Por Cleber Lourenço
Há pelo menos três certezas na política brasileira: candidato promete cortar privilégios sem jamais especificar os privilegiados, deputado recém-eleito começa a pensar na reeleição antes da posse e, a cada quatro anos, alguém anuncia que o brasileiro finalmente cansou da polarização.
É nesse momento que reaparece a terceira via. Ela chega cercada por empresários, economistas, manifestos e colunistas entusiasmados com a existência de uma imensa massa de brasileiros moderados, racionais e silenciosos aguardando um candidato igualmente moderado, racional e silencioso. O único problema dessa teoria é um detalhe vulgar chamado eleitor.
As pesquisas mais recentes estão especialmente mal-educadas com essa turma.
Datafolha e Quaest colocam Lula com os mesmos 39%. No primeiro, Flávio Bolsonaro tem 33%; no segundo, 30%. Ou seja: os dois campos que supostamente exauriram o país concentram entre 69% e 72% das intenções de voto.
A Atlas/Bloomberg conta a mesma história com números ainda mais brutais: Lula tem 44,9% e Flávio, 35,8%. Oito em cada dez eleitores estão com os dois.
Há diferenças metodológicas entre os institutos, evidentemente, mas quando Atlas, Datafolha e Quaest apontam simultaneamente para a mesma estrutura eleitoral, convém considerar uma hipótese revolucionária: talvez exista uma estrutura eleitoral.
Enquanto isso, os libertadores do brasileiro polarizado continuam disputando migalhas. Na Quaest, Caiado e Renan Santos têm 4% cada; Zema, 2%. Na Atlas, Renan chega a 7,8%, Caiado tem 3,1% e Zema, 2,8%.
É curioso. O brasileiro estaria desesperado por uma terceira via. A terceira via existe. Só falta o brasileiro votar nela.
A explicação tradicional é sempre conveniente: a polarização sufoca as alternativas. Lula e Bolsonaro ocupam todo o espaço, dominam o noticiário, sequestram o debate. Pode haver verdade nisso, mas talvez exista outra pergunta, muito menos confortável.
O que exatamente essas alternativas estão oferecendo para melhorar a vida das pessoas?
Porque há uma característica recorrente em boa parte da terceira via brasileira: ela conversa extraordinariamente bem sobre os problemas que interessam à terceira via brasileira.
Discute tamanho do Estado, eficiência administrativa, reformas, responsabilidade fiscal, ambiente de negócios, modernização, choque de gestão. Nada disso é irrelevante. O problema é transformar meios em finalidade e depois ficar indignado porque o sujeito no ponto de ônibus não se emociona com a perspectiva de um Estado mais enxuto.
O brasileiro não acorda às seis da manhã angustiado com a relação dívida/PIB. Acorda pensando se vai conseguir emprego, se o salário chega ao fim do mês, se haverá médico quando a mãe precisar, se o filho voltará vivo da escola, se consegue pagar aluguel e se a comida continuará cabendo no orçamento.
É aí que frequentemente começa a gagueira.
Pergunte sobre o Estado e aparece uma palestra. Pergunte sobre a fila do SUS e surge uma reforma administrativa. Fale em fome e aparece responsabilidade fiscal. Mencione salário e alguém alerta para os riscos de aumentar despesas. Pergunte como melhorar concretamente a vida do sujeito e, em algum momento, ele acaba ouvindo que o problema é justamente o Estado que ainda oferece alguma coisa a ele.
É uma campanha eleitoral desenhada por alguém que considera o Excel uma experiência sensorial.
Não significa defender Estado grande por esporte, funcionário inútil, desperdício ou gasto irresponsável. Significa apenas lembrar uma coisa espantosamente esquecida por quem pretende governar: política pública precisa resolver problema de gente.
Se você quer reduzir o Estado, ótimo. Explique como o trabalhador terá atendimento médico melhor, escola melhor, transporte melhor e segurança melhor depois da redução. Se quer reformar, diga o que melhora na segunda-feira seguinte. Se quer cortar, explique quem perderá o quê e qual benefício concreto aparecerá no lugar.
“Eficiência” não enche barriga. “Modernização” não baixa febre de criança. “Ambiente de negócios” não impede assalto no ponto de ônibus.
São instrumentos. Não respostas.
Talvez por isso a eterna descoberta de que existe uma multidão de eleitores “nem Lula, nem Bolsonaro” produza tão poucos votos para quem pretende representá-la. Rejeitar os dois polos não significa desejar automaticamente aquilo que está sendo oferecido no meio.
O eleitor pode estar cansado da polarização e, ainda assim, enxergar num dos polos uma resposta mais concreta para seus problemas. Pode detestar o barulho e continuar sabendo perfeitamente de que lado prefere estar quando a discussão chega ao salário, ao emprego, ao SUS, à segurança ou aos direitos.
A terceira via costuma interpretar isso como irracionalidade do eleitor.
É mais confortável.
Se o candidato marca 3%, dizem que falta conhecimento. Se chega a 4%, falta exposição. Se volta a 3%, a polarização o esmagou. Se termina irrelevante, conclui-se que havia um gigantesco espaço no centro, infelizmente desperdiçado.
Nunca ocorre perguntar se o gigantesco espaço talvez estivesse ocupado por uma gigantesca falta de interesse.
A terceira via quer convencer o brasileiro de que o problema é o Estado, a polarização, os extremos, o populismo, a velha política e, em dias especialmente inspirados, o próprio modelo de país.
O brasileiro, sujeito inconveniente, continua perguntando uma coisa muito menos sofisticada:
“Tá. E minha vida melhora como?”
Enquanto a resposta vier em PowerPoint, talvez Lula e Bolsonaro possam dormir tranquilos.