalidade que deveria oferecer maior segurança justamente por estar vinculada à folha de pagamento.
Um dos casos envolve servidor municipal que identificou descontos em folha sem reconhecer a contratação. Segundo o relato, valores passaram a ser debitados diretamente no holerite. O banco respondeu que, após análise interna, não encontrou irregularidades.

O consignado cria uma relação direta entre banco e folha salarial pública. Embora o contrato seja individual, o acesso ao sistema depende de autorização do Estado ou do município. Isso significa que o poder público define quais instituições podem operar e, consequentemente, quais terão acesso a uma base de clientes com renda estável e desconto automático.
Nesse modelo, a escolha das instituições autorizadas exige análise técnica, avaliação de risco e monitoramento de práticas comerciais. Quando essa liberação ocorre em um cenário de pressão financeira e alto volume de reclamações, o tema deixa de ser apenas bancário e passa a envolver responsabilidade administrativa.
A presença da Universal no governo paulista
A autorização ao Digimais ocorre em um ambiente político em que a Igreja Universal do Reino de Deus ampliou sua presença em áreas sensíveis do governo paulista. Esse avanço não se dá de forma pontual, mas por meio de convênios, portarias e parcerias que passaram a integrar a rotina de órgãos públicos, especialmente nas áreas de segurança, sistema prisional, saúde e, mais recentemente, educação.
Na Polícia Militar de São Paulo, a aproximação deixou de se limitar a homenagens institucionais e ganhou contornos operacionais. Desde o início do governo Tarcísio, a corporação concedeu dezenas de medalhas e diplomas à Universal, incluindo a Medalha Challenge Coin, uma das principais honrarias concedidas a civis. Na prática, a frequência das condecorações indica uma relação institucional contínua, com média superior a uma homenagem por mês desde 2023.
Além disso, eventos internos da corporação passaram a ocorrer dentro de templos da igreja. Em junho de 2024, o Comando de Policiamento de Área Metropolitana 11 realizou uma reunião de orientação técnica em um templo da Universal. Em outro episódio, mais de 2,5 mil novos policiais militares participaram de uma atividade de cerca de 12 horas na unidade da igreja no Brás. Segundo a própria organização religiosa, o encontro foi utilizado para o processo de escolha de vagas dos policiais, etapa administrativa da carreira que define lotação e distribuição nas unidades.
A presença da Universal nas forças policiais é estruturada por meio da UFP, a Universal nas Forças Policiais. O grupo afirma manter cerca de 20 mil capelães atuando dentro de unidades policiais em todo o país. Em São Paulo, essa atuação se estende a batalhões, unidades operacionais e espaços sensíveis como a corregedoria e o Presídio Militar Romão Gomes. Na prática, isso cria uma rotina de contato permanente entre a instituição religiosa e o efetivo policial.
No sistema prisional, a relação também foi formalizada. A Secretaria da Administração Penitenciária firmou termo de cooperação técnica com a igreja para oferta de cursos de capacitação profissional a pessoas privadas de liberdade. A atuação inclui iniciativas de qualificação e programas que envolvem educação e trabalho no ambiente carcerário, além de ações de saúde, como campanhas e atendimentos dentro das unidades.
Na área da saúde, a presença aparece vinculada a projetos de atendimento e campanhas dentro do sistema penitenciário, com oferta de consultas e ações voltadas à população privada de liberdade. Esse tipo de atuação amplia a inserção da igreja em políticas públicas que vão além da assistência espiritual.
Já na educação, o avanço passou a gerar reação direta de servidores. Diretorias regionais convocaram profissionais da rede estadual para atividades realizadas em templos da Universal, incluindo reuniões e ciclos de palestras. Professores relatam desconforto com o uso de espaço religioso para orientação institucional, especialmente quando há conteúdo de caráter confessional durante atividades vinculadas ao exercício da função pública.
O movimento também alcança o campo tributário. O governo Tarcísio editou decreto que isenta entidades religiosas do pagamento de ICMS na importação de bens destinados às suas atividades essenciais. A medida, embora abrangente, ocorre em um contexto de forte aproximação com o setor religioso e levanta questionamentos sobre fiscalização e critérios de aplicação, já que o conceito de “finalidade essencial” permite interpretações amplas.
Esse conjunto de ações revela uma ampliação consistente da presença da Universal dentro da estrutura do Estado paulista. Não se trata apenas de participação simbólica ou religiosa, mas de inserção em rotinas administrativas, operacionais e políticas públicas.
Nesse contexto, a autorização ao banco ligado a Edir Macedo deixa de ser um ato isolado e passa a integrar um ambiente mais amplo de relações institucionais. Isso aumenta a necessidade de transparência sobre os critérios adotados pelo poder público para liberar uma instituição em situação financeira fragilizada a operar diretamente sobre a folha salarial de servidores públicos.
Outro lado
SPPREV
A São Paulo Previdência (SPPREV) esclarece que atua exclusivamente como processadora dos descontos em folha de pagamento das consignações autorizadas por seus beneficiários, dentro dos limites legais, entre as mais de 150 instituições financeiras habilitadas para essa finalidade. A SPPREV não participa da celebração dos contratos, tampouco interfere nas condições pactuadas.
A instituição ressalta que o credenciamento das entidades ocorre mediante o cumprimento de requisitos legais e regulamentares previstos no Decreto 60.435/2014. Não cabe à SPPREV a análise de mérito sobre produtos ofertados ou decisões comerciais das instituições. A SPPREV também não possui ingerência sobre o volume de operações e valores consignados. Essa questão é definida exclusivamente pelos contratos celebrados entre as partes privadas e sua evolução está diretamente vinculada à adesão voluntária dos beneficiários. As informações consolidadas sobre consignações podem ser consultadas nos relatórios públicos disponibilizados pela Autarquia.
SSP
A Polícia Militar informa que é uma instituição composta por mais de 80 mil pessoas, com diferentes formações culturais e religiosas, e que respeita a liberdade de consciência e de crença de todo o seu efetivo. As identificações e convicções pessoais dos policiais não representam os valores e os princípios da instituição e não interferem em sua missão primordial de proteger as pessoas por meio de policiamento ostensivo e preventivo. Em situações pontuais, a PM utiliza as instalações de igrejas ou outras instituições, como universidades e prefeituras, para reuniões de instrução a grandes grupos de policiais, de acordo com a necessidade de cada unidade.
Além disso, estão previstas entre as atribuições da PM, de acordo com a legislação vigente e com os princípios de Polícia Comunitária, a atuação em eventos, manifestações, festejos, solenidades e cultos de naturezas religiosas que necessitem e solicitem o apoio policial. Dessa forma, é um procedimento comum algumas comunidades religiosas oferecerem suporte e amparo aos agentes, voluntariamente.
A SSP esclarece, ainda, que mantém políticas próprias de atenção à saúde mental dos profissionais de segurança anteriores às iniciativas federais. Os programas seguem em constante aprimoramento e são alinhados às diretrizes do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e à legislação vigente.
A Polícia Militar conta com o Sistema de Saúde Mental (SISMen), que oferece atendimento especializado por meio do Centro de Atenção Psicológica e Social (CAPS) e de 41 Núcleos de Atenção Psicossocial distribuídos pelo território paulista. Também está disponível o serviço de telepsicologia, voltado a policiais da ativa e da reserva, que já realizou mais de 65 mil atendimentos desde 2023. A Polícia Civil mantém estrutura própria de acolhimento por meio da Divisão de Prevenção e Apoio Assistencial, com atuação de psicólogos e assistentes sociais, além de ações preventivas voltadas ao bem-estar dos servidores.
Digimais
Após a publicação da reportagem, o Banco Digimais enviou notificação extrajudicial ao ICL Notícias contestando trechos da matéria e negando enfrentar crise financeira ou irregularidades em sua operação. Segundo a instituição, o banco registrou lucro de R$ 53 milhões em 2024 e possui patrimônio líquido positivo de R$ 673 milhões, com demonstrações financeiras apresentadas ao Banco Central e auditadas sem ressalvas.
O Digimais também contestou a afirmação de que teria realizado captação agressiva de recursos para sustentar suas operações. Na notificação, a instituição afirma que campanhas com taxas mais elevadas de CDB ocorreram de forma pontual e direcionadas a públicos específicos, sustentando que práticas semelhantes também são adotadas por outras instituições financeiras.
Em relação às reclamações de consumidores, o banco afirma que não existe “volume expressivo” de queixas relacionadas ao crédito consignado e sustenta que mantém índices elevados de resolução de demandas em plataformas de atendimento ao consumidor. A instituição também afirma nunca ter sido alvo de sanções administrativas por supostas “más práticas” ou irregularidades sistêmicas.
O banco ainda rejeitou a interpretação de que exista favorecimento político em sua autorização para operar consignado junto a servidores públicos. Segundo o Digimais, os processos de credenciamento ocorreram com base em critérios técnicos e dentro das normas estabelecidas pela legislação estadual.
A instituição também contestou a associação feita pela reportagem entre a expansão da atuação da Igreja Universal e estruturas do Estado paulista. Na notificação, o banco afirma que as parcerias envolvendo órgãos públicos e entidades ligadas à igreja ocorrem dentro de parâmetros constitucionais e de interesse público, relacionados a ações sociais, educacionais e de assistência.
Por fim, o Digimais afirmou que não possui convênio vigente com a São Paulo Previdência (SPPREV) para operacionalização de empréstimos consignados e declarou que eventual processo administrativo relacionado ao tema ainda estaria em tramitação junto ao governo estadual.